Abissal
Elton Daniel Leme

Abissal

Parte I — Poesias

Enfim nasce meu silêncio

Blocos 6
Poemas 64
Publicação 2025
Editora Leme Editorial
Abertura

Carta na garrafa ao leitor

Há mais de 25 anos escrevo como que para expulsar de mim as palavras e colocar um pouco de ordem ao caos íntimo e externo. A poesia abriu os caminhos no processo catártico de se revelar ao mundo, mas sempre evitei timidamente isso. Compartilhei minhas obras com pouquíssimas pessoas e, mesmo criando meu blog, também não divulguei com quase ninguém.

Depois de alguns anos, comecei a escrever crônicas, destilando assim todo o fel amargo, as ironias e os sarcasmos, aprimorando meu orgulho presunçoso de um estilo mais refinado, ainda permeado de poesia sufocante.

Então muitos outros anos se passaram e eu já havia juntado centenas de crônicas e abandonado ao relento mais uma série de poesias. Esqueci desse empreendimento. Esqueci de quem sou.

Só recentemente decidi publicar meu livro, mostrando os passos embrionários de quem sou hoje. A tarefa mais difícil foi reler e organizar os materiais em blocos inteligíveis.

E assim retomo um caminho sem volta. Quero finalizar essa Gestalt para voltar a escrever, pois as palavras são como água, e seu itinerário é como o mar revolto. E eu volto a tomar o leme nas mãos.

Ao leitor, se essa obra chegou às suas mãos e foi percorrida pelos seus olhos, só espero que toque sua alma e liberte seu intelecto.

Dedicatória

Agradecimento mais do que necessário

Antes mesmo de nascer escritor, fui filho. E só pude parir essas palavras porque fui gestado, no corpo e na alma, por duas presenças fundadoras da minha travessia.

Ao meu pai, o alquimista discreto, que mesmo sem fórmulas exatas, transformou seu labor em base sólida para meus passos. Entendi, com o tempo, que o silêncio dos bastidores é uma forma de amor e que há ternura na teimosia de quem não soube cuidar de si porque estava ocupado cuidando dos seus.

Sua luta silenciosa, por vezes incompreendida, foi alicerce invisível da minha formação. Da sua força, aprendi o valor da persistência mesmo em meio às agruras. Das suas quedas, tirei lições que nem os livros souberam me ensinar. A ele dedico o perdão, a amizade e o respeito conquistados com o tempo. E também essa poesia insistente que me habita e que talvez ele, no fundo, tenha pressentido em seus próprios silêncios.

Hoje, o menino que te julgava é o homem que te admira. E cada verso que escrevo é, em parte, um esforço de compreender a tua alquimia.

À minha mãe, presença luminosa, farol em noites turvas. Ela foi e é o abrigo onde repousa minha esperança. Seu sorriso é pássaro que resiste à gaiola, sua ternura é capa contra o mundo.

Se hoje ainda creio na beleza da vida, é porque herdei dela esse dom de transformar as dores em delicadeza. Sua força não veio do grito, mas da permanência. Seu afeto não foi ostentação, mas raiz.

Foi ela quem ofertou a mim o dom da sensibilidade e me ensinou, sem palavras, que a verdade pode ser dita com o olhar. Vera é sua graça. Seu amor foi minha primeira linguagem e talvez por isso eu escreva até hoje tentando decifrá-la.

Hoje percebo que minhas palavras, mesmo quando duras, carregam ecos do que recebi de vocês dois. Ele, o rigor da dedicação e a constância teimosa. Ela, a generosidade das entrelinhas e o dom da empatia. E juntos, mesmo em desencontros ou silêncios, teceram o palco onde este livro pôde nascer. Se algum mérito houver nestas páginas, ele é partilhado com vocês.

Este livro não é uma obra isolada: é também um gesto de reconciliação com a história que me formou, uma carta em voz alta para dois personagens reais que foram e são maiores do que qualquer metáfora.

Vocês, de modos distintos e complementares, foram o princípio de toda essa linguagem. Este livro nasceu do silêncio, mas só foi possível porque antes tive tudo que precisava para ser feliz.

A vocês, minha palavra mais difícil e preciosa: gratidão. Aquela que, quando verdadeira, não precisa ser explicada.

Prefácio

Prefaciando a inquietude das palavras

Há escritores que escrevem por gosto, por ofício ou por hábito. Outros, como Elton Daniel Leme, escrevem por necessidade. Escrevem como quem implode em silêncio. Como quem escava, com as próprias unhas, as camadas mais fundas do ser, para extrair de lá uma centelha, ainda que turva, ainda que inacabada, de lucidez ou alívio.

Este livro não nasceu de um projeto literário, mas de um longo processo de escuta interna. São mais de 25 anos em que palavras foram sendo sussurradas, cuspidas ou transcritas por alguém que não conseguia se calar, ainda que tentasse.

As poesias aqui reunidas não pediram licença para existir. Elas irromperam, primeiro como válvula de escape, depois como trilha de retorno.

Elton, psicólogo de profissão e "poeta" por condição, carrega em seus versos a síntese paradoxal de quem vive entre a escuta do outro e o grito contido de si. Sua poesia não é feita de ornamentos, mas de travessias. Não é performance estética, mas escavação simbólica. A linguagem aqui não é apenas expressão, é matéria-prima do existir.

As seis partes que compõem esta primeira metade do livro não são compartimentos estanques. São estações de uma mesma jornada: da inefabilidade à intuição, do caos íntimo à epifania. Cada bloco se inicia com uma introdução prosaica, não explicativa, mas evocativa, como pequenos faróis na neblina. Porque o que importa não é compreender os poemas: é permitir que eles nos toquem, mesmo que nos desconcertem.

Elton não datou suas poesias, e isso não é um lapso: é gesto. Em cada uma delas, habita simultaneamente o menino silenciado e o homem que busca, o náufrago e o filósofo, o sarcástico e o sagrado. As palavras se confundem com sua biografia emocional, mas não se esgotam nela. São palavras que nos pertencem também, se ousarmos olhar para dentro.

Ao leitor que decidir seguir adiante, aviso: este é um livro que exige presença. Um livro que talvez lhe roube o fôlego ou o devolva. Um livro que começa com o nascimento do silêncio e desemboca, aos poucos, no rumor de um pensamento vivo.

E, se porventura a travessia poética lhe parecer densa ou rarefeita demais, não feche o livro ainda. Avance até a segunda parte das crônicas. Ali, o mesmo autor ressurge com outra pele: mais direto, mais sarcástico, mais despido ainda. A poesia torna-se crítica, ironia, indignação, mas nunca cínica. Porque mesmo na acidez, Elton ainda acredita no ser humano. E sua escrita é a forma de manter acesa essa fé fatigada, mas teimosa.

Este livro é, afinal, um convite ao mergulho, mas também um espelho. É garrafa lançada ao mar e também mapa do naufrágio. Cabe ao leitor decidir se vai apenas observar a superfície... ou deixar-se tocar pelas profundezas.


I

Inefabilidade e premência

Começo esse primeiro bloco de poesias, pois é isso que elas são — tijolos que formataram minha existência. Sua maternal presença me acolheu, mas também me entorpeceu entre trilhas de se perder.

Antes dos 18 anos, fui me tornando um peixe apartado do cardume humano, perdido em abissais profundezas do meu psiquismo.

Escrever foi a válvula de escape e elemento ordenador do inefável que me oprimia a intimidade. Encontrei uma forma de dar vazão às palavras e me admirei com o resultado de um caos tecido em forma de versos.

Ao mesmo tempo que fui engatinhando na escola de me conhecer, fiquei inundado de símbolos e conhecimentos adquiridos precocemente.

E o mundo foi me contaminando com seu mar de injustiças e de seres doutrinadores cagadores de cartilhas. Não é preciso dizer que me tornei uma esponja na enxurrada de informações que vomitavam para mim.

Mas o caminho de volta é outra estória, a ser contada muito mais para a frente desse livro.

Caro leitor, tente ser benevolente ao ler os primeiros rabiscos disformes de quem eu era. Essas primeiras poesias podem ajudar a descobrir se a sabedoria é algo que pode ficar guardada em uma gaveta, ou não.

Enfim nasce meu silêncio
Enfim nasce meu silêncio Não como isenção ou inação Tampouco para alarde ou anúncio Mas como paz que clamava Há tempos um átimo de alegria Que os lábios tenham coragem Os olhos não negligenciem Os braços nunca sem cruzem Frente à injustiça na treva densaAproxima-se a palavra viva Manifestação real do caminhar Arquitetura de um novo degrau A serenidade vinda da certeza Que em nós habita a beleza Muito além da iniquidade E dos ímpios trajes de orgulhoNasce o homem de si De seu espírito etéreoMas haverá dia em que ergueremos Nos ombros a pureza dos atos O agir será pelo não agir O amor sobrepujando a palavraVivificada pela alma E calar-se-á frente ao olhar Do silêncio que elucidaEnfim nasceu meu silêncio Grito lancinante a romper a aurora Engatinhando no chão da estrada Tendo a certeza de que o mundo não é só meu E que viver é fazer a vida acontecer
Fímbria de luz
A fertilidade repousa no agora num dócil semear Seu vicejar independe de nossos olhos ansiosos E só vemos a lentidão da aparência Cobrindo a celeridade misteriosa dos bastidoresMeu archote alumia apenas as proximidades Consinto que este é um limite O descortinar ocorre na medida do andar Novos caminhos vão se desenhandoO quão delicado é aguardar o instante A oportunidade e suas respectivas possibilidades Um trabalhar passivamente orquestradoEncontrar a rima pode depender da paciência Mas por hora conduzo a prosa Aguardando afoito a poesia
Atracado
Vivo porque ainda não cumpri o itinerário Apenas busco o silêncio precário Entre a multidão de palavras Que desfilam em minha mente Dum pensamento confuso e temerárioSe há a verdade da vida Essa não compactua com a lógica mundana Pois corre poesia em minhas veias Densa como uma chuva forte A desaguar em solo ressequidoVivo a agitação íntima e perene E peço ao universo Somente a indizível paz Que eu possa sentir comigo mesmoMinha ansiedade engole o mundo E meu exagerado modo de ser Toma proporções estratosféricas Que nem eu próprio entendoO navio está atracado Aguardando as chuvas que o possam içar Para deslizar na vazão De correntezas indomáveis
Na lentidão da noite
Noite que se estende lentamente Com seu silêncio definitivoE alguns ruídos monótonos Mas agora tenho um pouco de pazPenso no que o mundo quer me dizer Com sua agitação desenfreadaTalvez o cuidado com as coisas pequenas E a atenção própria para uma batalhaPeço à noite um pouco da sua paz Que me traga refúgio e inspiração Pois sei que não posso me eximirEntão mostra-me uma luz Um caminho no meio Desta confusão que engendreiSei que tudo está certo Mesmo sendo difícil de admitir Ninguém escapa de viverA noite se estende lentamente A noite se entende E amanhã a vida...
Inspiração
Mensagem que surge Aparentemente desconexa Encaixa nos recônditos do coração Nas reentrâncias da mente Parecendo mero desencontro Mas manifesta os eflúvios do peito Trafega em ondas arrebatadoras Que se espraiam para caminhos De uma liberdade sem fimDeixo que as vozes se apaguem Pois só trazem fórmulas gastas Repetições vazias de afeição Então emudeço frente à paz Que vejo no teu semblante Onde ficam estampadas as marcas De uma disposição que transforma Por estradas que serpenteamos E dos passos que ensaiamos
O colossal ato de pensar
Resto comigo a pensar Sobre o que é ao certo O poder de imaginar E que nos faz criar Toda a vastidão em siQue nos situa na dimensão Chamada eu No campo denominado nós Cessando os esforços Ou impulsionando nossa vontadeCria ilhas ou constrói pontes Fabrica suas delicadas peças E forma um todo Nadando na superfície Ou mergulhando na imensidãoFico pensando comigo Maravilhado e só Misturado e mesmo assim Com esta sensação estranha Se tal pensamento é só meu
Plenitude
Deixa o pensamento surgir Do silêncio emergir Desfilando num eterno devirSons e tons de doce alento Vibrações do sentimento Completude e contentamentoSeja no momento aprazado Um sol que brilha extasiado A noite que abriga o ser iluminadoDedo que aponta a porta e a chave Que nos conduz nessa nave Ou planando qual fosse uma aveCarrega nos ombros a tua coragem Dentre as ruínas ao longo da viagem Que o seu alento não é mera miragemNo labor de sua capacidade Nutrindo seu espírito de verdade Reflete sua incessante liberdade
Prismas da imaginação
O poder de imaginar nos situa Na vastidão denominada eu Bem como no campo grandioso Chamado humanidadeCriando ilhas e destruindo atalhos Erguendo torres e cavando buracos Misturando e separandoE seu efeito chega a se tornar físico Criando pesadelos fabulosos Ou pavimentando o caminhoTambém constrói suas masmorras e palácios Pintando para si paisagens ou abstrações É tão real a ponto de tocar uma fímbria de luz E o insondável o guia na sua trajetória ousada
Não sou racional
Se o percurso te assemelha qual névoa densa Cerra teus olhos tal criança em prece Crê na concretude do que lhe acontece Na singeleza daquilo que não se pensaSorvemos os fluídos benfazejos e cristalinos Do rio de águas subterrâneas d'alma Pro futuro corrigir todos nossos desatinos E calar a palradora palavra que nunca acalmaAbsolutamente nada espera e nunca aguarda Os pensamentos sucumbem na densa treva Ante teu ato puro e intenso que te resguarda Como a luz do conhecimento que te eleva
Hausto de vida
Silêncio que reconvida a me notar Dissipando toda essa ancestral inquietação A ouvir a minha vilipendiada intuição Mensageiro discreto sempre a sussurrarSobre a beleza que jaz em quem a busca Rompendo o casulo do medo que ofusca Luzes que incidem em meus olhos frementes Em cada paragem trocando minhas lentesOs sons ressoam com nitidez os sentidos amplificados As rotas e fluxos incessantemente alterados Cores da vida que eu só percebo agora Sobre as cinzas pisadas daquilo que fui outrora
Escrito n'alma
Contraditório que sou Insano me levo a sério Sensível busco a indiferença Triste teço piadasO mundo me observa E se distancia se observado De mim me afasto Por não me estreitarJogo no lixo as anotações Roteiros aparentemente seguros E num improviso sincero Abro o peito ao desafioResta-me apenas o sentir A fugacidade da tradução A ousadia de me conduzir Da superfície ao mar abissal

II

Itinerários e descaminhos

Aqui, ao reler as poesias cobertas pelo pó do tempo e do meu descaso, percebo alguém que não se conformava e buscava seu próprio caminho entre tantas trilhas de se prender ou se perder.

E no caminho, geralmente, costumamos dar muita atenção aos passantes ou se fixar em nossos passos sem olhar ao redor.

Seja como for, estamos ouvindo as vozes ao longo do percurso e por vezes nos damos conta de algum aviso. As mensagens emaranhadas das poesias, dentre as linhas retas do quotidiano. E a vida prosaica permeada pelo absurdo e o assombro.

Estamos todos perdidos, mas todos nesse mesmo barco. Outrora era mais empático, mas não me entendia com profundidade. Hoje me compreendo melhor, mas estou recuperando a conexão com as pessoas e comigo mesmo.

Precisei parar para revisitar com calma o que escrevi, absorvendo as emanações das palavras e seu calor. Talvez tenha passado muitos anos exercitando a arte do autoengano.

Essa maestria de agora só me fez um especialista de coisa alguma, enquanto o ofício de viver talvez seja a maior contribuição que se possa compartilhar entre nós ainda humanos.

Eterno Peregrino
Restaurar a pureza primordial Sem os laivos da maldade Não é mera ingenuidade É armadura contra a palavra mortalNeste regresso ao mundo natal Há que se escavar com vontade Perfurando o monólito da verdade Até a partícula essencialDesviar a flecha letal Dos bem-intencionados do mau E lapidar tal habilidadeMirar ao fundo algum sinal Ignorando intempéries e o final Entre os enganos da realidade
Ponte
Sê cauteloso na construção da ponte Que ousar alicerçar logo adiante Sem se perder num ímpeto ou rompante Mirando o que o teu farol apontePor mais que a vida lhe chame A realizar feitos no mundo externo Procura em teu íntimo o calor eternoAntes que a cera derrameO caminho é feito de passos De armadilha e de laços Siga diligente e prudenteErgue tua fortaleza dormente Numa pedra que se sustente Entre as fronteiras dos seus traços
Caminho que se repete
Palmilha em círculo de fogo Num crepitar de emanações adormecidas Pairando sobre um mundo de malogro De esperanças compartidasO caminho era flamejante Caminhar era apenas um sucedâneo Para aquele ser sempre errante Dum mistério subterrâneoMergulhar me trazia à tona novamente Para ouvir os augúrios e os desejos De um pulsar de dor emergente Da angústia em seus harpejosMais uma vez o caminho se repete E tal descrição ao final jogo fora E aquilo que me compete Solidão que me apavora
Cores internas
Corri mundo afora procurando Mas somente corri Sempre apressado em conquistar Seduzir e se deixar atrairEsgotei a mim e aos outros Também o mundo ao redor Até que sobrou só meu tédioFiquei à mercê do tempo Recolhido no meu canto Disfarcei meu encanto Sem esperanças fiquei Porque tudo parece tão triste E o que fazemos tão erradoSenti-me exaurido de forças Por isso decidi fechar meus olhos Para que eles não me iludam maisApenas quero sentir o que importa O que meu coração me dizPorque as cores só reluzem Quando tocam o espírito Um olhar ou sorriso Que despe nossa armaduraLuta contra o egoísmo e a auto-importância Em busca dos mistérios Que habitam dentro de nósCorri o mundo procurando Mas foi só quando parei de correr que encontrei
Casulo
Há tempos vasculho augúrios Minhas poesias e seus murmúrios Lamentos e prantos tantos Um canto pelos cantos O tédio imerso em tristeza A desconhecida certezaSou casulo adormecido Ou algo bem parecido Porta sem fechadura Doente que evita a cura Observando a roda cruel Do passado que rompe seu véuAbraço minhas pernas encolhidas Verdades que jazem escondidas Num mundo que resta oculto Sou um mero e pálido vultoE inútil é qualquer remédio Que não me livre do tédioPois ou faço a mudança derradeira Ou serei a vítima primeira Da minha própria atrocidade Da minha bela falsidadePor teimar em não fazer uma pausa Para encontrar em minha qual é a causaDe ser um sincretismo de confusões Fachada de eternas desilusões Tensão entre as linhas da poesia Fuga constante da realidade doentia Tornei-me retrato transparente Dum sorriso que não me deixa contente
Autodescobrimento
Espelho da vida Olhos alheios Máscaras que carrego Versos que encarcereiPulo do trampolim Em águas profundas Emergindo apenas o eu Seguro e confianteChego a confundir-me Com aquilo que invento Chaves que se encerram Em paragens íntimasDescerro portas Janelas que atravesso Captando as nuances Que colorem minh'alma
Traçando alguns versos
A partir dos versos meus Apropriei muitos eus Sem olhar para os céus Ou a essência com seus véusTentei traçar a rota com simetria E ser constante no dia a dia E a direção se repetia Buscando afastar a apatiaNo afã de lidar com o pretérito irreparável Revisei as palavras com espírito renovável E não obstante aos labirintos o mais provável Foi tornar a realidade algo palatávelE então meu olhar se iluminou Enquanto minha estrela me guiou Presença qual poder de pássaro que ficou Em cume alto repousouE despreocupado acolhi o assombro Carregando a esperança no meu ombro Resgatando meus restos do escombro Dando luz as ideias que ensombro
Passageiro
Se constantes ventos soturnos Atravessarem a espessura do dia A vida será o momento aproveitado Manifestado por ações e palavrasUm fio tênue e delicado Que a sutileza do sol clareia Faz o viver imenso Desvelando o lado obscuro Por lampejos intempestivos Dilacerados pelo tempoA solidão então é fardo e fado Caminho pois ao som do vento Sussurrando altos ideais E buscando apaziguar o egoEnxergamos a doença e a ilusão Mas a vida continua Tão perene quanto a relva Como o orvalho da manhã Inevitável e imperiosamente Sem nos deixar desanimarNuvens cobrem o destino Enquanto os homens descobrem A arte de viver Na transitoriedade e na permanência
Forma que antecede a poesia
A facilidade do equívoco Derruba o monopólio da certeza Das definições acerca da vida E dos pacotes que englobam tudoExtrapolemos as fronteiras Que a simplicidade escancara Derrotemos a legião de autoenganados Ceifando a endurecida ignorânciaSejamos a espada que reparte o real Daquele resto de esperançaDe um simples não crer De um mero caprichoAntes que tudo fosse nada Alguma coisa era plausível Esta origem inusitada Que não teve um começo
Mensageira
Poesia insana e parida do meu cansaço Corta o espaço por entre feridas Através do vermelho sanguíneo E do torpor dos meus delírios De um rumor cheio de exatidão Que trilha os abismos de fúria e ilusãoTalvez uma voz ecoada de paragens distantes Conte sobre a sabedoria divina que nos mobiliza Mas muitas filosofias desconfiam de um sussurro Advindo de dentro do ser humano Capaz de orientar seus atos Qual estrela guia no céuMuitos seguem como demônios De seus próprios instintos Afoitos por uma chama de desejo Outros à procura de uma ilusão Para iluminar o caminhoEntre o berço e a covaCaminha a poesia justa e cruel Que cria seus versos para cada um de nós Tecida com nossos próprios pensamentos Fazendo de cada um carcereiro Ou pastor de seu próprio destino

III

Dualidade e antagonismo

Incrível como que as dualidades podem parecer tão próximas em certos momentos da vida, principalmente no início da estrada. Essa confusão apavora pela insegurança que as palavras carregam em seu bojo, misturadas com percepções derivadas dos sentimentos, afora o instinto e as sensações.

E assim os opostos caminham lado a lado, desde a semente até a árvore ressequida. A busca da verdade é cansativa e por vezes improfícua, mas o espírito busca a transcendência e a imanência, algo de perene que possa se ancorar.

As forças íntimas antagônicas lutavam contra si, para determinar sua supremacia. Ao mesmo tempo que sabia quem era, parecia que havia um elemento ignorado que precisava florescer firmando raízes.

As palavras brotavam de si como se provenientes de fontes externas. Talvez fosse apenas ele mesmo a ditar o vocabulário próprio do seu ser real.

Miragens íntimas
Sofria com antecedência As mazelas da imaginação E ante a evidência Sobrou-lhe resíduos de resignaçãoEm vão tecia fantasias De um futuro quase tangível Suas mãos restaram vazias Na colheita do invisívelPlausível era sua lógica Sua dúvida era trágica Era atroz a dualidadePartia-se em antagonismo Na voracidade ou no abismo A perpétua busca da verdade
Olhar implacável
A verdade nos olhos é irrefutável Tapa as bocas falastronas Interrompe a máquina do intelecto Todos estacionam diante do seu brilho Ante sua chama implacável Recuam e desviam o olharNão ousam penetrar seus mares Para não desapegar da incerteza A coragem está dentro de seus círculos A humildade na sua calmaria A inteligência ou estultície não se escondem E perscrutamos seu mistério puro e inefávelA curiosidade sonda e ronda Por janelas e frestas que se revelam Os olhos são espelhos Explicitam a tristeza ou alegria A convicção e a dúvida Mostram a centelha e a ferida essencial
Ferida Essencial
Estranha angústia Ânsia parida do peito No seio do imperfeito Do nada ao manifesto fazer Do aparente não-viver Estranha angústiaRespirar não satisfaz Alimento só aquele da alma Sem um pingo de calma Um estar repleto de impaciência Coração que esconde a ciência Vida que revive e refazCoisa abstrata Habita no vácuo do desconhecido Objeto perdido Vive de perfeição Endireita o espírito na ação Que a aflição arrastaPeito que bate Um pulsar que emana de onde Uma fonte mui antiga esconde Não sabemos até quando Eternamente se desvelando Até que alguém o constateO mistério nos cabe Ou escolhemos que sim Ou não Por isso eu vim Ou talvez não Ninguém sabe
A ideia é vida e morte
A ideia é o caminho Que poder ser um labirinto O pensamento o bálsamo Ou inferno que sintoA ideia é a prisão E o livramento Ou minha redenção Conforme o pensamentoA ideia é a virtude E a arte de pensar Às vezes nos ilude Noutras o clarearNasce a ideia cristalina Gera o verbo divino Alimenta ou fascina Determina o nosso destinoA ideia é a morte E gesta a vida Para quem é forte E suporta sua subida
Castelo na areia
Como um grande mar em movimento Onde se agitam o saber e o esquecimento Contempla o interminável drama da vidaVida esta que resta em seu tormento Para depois acenarmos com a despedida (E saber que ela não foi perdida)Antes não ter obstáculos que a dificultem... Mas como provarmos nosso valor? Conquistar-se e ser o seu próprio senhor!Antes de tudo viver Antes que os castelos afundem Espalhados nas areias eternas e etéreas do amor
Tateando a plenitude
Brota do corpo o desejo Forma que sinto e vejo Obscura no seu querer Onde possa aparecerForma da erraticidade Semente da angústia e da saudade O tanto querer do vício humano Fuga do divino ao mar insanoTranscende em essência primeiro Aquilo que o faz prisioneiro Em si mesmo acorrentado A sabedoria do que foi atormentadoEm seus pensamentos de correnteza Quebra os grilhões da certeza Da tua pungente incompreensão E acaba com toda corrupçãoVindos do nada e distante Assim caminhamos neste instante Vamos seguindo ao incerto Percorrendo por muito pertoOs caminhos da alegria Na quietude que nos cria Evitamos as asas da plenitude A passos profundos de paz amiúde
Enigmas
Em imensidões virginais Vadeiam meus devaneios Que por demasiados súbitos Rasgam a noite da esperança Armam um teatro e dramatizam Com mordaz seriedade Arrancam um sorriso irônico Dos lábios dos deusesA duração de tais estrelas A medida dos meus dias Contemplação e cântico Raiz de meus versos Mapa dos meus sonhos Alarde das minhas visõesMinha fronte aclara desejos antigos Apaziguados pelos pensamentos tecidos Intrinsecamente inseridos Pungentes em toda a trajetória Retornam ao aconchego dos enigmasMinha ânsia de completude é voraz A espera da essência misteriosa A aurora instigante e feminina Desconhecida e igualmente enfurecida Prendendo-me a castelos libidinosos Sublimando espaços e totalidadesEm braços delicados de toques inebriantes Em olhos de curiosidade e domínio Distribuo ilusões democráticas e fiéis Na manutenção de tais mistérios
Recomeço
Asserena teu peito Frágil figura De hausto ofegante Soergue tua fronte Retém em teu semblante Benfazeja alegria Sustentáculo do esforço Tensiona tuas fibras Retomando o árduo caminhoRecomeça Com toda tu'alma E só não pensa Em viver tua vida Surdo ao coração Envereda na simplicidade Não queira ser nada Importante é sentir tudo Dentro de ti
Lei de cada instante
Fiel à minha lei de cada instante Celebro a impossível normalidade Após os rompantes da loucura A insanidade da coragem persistente De simplesmente ser eu mesmoSupero as ilusões cadentes Sonhos de luz resplandecentes Na singeleza dum único brilhar De um ponto que se move A busca louca por permanências
Quimera
Em lúgubre noite repousarei Cessarei o idílio plangente para devanear Não o mero sonho de quem imagina que ama Mas daquele que tenciona se dominarHoje ao repousar extenuado em meu leito Buscarei um adormecer minimamente consciente Se acalmando ao silenciar o peito Parando o diálogo pernicioso da menteQuando findar a azáfama deste meu dia Penetrarei na escuridão da noite conselheira Sentirei o peso sobejo e etéreo da poesia Ao entrar na sua senda d'alguma maneiraChegaremos enfim ao mesmo lugar O que importa são os caminhos do coração Na espreita de si ou no íntimo sondar Reverenciando a vida de vertiginosa amplidão
Dualidade e Antagonismo
O poder de imaginar Nos situa na região vasta Denominada eu Bem como no campo imenso Chamado humanidadeCria ilhas e destrói atalhos Ergue torres e cava buracos Mistura e separaSeus efeitos são físicos Cria pesadelos e cristaliza Ergue palácios e pinta paisagens Desassossega e harmoniza
Peso onírico
Consinto que o mistério se apresente Com a roupagem que lhe aprouver Descortinadas todas as possibilidades Entre este mundo e o de láIgnoro qual a morada real dos pensamentos Peço apenas a lâmpada para as respostas Que minha fronte se torne leve Para não vergar sob o peso das certezasCedo algum espaço para a minha alma Sem olvidar a carne que a enlaça Mas deixo a mente expandir e elevar A consciência qual um mar volátilE sigo por estradas que mal iniciei E talvez possa abandonar Entro nos impérios do sonho Despido do que possa me ancorar

IV

Desumanidade e empatia

Talvez, nesse capítulo, se perceba mais a desumanidade do que a empatia. É possível que o poeta sofresse de uma enfermidade crônico-empática e qual uma esponja estivesse saturado do fator humano.

Em uma fase da vida, cambaleamos entre a misantropia e a esperança no homo-sapiens. Mas, a esperança é um vírus teimoso e pandêmico. No final, vence a realidade pungente e alucinante.

A poesia, por sua vez, é o que faz ser plausível a vida, ainda que estejamos nessa mesma nau humana, numa arca de animais que se julgam divinos.

Nunca datei os escritos. Não sei dizer se perdi as peças do tabuleiro. É dolorido ver minha estupidez ou ignorância infantil. E o pior é constatar que ainda subi apenas um degrau no mister de viver a vida.

A vida é esse caminho solitário e o exercício da convivência. Será que há algum aprendizado de fato possível? Enxergar a humanidade sem se contaminar. Espalhar sementes e erguer nosso archote. Sigamos.

Sombras de Humanidade
Vindo do nada ao tempo Rasgou-lhe o vazio Firmou-se no chão Ergueu-se do ventreA brutalidade de sobreviver O pavor de sempre sofrer E da felicidade ameaçadora Exigiu veracidade da alma Dos desejos e das razõesE logo se alçou com destreza O fracasso apoderou-se do homem Pobre figura de sincretismos Sem ponto de equilíbrio ou referênciaA tempestade o açoitou Sentimental e de feições animalescas Não se julgou capaz De se desvencilhar do orgulho Teve medo de errar Do seu desmerecimentoSua modéstia ilusória Crivou-o de sofrimento Despertou-lhe falsa fé Seu medo da pequenez Remexeu suas víscerasEspelho contemplativo Enxergou a hipocrisia E a mediocridade Acovardado não quis perder Seu quinhão de moedas ilusóriasViu sua face a fremer Num vácuo a se desfazer Sofrendo a solidão de si mesmo
Cronologia das Dores
Gerações jazeram antes do fatídico agora Sangue vertido dentro da arredoma de egoísmo Milhares na inércia e na inépcia a evocar a hecatombe Corruptos de todos os naipes chafurdando na cupidez E ainda todos aqueles com medo da auroraComplexas são as causas do desamparo Nossa história de lutas e mortes cruéis Carentes de amparoSem esboçarmos o ato solidário Por quanto somos a pulular neste orbe Viemos de um só lugar e retornaremos inexoravelmenteArrastamos a fúria intrínseca do universo De nossa vaidosa e centrípeta força umbilical Tornamos a encetar a espiral da perfeiçãoQue poderá com os séculos distantes Apaziguar as memórias do nosso cambaleante coração
Semivivo
Rodeado pela turba acéfala Bilhões que pululam desenfreadamente Lotando o depósito humanoPovoam este jardim terreno Acrescem mais um elo Nesta corrente de escravosPopulações gigantescas Urgem por migalhas de vida Filhos do desprezo nas filas do descaso Corações mendigando afeto Sorrisos que se anulam no cinza Olhares opacos que são milharesSequer diviso alguém na neblina São figuras fantasmagóricas Numa tentativa patética de simulacro Predadores travestidos de samaritanos Destituídos de singularidade e cintilânciaPor isso busco a autenticidade que se camuflaMeu olhar canaliza o infinito O aspecto irrevogável e premente do momento Prismando possibilidades na usina dos sonhos Cristalizando instantes Nas veredas que se descortinam Numa aprazível e pungente realidade
Semeador
Quem está sempre disponível Certamente será dilapidado Ao contar seus sentimentos Sem ser solicitado Dando a atenção desnecessária Demonstrando a importância Que sequer quer ser notada Tornando o especial trivialidade Sem despertar a presençaHá a possibilidade na inteireza O convite para o conhecimento A surpresa para quem almeja E para quem prefere previsões Melhor ocultar o que é reluzente Para quem prefere enigmas Basta deixar evidente Se imaginarem de antemão Só um sorriso lacônico
Premência
Correr atrás das coisas Quando nada existe à frente Estender os braços para o céu Quando não há limitesLutar incansavelmente Quando inexistem inimigos Partir rumo ao incognoscível Quando este sucumbe Ante nossa estupidez Eis o desnecessárioAndar ao teu lado Sem propósitos compreensíveis Notar a desimportância Dentre a multidão de coisas "importantes" Trabalhar em campos interiores Quando a esterilidade permeia o entorno Circunvagar o olhar Quando o foco tonteia a visão Apontar a imensidão Despir-se de tudo mais Eis o essencial
O riso do guerreiro
A seriedade ou comédia da vida Para mim tanto faz Acima dos personagens está a plateia Além do bem e do mau Mesmo que seja um picadeiro macabro Ou então um hospital psiquiátrico Ou eterna escola de repetentes Ou palco de celebridades aposentadas Ou de peregrinos aflitos Ou sei lá o que somos nósNão somos mais importantes que ninguém E nem nada sobre o pó que se ergue Num mundo sem certo ou errado Vislumbrando o belo e a feiura Sondando a realidade crua Rindo da loucura Espantado com a lucidez Pelas veredas do coração Numa vida pura e implacável Que não requer explicação
Fragmentos da noite
Noite onde inexiste o conhecido Aos pobres e minguantes olhos humanos Que remonta à escuridão primordial Revelando faces de linhas sombrias Remetendo à persistente tristeza De expressões soturnasOs deuses desdenhosos riem Com seus olhos baços e opacos Qual peixes fisgados já mortos E nos observam desgovernados Qual insetos rasgando o negrume Sobre matas obscurasSob o brilho escarlate da lua Figuras curiosas surgem do invisível No seu afã de pertencer à carne E estranham este ser que transita e transcende Entre a estupidez e a plenitude do mistério Este ser chamado humanoQue não se sabe ao certo se sabe Que ignoramos se ele deveras vê Que não auscultamos seu ritmo Que desconhecemos seu paradeiro E não sabemos onde mora Mesmo habitando no próprio espanto ou tédioNa noite tudo é escuro Ainda que o fogo ilumine algumas árvores Mas o desconhecido fulgura e assusta Todos os portadores da velada consciência Existem na luz dentro da escuridão São fragmentos da noite
Figuras Paralelas
Forma esculpida Mármore esbranquiçado Horizontalmente perfeita Rastros de brilhoRetira-me Da toca obscura Para olhar a eleita Criatura puraPor detrás das pedras Aparecem sorrateiras Rastejando sua volúpia Dentro de sua fendaRasgam o mundo Qual gato selvagem Atravessa florestas De segredos váriosFiguras paralelas Entre os mundos E os muros São lampejosDentro duma visão Sombras rápidas Que abraçamos Mas que deslizam Na paisagem brutalFiguras paralelas Restamos perplexos Dançamos no fogo Tingimos as vestes De um ser meio animal Brincando como espectros Entre demônios e santosFiguras paralelas De olhos felinos e misteriosos Feiticeiras por natureza Adoram não fazer sentidoAnte a máquina negra da razão Assustam o intelecto obtuso Acariciando as barbas da ignorância
Epopeia
Conversas paralelas Discurso sobre tijolos O muro da ciência é labirinto Infestado com teias de ilusãoO ser humano tenciona ser gente Mas despreza seus irmãos Com seu rosto metálico E gestos maquinaisPara aliviar a dor Esculpiu sua emoção Num processo ilógico Belo como outroraEnte apartado da Terra Empunhou a espada Mercadejou a poesia Perdeu seu poder de vooEspargia alegria fortuita Lançava moedas de luz Agora escravizado por reflexos Sua arte virou fezesOutrora víamos artistas Agora só masmorras metafísicas Onde proliferam doenças d'alma Maneirismos e esquisitices bizarrasNa fábrica de miragens Arquitetou uma realidade triste Refletiu o homem No espelho repartido do tempoPunhais manchados de sangue Confundidos com a glória O ser humano é algoz Assassino cruel doutrosHeróis na sua mansuetude Nos resgataram da abissal estupidez Todos que se tornaram desumanos Sem notar sua escassez de amorErigiram estátuas dos mortos A palidez contrastou com as trevas Elegemos um juiz invisível Atroz e onipresenteA caneta riscou o livro e podou sonhos Pôs cercas no ilimitado Pulamos do oceano Para o aquário das restriçõesO ladrão rezou para roubar Mas só encontrou seres andrajosos Corou ante os moralistas E dormiu extenuado no solo da realidade
Olhos que espreitam
Soturnos olhos se esgueiravam embaçados pela fantasia Ouvidos que captavam a gritaria e os tácitos acordos Bocas capciosas que vociferavam impropérios Semblantes sorrateiros e de metálica indiferença Empanavam o que antes era alegria e qualquer cintilânciaDentre os pilares da pretensa sabedoria As mentes tacanhas gozavam da razão adormecida Esfacelando as visões do intelecto esfarrapado Havia apenas ovelhas rebeldes e desconfiadas Brincando do velho jogo de ter autonomiaEu fui infante e dancei a sôfrega música do descaso Sorri entre as celas imperdoáveis do mundo Fiz a mesma ciranda em círculos de escravidão e sorri Para a sedução inescapável dos loucos arbítrios E minhas mãos acenavam desvitalizadas para o desconhecidoPassavam sóis e luas e nuvens de saberes vilipendiados Acerca de verdades entranhadas e relegadas D'um mundo perene e implacável Que acolhe risonhos ou tristonhos Que despreza os vencedores e oprimidosOs raios solares fustigavam as costas dos escravos Daqueles que não competiam e dos que se digladiavam O saber iluminava as frontes carregadas e doridas Na travessia das pontes de imorredoura esperança inatingível Perseguindo os rastros de sombrias e antiquíssimas profeciasVia nitidamente e com loucos reflexos O semblante brônzeo que vigiava escrituras Encapuzado e carregando sua espada enferrujada Taciturno detinha a chave dourada Contemplava tudo isso dos seus jardins inventadosO tempo girava sanguíneo no firmamento Na remota escuridão da minha consciência Na fragilidade de meu coração conselheiro Retendo em si sua efêmera condição E a ousadia de conter a incertezaA vida era ainda batalha que se travava Insolúvel e dentro de domínios misteriosos Cercada por mil muralhas e fronteiras Permeada por imperiosos e infindáveis desafios Hermeticamente fechada pela obscuridadeVislumbrávamos as flechas envenenadas Cruzando os olhares de inimigos ocultos Mas estávamos enclausurados na monótona canção Aspirando a escadas da eternidade Sem vermos nossas próprias chagas moraisNão víamos nossa degradante condição Tampouco o incômodo nos livrava da estupidez Ou nos amparava das armadilhas de constante ilusão Para enxergarmos as maravilhas intocadas E enfim auscultarmos o pulsar íntimoProfundos foram os oceanos dantes navegados As correntes e os afetos desvelados As ondas revoltas que nos sacudiam do ápice ao abismo Pois repletos estávamos de sonhos e de neve Serpenteamos por escarpas dolorosas e anestesiadosIgnoramos a íngreme subida da vitória Longínquas foram as curvas e insanos os atalhos Imensos eram os desvios que não eram a estrada No final da estrada apenas outro caminho... O porto prometido não restava nestes rincõesÀ beira da procissão ressonavam violões Serenatas mui tristes exultando o assombro Convidando com a dissonância melodiosa De volta aos recantos plácidos e silenciosos Víamos grande séquito de seres que retornavamSenti grande tédio e murmurei a canção da monotonia Caçoaram de minha teimosia e da estática posição Eu preso à inércia assistindo à rotação dos planetas No solo concretizado do obsoleto simplesmente olvidei Eu era puro lamento e caí em desgraçaMas a amiga morte ainda não tinha me tocado Os relógios marcavam a hora determinada Do eclipse da humanidade Entretanto sobrou a solar realidade Obliterada pela lua negra do infinito e dos nossos desvariosO incomensurável beijou nossa testa calejada de milagres E ajoelhados ante o incognoscível vimos um olhar divino Que distante e sisudo chorava nossa animalesca condição A ampulheta quebrada derramava a areia gelada Que o vento deixou pulverizada na plenitude da imensidão

V

Imanência e transcendência

É possível ao homem transcender sua débil condição? Talvez pense que sim, mas é provável que apenas precise cumprir sua destinação. E essa tarefa, engendrada por alguém sentado em um trono, talhando em uma pedra que só vai virar pó com os milênios, é invisível aos olhos humanos.

Ninguém sabe ler os desígnios e somos enganados por uma multidão que finge ou crê ser capaz disso. Como transcender o cárcere? Como escapar desse escafandro de barro?

O ser humano é um animal e um pouco além disso, mas não se deslumbre. Das suas possibilidades apenas temos um vislumbre. E ele almeja o encontro, o afago, o assombro. Busca fugir da apatia e imagina, fugindo a esmo de si.

As pessoas ainda brincam com as palavras, sem que elas conectem com sua essência, seu saber, sua verdade. Quando eu era criança levava a sério essa mágica de cuidar das palavras, tentando descobrir seu conteúdo precioso. Agora que supostamente sou adulto, vejo que perdi o encanto ao deixa-las em gaiolas para serem admiradas.

E esse conversar consigo aquece um pouco a chama no peito. Quiçá eu tenha sido alguém melhor, mais próximo a algo humano. Preciso recuperar essa imanência perdida. Transcender ainda é outra estrada e me indago se algum dia cheguei na borda desse mar.

Fulgurante
Só quando o homem silencia seu diálogo interior Ou quando é barrado na sua ilusão Que consegue descobrir para que foi destinado Que se permite escapar de seu rumo errado Toma coragem e se pergunta O que realmente tem importância em sua vidaAí então já não se importa com o que conhece Nem percebe mais a pessoa que é Muito menos sofre demais pelo que sente Entretanto toma conta daquilo que pode fazer Os limites que pode superarE qualquer sacrifício é pouco Toda força é o primeiro passo Sabe que seu trabalho é imenso E seu amor é a potência que move Sua liberdade faz libertar E seu coração puro traz para si Todas as condições de modificar Aquilo que outrora era prisão Mas hoje é chama que purificaO coração do homem pulsa Ele já não se aguenta parado Precisa agir E as palavras são brasa no peito Que agora é pequeno para guardar O impulso forte Que o transforma por onde andar
Enluarado
Com meu carinho abre-se a flor Solta a beleza por inteira nua És como o sol e todo seu calor Eu triste como a minguante luaEm seu noturno e belo mistério Que em sua brilhante aura irradia Todo o esplendor de um império Governado pelo dom da poesiaCom meu amor alarga-se a fresta Entre a fantasia e a realidade A sombra de outrora agora me resta Tua presença nesta hora me invadeQuero pousar minhas mãos em teu rosto Pois sou humano e poeta apaixonado Deixo o encanto e todo o gosto Versos dum coração enluarado
Brilho de outono
Procuro-te Entre o pôr-do-sol Píncaros inacessíveis Crateras e profundidades Tesouro armazenado Segredado por tua vozNo sorriso que ofereço Uma alegria emudece Desaparece o orgulho Sem promessas Sinceridade singela Um interesse puroÉ na crua realidade que piso Comovido e surpreso Preenchido com o invisível Colhendo os frutos Além da beleza Vejo algo a maisUm alguém Caminhante na ilusão Tornando-se única Singular num horizonte Vasto e promissor De doação e amor
Sinuosidade
Olhos com certa flama Sem palavra emanada Só mãos que afagam Ante a promessa Mera possibilidade Carinho que dura Caminho que curaDevassa a treva densa Sorriso que desnuda Destino que se abre qual flor Quebra a estátua de mármore Abraço que enlaça o poeta E seus versos lamuriosos Olhos de encontrarRompe o que é mero instante Mãos de bálsamo Senda que traga e pulsa Por veredas desconhecidas Purifica com teu fogo Centrípeto desejo De querer inextinguívelEm teu seio a volúpia Que os ares sopram nos picos Águas contornam montanhas Itinerário ou destino Alma que singra Cântico de beleza Errando por portos aprazíveis
Uma nova poesia
Escrevo nova poesia Tosca e simplérrima Às vãs retinas Que nada desvelamEscrevi versos antes Testemunhando a sinceridade Tangendo frágeis fibras Chancelando indeléveis marcasEscrevia versos outrora Como quero agora De pureza e delicadeza Profundamente exarados em mimEscrevo versos neste momento Nas raias do tormento Vazio e escasso Para adentrar num mundo possívelEscrevo versos novos Mesmo que com palavras antigas E com rimas pobres Mas com sentimentoEscrevo o poema Que em si erradia A vida interior Um universo cioso de completudeAnseio a mansidão d'alma O bálsamo dos sons e imagens Um toque que me vitalize E pulse esse coração intenso
Odisseia do sentimento
O sentimento é destemido Arma-se de coragem Ante a carranca da razão Segue sua intuição Como numa viagem Rumo a um reino desconhecidoO intelecto confirma os seus motivos Que antes não atinava Por pura teimosia Apenas insistia Na linha que calculava Que o enquadrava no mundo dos vivosPulsante centelha que nos anima Sem a qual a mente esvanece Obedece só ao império da alma Não age pela calma Incomoda até que algo acontece Não abdica aquilo a que a iluminaEm suas peripécias não anda só Pois quer cantar aos ventos E precisa de parceria Para organizar seu caos e a poesia Compartilhar os seus alentos E renascer do pó
Poeta teimoso
Escrevo por insistência Pois se abandono a ideia Ela me persegue A erguer a ponte Entre dois universosMinhas linhas tortuosas Na profundidade de poça d'água São tentativas tímidas De expressar o intangível Só que me atrapalho entre elasConfio nas letras mentais Que passam pela tela abstrata Mas seus traços são suaves De uma tinta etérea A pairar em meus domíniosO que é meu é um tanto universal Misturo as cores e os tons ao léu E no final percebem o quadro Em distâncias diferentes Espero ansioso o espectador atento
Reflexo de oceano
Aprecia o raso e mergulho caótico No intenso turbilhão dos oceanos Miraculoso paradeiro de alguns seres Nem gente e nem forma Revestidos de uma alma de altivez E da turbidez das profundezasContenho comigo um sorriso Uma alegria meninaO segredo do peixe que nunca é enredado Em seu fluir de liberdade Não serei estrangulado Dada minha dança escorregadiaQueria ofertar segurança Só que o conflito das emoções Surge me rasgando o peito Como compromisso inefável Partícula insondável e invisível Sobre um pilar inquebrantávelEnsaio falar sobre amor Mas gaguejo sem objetividade Indigno que sou de pronunciar certas palavras Preso n'algum degrau Nos ciclos remotos de outrora Travando a roda do tempoGostaria de dizer que não (mentiria) Ou talvez que sim (assustado) Parcamente me entendo Menos do que eu posso sentir Contemplo assombrado as cercanias E aguardo o destino entediado e curioso
Onde um rio começa
Não sabemos ao certo Nem onde ou quando um rio começa Indeterminada fonte de sentimentos Fisgados que somos pelos momentos Dum gostar que simplesmente não cessaTalvez até antes pressentido O sopro de sua iminência D'uma delicada e preciosa presença De um querer bem e ser querido Além de tudo que se pensaNunca saberemos tampouco Quando ou onde o mesmo rio termina Desaguando qual saudade de um louco Do mistério da noite e do muito que foi pouco Dessa certeza que alucina
Um corpo que intenta
Vaso que encerra sabedoria inaudita Modelado em paragens inacessíveis Dum mistério entranhado em si Para além da impossível gênese desse caosMáquina bruta arquitetada com delicadeza Invólucro de centelha desconhecida Flutuando no mar incognoscível Enlaçado pela Terra amorosaComo um espelho d'água Refletimos a diversidade e o perecível A constância e a pujança do movimento Fluxo incessante e fugazMinha veste rota foi forjada Com desejo inextinguível e transcendente Da fonte d'um corpo que intenta A mercê de uma sombra a rir nos bastidores
Uma palavra
Palavra tão bela Sussurra a mortal condição Redescobre mistérios Que no fim inexistemNão possui residência fixa E a vastidão lhe guia Num mundo igualmente incrível Habitado por criaturas de segredosPara além do seu degredo Palavra que cala e abala Derrubando certezas e deslumbram Todavia não dizem tudoInexiste a origem se não pensamos O pensamento é escravo e carrasco Ardiloso e requintado em suas tramas Grosseiro e ignóbil quando despido Da mística universal do infinitoPalavra que rompe correntes Se esta é feita de ilusão Extremada marca como fogo Veemente ergue muros de desumanidadeHonradas na boca do erudito Mas o sábio cospe em seu caminho E a criança mostra a língua de desprezo Podendo se mostrar rude e pungenteMuitas vezes tenaz e atroz Ademais parece a outrem execrável Alhures ferindo de asco ou fadiga Podendo criar um sincretismo junto ao tédioAs palavras tangem a realidade e a fantasia Formatam as mentes cativas Criam vínculos e laços cegos Parindo a poesia do vácuoConstroem castelos sobre nuvens Cheias de sutilezas prendem a atenção Podres por dentro cheiram fétidas Ruminam e corroem o coraçãoTentando ser fatídicas e conclusivas Embora se mostrem quase torpesAs palavras são belas em um minuto Noutro repugnam e enfurecemSe esgueirando nos calabouços inconscientes Muitas vezes vazias E escamoteadas de hipocrisia Sua falsidade cria volúpias e demôniosCom inúmeros sentimentos de vileza Elas despontam no sol ou obscurecem a alma Agradam aos ímpios e néscios Confundem os ineptos e selvagensSó não enganam mesmo o olhar sempre cálido E não olvidam nosso enfadado prosaísmo Quando seu espírito é de matéria poética Podem ostentar glórias e aprazer os crâniosMas não satisfaz um átimo da plenitude Diminuem a felicidade que virou fórmula Aumentam as guerras Que aceleram as máquinasExiste a palavra se o homem É morador respeitável do mundo que o cerca Palavra aquela que nos cala Que diz sem falar nadaQue esconde carinhosamente Mas não se oculta no casulo da magiaA palavras parecem mais com a brisa Como um carinho que não promessaUm sussurro indecifrável e esclarecedor A palavra nos traz medo e angústia Mas nos impulsiona avante na nave Terra Ela é a nau inquieta com destino ao desconhecidoÉ a partícula do átomo da explicação O quase entender e a quase vida Fragmento do ser E vislumbre da verdadeA palavra é o combustível da mente O bálsamo do inenarrável A palavra é mãe do tempo Pintura sorridente dos quadros de humanidadeMatemática imprecisa parida do absoluto Faz seu banquete da arte Faz chorar todos os deuses Emudece todos os poetasProvoca os seus cantores A palavra nada no mar fundamental Primórdio das filosofias Sementes nos livros e nas estóriasA palavra quer ser luz Mas somente com a ajuda do homem Que é mais do que palavra Podemos iluminar as ideiasPorque a palavra é criança E o homem fruto do indescritível E ambos como árvores De raízes profundasPlantadas no solo do insondável Não existirá arma mais poderosa Do que a palavra Quando estas cessaremSerão tão vivas Qual chamas do fogo E as águas do mar Mais do que palavras

VI

Epifania e intuição

Desculpe caro leitor não conseguir estabelecer pontes, ou mesmo criar conexões entre os textos. Minhas sinapses estão eletrificadas pela embriagadora força da poesia. Talvez a transcendência almejada seja o fugir da apatia e da nossa prosaica condição. O olhar do poeta enxerga dentro do insignificante e do tédio. Mas quem sabe eu seja apenas um tolo como sempre?

Porém, é possível que eu tenha tropeçado em fragmentos de eternidade ou escutado um sussurro que falasse sobre coisas depositadas no armário do perene. Essa voz que confunde, sem saber se emana de rincões externos ou de compartimentos do eu.

Devo ter me confundido achando que sou essas vozes, pensamentos, vivências e encenações. Isso é perturbador mesmo! E isso a que chamo de personalidade poder ser tanto a teimosia sedimentada por fatores caóticos, quanto uma essência que não se dissolve com a morte.

Convido você a pular do trampolim sem olhar o que está abaixo. Não importa o que pensei ou senti ao escrever esse último bloco de poesias. O coração não é apenas um músculo, guardando algo que brilha e sobrepuja. Importa a mim apenas seu olhar como que fisgando as palavras e guardando em sua rede.

Você abriu a garrafa e lá estavam palavras proferidas pela alma. Eu não estive escrevendo todos esses anos. Estava apenas esperando alguém para conversar sobre o inefável.

Mesmerizado
Quando finalmente se encarar Intimamente só verá chamas a arder Um vazio profundo e pleno Tal como um lago parado no tempoSentirá somente um tremor Uma tristeza indefinida Qual fosse um chamado do infinito E tudo findará exatamente igualUma certeza absoluta reinará Sobre este mundo ser uma farsa Em que pouco sabemos de útil E investigaremos além da ilhaQuando realmente se despir O vento fustigará tua face O mundo parirá a maravilha Do seu ventre de mistérioQuando o sol raiar Verá que todos os trabalhos são iguais Todos os caminhos são iguais O final é inexoravelmente o mesmoQuando finalmente chegar Saberá que o fim não é promessa Conhecerá os segredos Dos meus olhos surpresos
Corpo e alma
Primeiro adejaram os corpos luminosos Jornadeando rumo ao desconhecido Inaugurando a palavra mirífica e cambiante Preenchendo os espíritos com movimentoFinalmente acercou-se o gesto Acariciado pelo frêmito da emoção Incendiado pelos intempestivos desejos Numa rota de obscuro silêncioE contempladas pela beleza As figuras humanas resplandecem No fascinante orbe azulado Com sorrisos belos e trágicosSob a púrpura abóbada celeste Caminham sérios e graves Em busca do instante sublime Mas suportando a limpidezNa busca incandescente do singularÉ inevitável sentir o halo de tristeza Visto nosso desajeitado trato Com as sutilezas e surpresasPeço sobremaneira que essa delicadeza Não nos desvie daquilo que somosDas canções que nós compomos E mantenha a chama do amor acesa
Essência
Dentro de todos nós Dormita um princípio inato Proveniente do passado Remoto e longínquo Donde nada recordamos Mas sutilmente intuímosEsta intrínseca sabedoria Encapsulada e atuante Jaz em cada um de nós Qual luz tremeluzente e distante Mergulhada nas profundezas d'almaLá existe algo resguardado Como se fosse o cerne precioso Ancorado no solo intocado Aguardando o romper de sua latênciaTal centro não se intitula Este saber não se estipula É o sentir que carece falarDo espírito em sua transparência Essência da essência Da luz a propagar
Sutilezas da Força
É fácil ser difícil Emular suficiência Emanar plenitude Renunciar ao banquete Ostentar leveza Brilhar a frieza Projetar força E esconder o ocoBem como é fácil Emergir o superficial Revelar a obviedade Iluminar os cegos Hastear a hipocrisia Gritar o evidente Alardear o comum E aguardar na filaDura batalha Esforço de silenciar Secar a fronte febril Evocar a força sutil Dar vazão ao inteligível Confiar no inominável Seguir o irresistível E se arriscar
Ideia operária
O genuíno conceito Parido da contradição Paradoxo e convicção Sobrepuja o intelecto Conduz sem dirigir Sem tentar extinguir Sua ferida essencialO legítimo saber Sabe da própria pequenez Pungente saber Qual pedra de moinho Fragmenta os enganos Deixando um fino pó De conhecimentoAs ideias flutuam Sobre o templo interior Tímida luz de esplendor Que tudo abarca Encerrada dentro de nós Que estamos dentro de tudo E mergulhamos no seio do nada
Saber Residual
Ouvimos estórias romantizadas Ao longo de muitos evos Que narravam as peripécias De certos agentes invisíveis Que ainda hoje perseguimos Em passos vacilantesIgnoramos as palavras vociferadas Pelos humildes servos Obliterados nos bastidores Qual chamas se extinguindo Na derradeira lenha De um saber profundoFazemos muito alarde Criamos nosso inferno Interno depósito dos pensamentos De ilusões que alimentamos E apropriamos tal compêndio De palavras alheiasE tudo são epifenômenos Formando lagos de contemplação Uma porta na mente dual Por entre mundos paralelos De um caminho partido ao meio Dentre nomes e conceitosE essa ilusão foi sendo regada Até que suas raízes venceram o cansaço Suplantando a pungente realidade Mas surgiu uma flor falsa e extemporânea Dando apenas um fruto amargoEsgota-te enfim na energia desse carvão Nessa dança efêmera Retorna ao perpétuo e belo Pureza que se doou E devassa a escuridão Limpando o caminho que se sujou
Fluxo d'água
Singulares que somos Singramos nesse mar A que tudo permeia E seguimos ao léuHabitando o momento Sem antecedentes Nessa morada De cercas provisóriasSomos uma gota A indi(vi)sível partícula Frutos diversos Dispersos pela terraSomos a correnteza Dos fatos inefáveis Nos agarrando à margem E fitando rostos familiaresBuscando quem esteja vivo Para partilhar o desejo Ensejo de mergulhar Na fonte insondável
No firmamento
A mente é como o céu límpido Algumas aves atravessam seu horizonte Assim como os pensamentos fazem Prestemos atenção ou nãoCada cenário traz uma imagem fluída Escolhemos os elementos como foco Com critérios muitas vezes misteriosos Mas algo fixa o olharO ciclo perpétuo da lembrança Registros e repetições Desviando a vida do agoraO olhar a circundar A comparação com outras paragens Das vidas de outrora
Do inverno à primavera
Quantas as vezes que eu mudei Do inverno à primavera Nem eu mesmo sei Quando a vida simplesmente era Nada mais do que soltarQuantas as vezes que eu fiquei Numa triste quimera E por fim quase acreditei Na vida qual longa espera Dum impreciso e simples amarQuantos dias se passaram Na insistência do sofrimento Nunca mais os meses findaram Ou se eternizou o momento Duma nostalgia que transbordouQuantos dias se arrastaram Por ficar assim tão desatento Em se esquecer que ficaram Para trás e em movimento Memórias da saudade que restou
Ode insoldável
Na curva insondável Entre a solidão E a multidão Toma a si mesmo E ao mundo Nas mãosE depois da atitude O claro testemunho Que o existir É este momento Ousado Onde um ser incansável Depõe o seu rumo Sem ter outra arma Ou outra paixão Além da vida Frágil e destemida E da morte lenta Mas não perdida
Partícula de esperança
Quando revisito minhas poesias Perco a esperança Que algum dia venha a tecer Ao menos uma delasFaço minha parcela de luz Cambaleante Tento me nortear Com meu fraco holofoteAntes ansiava afastar a angústia Agora a quero íntima Incomodando minha esperançaSigo sempre insatisfeito Sempre hesitante Cheio de incertezas e ainda de esperança
Em si
Carrega consigo o amor ao belo Entre as sombras que lhe toldam a visão Percorre os pântanos da sua rotina Rumo à fertilidade do seu coraçãoAcalanta as suas criações Cultiva o seu jardim Bebe da sua própria fonte Mergulha desse trampolim
Encerramento

Posfácio poético

Eis que chega o fim, ou talvez um contorno temporário. Porque as palavras, quando ditas de dentro, não conhecem ponto final. Elas reverberam. Vibram como um eco sutil no fundo do peito, mesmo depois da última sílaba escrita.

Essas poesias que agora repousam diante dos seus olhos não foram feitas para impressionar. Foram feitas para existir. São fragmentos de memória, sopros de angústia, lampejos de beleza e lapsos de lucidez. Não seguem uma escola. Não obedecem a um ritmo. São vestígios, ora de mim, ora de algo maior do que eu.

Por muito tempo, escrevi como quem não queria ser lido. Guardava versos em gavetas, esquecia palavras em cadernos antigos, silenciava minha própria linguagem. Como se a escrita fosse um gesto íntimo demais para o mundo. Mas chega um momento em que o silêncio se transforma em ruído e precisa ser compartilhado.

Cada bloco poético que você percorreu foi uma tentativa de organizar o caos. De dar forma à matéria bruta do sentir. De nomear o indizível. E se algo lhe tocou, ainda que levemente, então as palavras cumpriram seu destino, não o de explicar, mas o de acender.

Agora, é hora de outra travessia. A poesia, como todo rito, precisa de um limiar. E logo adiante, o verbo se transforma. A forma muda, o tom se adensa ou se afia.

A segunda parte deste livro traz crônicas, textos mais encarnados, mais sarcásticos, por vezes ríspidos. Mas a poesia continua ali, por trás de cada ironia, como uma brasa que não se apaga.

Talvez seja assim o viver: alternância entre verso e prosa. Entre lampejo e rotina. Entre aquilo que nos transcende e o que nos adoece. Entre o indizível e o dito.

Sim, assim nasceu meu silêncio, mas ele não terminou aqui.

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