Abissal
Elton Daniel Leme

Abissal

Parte III — Crônicas, Volume II

Enfado e mistério

Capítulos3
Crônicas124
Publicação2025
EditoraLeme Editorial
Abertura

Introdução sem necessidade

Avisei que nessa parte do livro eu traria as crônicas mais críticas, tecendo comentários sobre nossa suposta humanidade. Não posso dizer que há algum tom humorístico nelas e tampouco algum tipo de solução. Então, essa introdução não é um encorajamento.

Ao organizar esse livro, inicialmente pensei em inverter a ordem das partes, trazendo primeiro essas crônicas que seguirão. Na sequência eu deixaria as crônicas mais profundas e angustiantes. E deixaria as poesias para o fim, em um ápice de esperança e transformação. Todavia, se assim o fizessem estaria traindo a mim mesmo.

Escrevo esse livro para mim, antes de tudo. Quis mostrar um caminho que desembocou onde me encontro agora. Então quis dar um fechamento para essa fase da vida que vivi. Assim, esse livro não vai terminar de forma otimista. Desculpe leitor.

Mas, depois que eu terminar, poderei me concentrar novamente na escrita que abandonei. Não haveria como eu começar outras obras, sem fechar esse ciclo. Hoje me sinto preparado para acolher novamente esse meu lado artístico. A poesia vai me ajudar nesse reencontro comigo.

Todo esse material precisava ganhar vida e ser publicado, como uma obra acabada. Que eu sou hoje, você verá nos próximos livros. Achei importante mostrar esse passado a vocês, mesmo sabendo que pouquíssimas pessoas irão ler esse livro.


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Ser Humano

Nem sempre a violência se anuncia com estardalhaço. Às vezes, ela se apresenta em voz baixa, sob a forma de conselhos bem-intencionados, slogans de campanha motivacional, processos seletivos “humanizados”, preces pasteurizadas ou fluxos intermináveis de tarefas sem alma.

Vivemos tempos em que a ausência de sentido foi substituída por distração. Tempos em que a profundidade virou inconveniente e a sensibilidade, uma ameaça à produtividade. Sentir demais passou a ser disfuncional. Pensar demais, contraproducente. Parar, então, virou quase crime.

O texto que segue não quer corrigir o mundo. Talvez nem queira explicá-lo. Apenas registrar o espanto de quem ainda se recusa a adormecer de olhos abertos. De quem tropeça nos absurdos cotidianos e ainda consegue, em algum grau, se incomodar com a barbárie sutil de uma sociedade que chama de “vida” aquilo que já perdeu o nome.

Escrever, aqui, é uma forma de não se ausentar. De manter acesa uma fagulha de presença, mesmo que tímida, mesmo que ferida, diante de um cenário que insiste em nos tornar personagens secundários da nossa própria história.

Escrever uma prosa Para introduzir a poesia Talvez faça sentido Como tentativa de explicação Já trazer a poesia Como mestre de cerimônias Costuma não ser boa ideia Pois é confusa ao se expressar Falar do ser humano E da experiência desumana Retira quase toda a beleza De suas linhas Criticar a pátria Sendo um refém em suas cercas Só traz amargura E um tanto de desventura Os olhos do poeta Estavam atentos A aventura dos seres Entes do mundo A realidade o atormentava E a poesia o amamentou Mas logo quis provar Do alimento da razão Perdeu-se nas trilhas De uma realidade fria E se atormentou Ao mostrar as feridas abertas
O Estagiário

A leitura é algo edificante, semente espargida em campos férteis da imaginação. Quem se aventura nestes escaninhos da mente guarda a avidez de compreender. A busca pela verdade, no amor ou angústia da sabedoria e da ignorância, nos leva a intensificar nosso poder criador, mas igualmente nossas vastas ilusões.

Escutei recentemente: “Agora é hora de você praticar!” Uma mola interna acionou em mim o mecanismo misterioso do insight. Isso não significa que meu processo de aprendizagem terminou, mas que preciso me esvaziar destas informações que transbordam, visando à metamorfose do conhecimento. “Pôr a mão na massa” — eis um termo de valor profundo, embora muitas vezes desprezado alhures. Quero usar meus sentidos para me mover pelo planeta. A cabeça é o filtro da alma, reservando o elemento inteligível e palatável. Em algum lugar de mim há uma expansão do existir, uma torrente do que sou, o movimento inextinguível de ser.

Todas as mazelas que sobrevieram foram ocasionadas pela minha ingênua intenção de ser o que não sou. Sou o recipiente inerente e inato de mim mesmo, que não se esvai em desperdício. Talvez eu consiga lapidar como enxergo o mundo, imerso em sua azáfama. Quero suar a camisa no esforço visceral que molda a existência, sem a filosofia do imponderável.

O componente tátil da experiência tange as cordas deste instrumento mundano e entorpecente. Quero sentir tudo que é destinado ao ser humano. Dou “minha cara à tapa” e só vou vivendo, frente ao que se apresenta na superfície, atento aos rugidos do meu animal interior. Vou lendo o que se passa em mim e acalmo as teclas aceleradas da minha mente. Já descansei bastante, mas agora busco a paz em meio ao turbilhão.

Preservo apenas a leitura do que escrevo e de poucos materiais que se ajustam à reciclagem dos meus conhecimentos. Depois dos exaustivos treinos, só me ocorre praticar ao menos alguns desses exercícios. Dentre tantas parafernálias e bugigangas, talvez eu aproveite algo do meu potencial latente, devido aos entulhos que lhe encobriram o brilho. Talvez eu já esteja habilitado a viver, mas me sinto um estagiário inapto

Hits Brazucas

Se por acaso — ou não — o universo surgiu da famosa explosão inicial, ou então, se a partícula é ao mesmo tempo onda e se em sua infinitesimal parte a molécula é luz, e ainda se a luz for som, assim estaremos em processo de entropia. Todas as formas serão dissipadas, pois estamos em um mundo de poluição sonora constante.

No topo das paradas musicais brasileiras, presencio crescer sobejamente a pobreza nas letras, ritmos e melodias. A fama deixa em destaque seres medíocres e desprovidos de talento. Soma-se a isso um exército de pessoas ruidosas, que ignoram o fato de compartilharem o mesmo ambiente que outros e ferem a sensibilidade alheia com músicas escrotas em alto volume.

São vários estilos, num sincretismo de horror e falta de vergonha, que torturam meu cérebro atormentado. Parece que querem impor toda a ausência de bom gosto aos outros, não bastando apreciar e guardar para si suas preferências.

Já nem falo sobre o gosto artístico no Brasil, mas ao menos poderiam resguardar o que o país tem de melhor (não aquilo que foi eleito previamente como “genialidade” e que alguns veneram sem critério algum). Sinto-me ultrajado, mas ficarei incólume ante o apocalipse musical. Assim como em todas as outras esferas da nossa civilização, o declínio é visível.

Tal qual nosso paladar se apura, o ouvido também — porém, não é o caso da maioria nesta parte do planeta onde a grosseria impera e o belo se tornou impalatável.

A massa de obtusos chafurda na lama de suas diversões hediondas. Quando não quero ver, fecho meus olhos. Quando não quero ouvir, não sei o que fazer, pois o som ultrapassa meu crânio.

Ferrete para Gado

A cosmogonia do universo brasileiro por si só já remete à sua escatologia. A constituição da identidade nacional é formada, em sua base, pela falta da mesma. O que define nossa imagem perante o cosmos é a marca da palhaçada e do gracejo sem sentido, da filosofia de boteco, da reles arte e suas manifestações primitivas, da camaradagem rasa e da artificialidade despropositada do “bom-humor”.

O humor a que me refiro é uma das marcas da inteligência, mesmo que não seja refinado ou elegante. Porém, isso não se aplica à maioria esmagadora nestes rincões tupiniquins. O que medra e abunda nestas bandas é a gargalhada histriônica diante das próprias misérias, qual convicção paralisante.

“Isto é um absurdo” — é o que se ouve dizer em cada esquina, com ares de profunda seriedade e sem um pingo de capacidade crítica, além daquela que já vem pasteurizada nas caixas televisivas.

Tenho orgulho apenas daqueles que conseguiram se esquivar dessa gentalha a custo de muito estudo e da verificação empírica de tristes constatações. Nossas “glórias” são ensinadas nas escolas, mas sem as notas de rodapé, constando detalhes sórdidos e a imortal pilantragem nacional. Herdamos o pior e criamos uma miscigenação intelectual a partir das maiores mentiras mundiais.

Somos cheios de modismos e copiamos as piores tendências globais. Admiramos todos que possuam algum título impactante ou veste de mestre ascensionado e “metemos o pau” naquilo que é legítimo e tipicamente regional.

Trata-se de gente que ri da própria desgraça, mas que não faz absolutamente nada para deter a rota apocalíptica. Temem um futuro do qual já fazem parte, onde campeiam a desgraça e a treva intelectual.

Sinto que meu pessimismo seja apenas a constatação do cenário atual e da inevitável colheita. Mas, se resta ainda algum fragmento de esperança, é o do apelo individual, do engajamento solitário, no sentido de sair da própria areia movediça e pisar o solo firme, para caminhar com segurança na senda do conhecimento.

Imbecilidade Virtual

As redes sociais virtuais são a emulação das redes humanas, o mesmo ambiente de hipocrisia a capturar os peixes atordoados por suas águas tóxicas. Vários estímulos alucinantes piscam na tela, feito anzóis camuflados por iscas quiméricas, a nos fisgar pelos dedos no teclado.

Peixes pequenos e distraídos atraem os tubarões embusteiros. A ração diária de estupidez da humanidade alimenta suas várias subespécies e cria verdadeiras mutações de seres estupidificados.

No livro das faces, por exemplo, vemos pessoas zumbificadas a compartilhar freneticamente comentários, que recebem múltiplas respostas a depender do nível de mediocridade. A falta de critério recebe likes a esmo e automaticamente, pois os olhos passam através das letras e o cérebro não registra seu sentido.

O que foi criado inicialmente para ser uma ferramenta de troca de ideias pessoais e profissionais tornou-se o e-commerce do capeta. As conexões mais frequentes são feitas no vácuo mental das pessoas, e a famosa globalização é apenas a massificação de seres alienados da era digital.

Prefiro viver de forma analógica ou manual, sem desperdiçar tanto tempo em tarefas virtuais. Já basta a prática artesanal do onanismo, para nos fazer navegar na doce ilusão. Todo trabalho intelectivo fatalmente descamba no mar da física rústica (não a quântica) ou no ralo.

Famíglia Gentaglia

Por assistir eventualmente a alguns seriados americanos, resolvi criar uma fictícia família italiana, mas que tem um pezinho em raízes brasileiras. Erradicados aqui em nosso país, a famíglia Gentaglia acabou incorporando nossos piores hábitos. Progressivamente, passaram a jogar lixo nas ruas, mas depois diziam: “Porca miséria, que cidade imunda!”. Tornaram-se hábeis em levar pequenas vantagens, desde ultrapassar um carro para logo depois ficar parado à frente, até embolsar sorrateiramente dez centavos.

Transformaram a famosa frase “Neste país tudo acaba em pizza” (uma das pizzas mais caras do mundo) num bordão repetido a esmo, sem nenhuma ação que a contradissesse. Utilizaram o idioma de forma macarrônica para assessorar nossos políticos na arte retórica de não dizer nada com jargões vazios e impactantes. Espalhafatosos e desatentos ao bem-estar alheio, falam em tom histriônico ou fazem ruídos que incomodam a paz pública em todas as situações imagináveis. Por fim, cresceram profissionalmente e compraram carros para viajar ao litoral nos fins de semana, sempre com o intuito de fazer farofada e emporcalhar a praia, churrasco com samba na chácara e sessões lúdicas regadas a cerveja e cachaça.

O percurso é clássico e a rotina, cada vez mais insana e estressante: lotar os supermercados para gastar com comidas (misturas) e enfrentar imensas filas; ir ao shopping para consumir ou comer ignorando a presença de outros seres humanos; procurar cantos para procriar como coelhos, sem se preocupar com a superpopulação de pessoas idiotas.

Essa é a saga da famíglia Gentaglia, que talvez, no ano que vem, vire samba-enredo no desfile de carnaval, para sermos enfim ridicularizados perante todo o universo.

Masoquista do supermercado

Fazer compras, principalmente num feriado, é tarefa apenas para os masoquistas de plantão ou para quem encontra nisso um prazer visceral. Conduzir um carrinho de compras é também um desafio para um automobilista que enfrenta uma pista cheia de obstáculos vivos.

Num tempo marcado por infindáveis vendedores e embusteiros, cada promoção é promessa de ser ludibriado docilmente. A inflação dos preços não assusta os compradores otimistas, desesperados por prosperar ao menos em um setor da vida, nem que seja à custa de um estupro consentido.

Os transeuntes nos corredores são de dois tipos: os alucinados e frenéticos por aproveitar com celeridade os raros momentos de poder aquisitivo, e os que trafegam de modo letárgico e robótico, absorvidos no afã entorpecente. Ambos ignoram outros seres humanos à frente e esquecem que ainda carregam algum resquício de humanidade.

Pareço dissociado desse círculo social, como um bárbaro que não se adapta à civilização, observando incrédulo as esquisitices comportamentais. A façanha de adquirir alguns itens de consumo é desesperadora. Gosto de tais sofrimentos — são a matéria-prima de meus comentários maldosos.

Sair de casa com a intenção de ir ao mercado é a certeza de pequenas e múltiplas irritações. Não vou enumerar os detalhes dessa aventura, pois me tornaria o eterno chato a reparar em detalhes externos. Desta última vez, quase não fiquei nervoso.

Assisto a essas cenas como quem vê uma comédia na televisão, mas sou o personagem mais engraçado, patético e miserável.

Ocultação de Cadáver

Ligo a televisão e vejo um crime bárbaro, próprio de personalidades psicóticas. O apresentador denuncia a absurdidade de tais comportamentos nos dias atuais e alardeia a proximidade do Armageddon. Repete as frases sob diversas formas, tentando dar a ênfase emocional necessária para manter o ibope.

Na verdade, vou adiantar o desfecho do assassinato: mataram a inteligência e foi exatamente no território circunscrito pela nação em que vivo. O meliante ocultou o cadáver com tamanha destreza que não temos provas cabais da sua atrocidade.

Troco de canal e me deparo com outro gênero: um tipo que, se não estivesse de terno, eu juraria ser um mendigo surtando. Ele enxuga o suor com uma toalha e a joga para um rebanho fanatizado.

Mais uma vez, desaparece o corpo sagrado de antigas verdades legadas; um falso representante da divindade faz as vezes de avatar, despreocupado com as possíveis retaliações de seu “deus”.

São séculos de pó varrido para debaixo do tapete histórico. Formou-se uma montanha compacta de lixo a partir dessas partículas esquecidas. Termino por aqui este texto em atitude fúnebre, por respeito ao defunto. Meus pêsames. A inteligência já deixa saudades.

Meia Dúzia (Seis)

Li recentemente, em um artigo, um termo com o qual não estava familiarizado. O autor se referia à tautologia. Fui pesquisar a palavra e descobri que se refere à repetição inútil de uma mesma ideia em termos diferentes, ciência que se proliferou no Brasil com um grau de pestilência endêmico e uma dose cômica. Porém, a situação é mais grave do que parece, já que aqui se usa do princípio da verossimilhança linguística sem o devido entendimento, nem de um termo, nem de outro.

As analogias toscas e sem conexão plausível se multiplicam qual nuvem de gafanhotos. Vejo seres se arvorando em detentores de um saber definitivo e sem arestas. Certamente, estamos no período da infância mental e sitiamos espaços que não nos pertencem.

Por isso, vemos o exemplo do típico chefe brasileiro: aquele que menos sabe e mais ostenta uma artificialidade de conceitos ocos e dissociados da realidade prática. Ou então, o inverso: quando pensam que seu domínio rudimentar da rotina os imbui da onisciência e onipresença, sem a necessidade de buscar respaldo em alguma teoria universal consolidada. Também tentam, muitas vezes, encaixar à força os fatos em esquemas pré-moldados, como se ousassem enfiar uma enorme peça quadrada num buraco diminuto. Assim, os “cientistas” carnavalescos, em vez de se adaptarem à realidade, buscam formatá-la a bel-prazer, no tamanho de suas especulações fajutas e pueris.

Penso que a riqueza lexical apenas ornamenta as pessoas pobres de profundidade e senso crítico, mas traz uma melhor artilharia a quem faz questionamentos corretos. Outro ponto que o autor comentou foi sobre a espiral do silêncio, onde essas pessoas corajosas e confrontadoras são atacadas por todos os lados e de forma violenta, para apagar a credibilidade de provas incontestes e fundamentadas.

A correlação que faço é simples: como se uma criança mimada tentasse destruir argumentos ponderados por um adulto com xingamentos infantis e birras teatrais.

Fauna Empresarial

Nos meios corporativos, transbordam chavões forjados com o intuito de impressionar interlocutores menos esclarecidos e transparecer um conhecimento embasado em pilares obviamente evanescentes e científicos.

Um dos saberes disseminados a esmo é o da “estratégia”, que serve para ornamentar outros jargões amplamente utilizados. Até hoje não compreendi devidamente seu emprego, fora do contexto dos jogos lúdicos ou das guerras reais.

Escuto com frequência comentários sobre resultados positivos, cujas decisões ou planejamentos foram “estrategicamente” delineados. Consultores de vários naipes propagam freneticamente essa palavra como se fosse uma expressão mágica, produzindo efeitos miraculosos (possivelmente apenas frutos de masturbação intelectual). Na minha análise, parecem-se com profetas à espera de algum evento que corrobore suas predições.

Algumas situações ferem minha susceptibilidade, como nos momentos em que sou esbofeteado por frases de cunho organizacional, qual uma criança recebendo as primeiras lições de alfabetização.

Outra competência alardeada como se fosse uma virtude divina é a “visão global”, como se o profissional se alçasse às alturas com um olhar periférico e privilegiado, e ao mesmo tempo perscrutador, com a capacidade de conectar todos os pontos de uma trama complexa.

Para finalizar, cito a famosa “liderança”, cuja atuação mistura aspectos mediúnicos e messiânicos, além de estar sustentada por uma literatura extensa e variada. Não me prolongarei nos comentários sobre esses termos, pois não quero insultar a inteligência alheia com pataquadas.

Fomos alertados quanto aos falsos profetas, só não sabíamos que eles ocupariam todos os ofícios e estariam em todos os orifícios planetários.

Crachás e Penduricalhos

Um cargo, às vezes, serve para oficializar a imbecilidade e garantir o crachá da intransponibilidade. O ritual da burocratização dos contatos dificulta o acesso à hierarquia superior.

Nas ocasiões em que almejamos falar com essas figuras “ilustres”, topamos com a postergação ou com a exposição sintética de nossas ideias. No caso de querermos fazer perguntas, nosso esforço se converte numa tentativa patética.

Não há troca de impressões, mas apenas tópicos esboçados e cronogramas seguidos de forma superficial e severa. Tendo a querer também adotar essa postura, mas excluindo essas criaturas das conversas mais profundas (não que eu seja o Poseidon dos mares da sabedoria), ante a impossibilidade de estabelecer esse diálogo ou do próprio interesse alheio.

Afinal, quantos querem, de fato, perder algum tempo nesta empreitada aparentemente infrutífera? Paulatinamente, sigo meu caminho, superando as intempéries cognitivas e as atribulações emocionais, para transubstanciar esse meu desejo absurdo em resignação.

Guardo para mim as reflexões e deixo que o lago seja contemplado por aqueles que se inclinarem à margem para enxergar as imagens estampadas.

Profecias Evidentes

De acordo com o dicionário dos pessimistas, “situação” é algo que sempre pode piorar. Fundou-se até o priorado brasileiro dos monges negativistas, com dissidentes especializados nas profecias apocalípticas.

Recentemente assisti a um filme sobre o pós-juízo-final: os poderosos moravam num resort espacial, enquanto os pobrezinhos viviam nos escombros das cidades terráqueas. Analogamente, em alguns lugares do mundo, essa hecatombe já ocorreu.

Ao percorrer certas regiões vizinhas de onde resido, percebo que praticamente toda a cidade é um imenso lixão, e as pessoas parecem refugiadas de guerra. Acompanho países que se recuperam rapidamente de desastres naturais, mas no Brasil o senso estético nulo e a pobreza moral têm o mesmo efeito devastador.

Ruas mal projetadas, casas despadronizadas, sincretismo de arquiteturas disformes — eis a paisagem dissonante que fere nossa visão. A poluição sonora deprime até os mais controlados: a cada passo, ouvem-se ritmos saídos da rádio das trevas.

O paladar é afetado pela culinária sintética, entupida de açúcares, sódio e agentes químicos perniciosos. Os aromas se fundem: do suor impregnado de valorosos trabalhadores ao perfume nauseabundo das classes emergentes e petulantes.

Até nossa intuição negligenciada é atacada por meio de propagandas prontas e pacotes contaminados de informações. Sobrou apenas o sistema instintivo para nos proteger neste habitat predatório.

Transpusemos a zona limítrofe, onde não é mais possível retroceder. Resta apenas lutar francamente contra os inimigos descarados e insolentes. O combate entre as tropas organizadas da estupidez e os recém-curados da cegueira é iminente.

As armaduras racharão, as máscaras cairão e os sorrisinhos cínicos serão ostensivos. Ninguém ficará “em cima do muro” ou conseguirá escamotear suas intenções num breve porvir.

Crocodilagem

Se há um animal que sobreviveu aos períodos pré-históricos por conta do seu instinto predatório, este foi o jacaré — que desbancou até os pesadíssimos dinossauros. Sua resistência descomunal e o impulso de sobrevivência a todo custo garantiram sua extrema adaptabilidade, mesmo em ambientes hostis.

Da mesma forma, podemos ver, no cenário atual, homo sapiens com habilidades semelhantes e o jeitão “casca grossa” deste nosso ancestral amigo. Há pessoas que, fora de seu habitat (águas turvas ou esgotos), ficam com a bocarra aberta à espreita de um descuido. Já no seu meio natural, são quase imbatíveis.

Cuidado para não descer até sua morada sub-reptícia. Mas atenção também com seus movimentos repentinos até a superfície. São seres que resistem até hoje não por coragem ou inteligência proeminente, mas por seu modo ardiloso e abrupto de atacar e se proteger.

Portanto, atenção se observar um ser estático, com cara de sonso, sisudo e impassível (às vezes sorri, mas não convence). Não faça barulhos inesperados perto desses animais. E não tente ser gentil: apenas saiba do perigo iminente e mantenha-se precavido contra suas investidas malignas.

Quando estão de boca fechada, podemos tentar conservar discretamente este estado. Quando a boca está escancarada — então não se aproxime. A crocodilagem ocorre tanto no sigilo quanto no alarde. Quem sabe, um dia, eu escreva sobre outro animal perito na arte de escapar de holocaustos: a barata.

Picadeiro Macabro

Era uma vez uma empresa cuja fachada era uma cilada, oculta sob o véu de corporação em processo de reestruturação. Ao embarcar nessa canoa furada, já não é possível voltar sem afundar. A justificativa é sempre pautada na “falta de qualificação” das pessoas contratadas. As condições salariais, somadas (ou debitadas) às punições, geram os monstros do arrependimento mútuo e do ódio contido. Lá, os sistemas informatizados traem até os mais honestos e de conduta ilibada, os quais devem provar sua inocência perante um tribunal impassível. Curiosamente, há muitas pessoas de índole duvidosa e comportamentos inadequados, porém, devemos nos questionar: quem foi que as contratou?

Após uma ou duas semanas, o recém-chegado percebe a sedimentação dos hábitos ineficazes e a centralização patológica gerencial, que reprime qualquer menção a uma opinião própria. O confronto é inútil, o silêncio é consentimento forçado, nesta rede diabólica. Fui ingênuo em achar que seria possível uma transformação com a ajuda da experiência e do trabalho honesto, sem verificar o histórico da organização, onde até o momento nenhuma proposta dos antecessores havia sido efetivada.

Quanta vergonha, ter que tratar os outros nesse método inadequado. Creio firmemente que apenas um único indivíduo (chefe) é capaz de ter um efeito nefasto sobre toda uma empresa. Sua única habilidade é apagar incêndios e morre de medo de perder o pouco de poder que possui. Se, por acaso, este demônio corporativo “comete” o acerto de contratar alguém habilitado, só lhe resta se livrar do “problema”. Neste embate entre a força das trevas e a ousadia da claridade (ou entre o vácuo mental e o espírito criativo), a luta real ocorre nas sombras.

Quando alguém expõe sua visão límpida a uma pessoa incapaz de formular opinião própria, só existem dois caminhos para o ser atônito: admiração ou medo da própria ignorância. De minha parte, não fico nem surpreso, nem magoado. Resta o aprendizado do inevitável: o fruto amargo e nutritivo dos erros. Eu não poderia ter agido diferente, ou melhor, senão na esfera íntima dos meus pensamentos. Atenciosamente, mais um pária organizacional.

Circo sem Pão

Ao reler uma singela crônica toscamente escrita no ano passado, percebo a tocaia cíclica e inescapável na qual o assalariado recai. Nesta nova “missão”, repetem-se os instrumentos de tortura e os estertores das dores morais. O tabuleiro fica maior e as peças malignas da oposição, mais numerosas. O sistema se retroalimenta da miséria intelectual de muitos espécimes, seres recalcitrantes na incompetência.

As únicas coisas que posso depreender, apreender e aprender neste cenário são: o embate íntimo que travo, a consolidação da autoconfiança e o burilamento de minhas arestas espirituais. Assemelham-se a acontecimentos cármicos, que forjam, com o fogo do sofrimento existencial, minha personalidade fragilizada.

O alimento oferecido à massa atordoada é uma ração enfastiante, misturada com o fel da dúvida, a incerteza da sobrevivência e a vitamina do medo incompreensível. O circo ofertado consiste de um único palhaço que sou eu e de inúmeros gozadores fardados.

Ressaca intelectual

Conversas de bar: o desafio etílico para testar os mais resistentes e arrancar alguma confidência. Os imbecis se travestem de astutos, os agressivos rompem suas camadas de docilidade, os descrentes destilam sua psicopatia pseudo-racional.

A futilidade é o prato principal, acompanhada de tonéis infindáveis da espuma superficial que apenas estufa os desnutridos de opinião. A exposição dos fatos se mistura, como coquetel venenoso, às divagações alucinadas e às piadas depreciativas dos colegas.

Há uma nuvem que paira sobre este antro disfarçado de espaço divertido. Olhares sutis espreitam, julgando suas frases como obra de um idiota. Os braços buscam cumplicidade como tenazes ocultas, forçando uma estreiteza falsa.

Na competição da malandragem, sou visto como o tolo retardatário.

Estar num lugar sem propósito definido é estar vulnerável, talvez num campo de batalha onde os mal-intencionados já tenham traçado seus estratagemas capciosos.

Intimidade e sinceridade são para poucos.

Quando ofertadas despreocupadamente, quase sempre são confundidas com as jogadas do mundo dissimulado das relações.

Caminho entre estátuas ocas. E quando encontro alguém genuíno, seu brilho é igual ao ouro. Retorno para casa após a embriaguez dos desprevenidos. Ao despertar, lembro de um sonho:

trafegava por uma rua cheia de lixo, carregando um saco pesado, até vê-lo rasgar. Tento recuperar os dejetos caídos — mas alguém me alerta a deixá-los para trás, no lugar onde pertencem.

Onanistas dos teclados

O ambiente virtual permite as mais diversas manifestações que em situações "reais" não ocorreriam. Por evento concreto, delimito apenas a confrontação legítima, fruto de reflexão e decomposição de certezas, afastando provisoriamente as ilusões oníricas (tão reais quanto um tombo).

Atrás de um monitor e portando um teclado, os imbecis transformam-se em arcabouços de sapiência; os covardes, em leões da sinceridade; os medíocres, em virtuosos; e os capirotos camaleônicos, em bondosas ovelhas. O que preciso compartilhar, faço na instância particular com palavras faladas ou reservadamente, se é que tal possibilidade ainda existe nesta rede doentiamente vigiada.

Impressiona-me a facilidade em concordar com as futilidades das aparências, o discurso "politicamente" correto e a correnteza dos acontecimentos premeditados a favor do pragmatismo. Também salta aos olhos a proliferação de respostas sintéticas, desprovidas de significado, e do retrucar tosco, depreciativo e insultante.

A rapidez dos impulsos elétricos, mentais ou digitalizados não permite o processamento necessário da informação, sobrecarregando os dispositivos, sejam eles máquinas ou mentes. Vejo, com nitidez, o manancial de idiotas que deságua nesta fonte virtual extensa: patrulhas de censores, caçadores de “pelo em ovos”, juízes ansiosos, fanfarrões de plantão e os que discordam por esporte.

Não mencionei ainda os autodidatas que vasculham o lixo virtual e jogam suas verdades (consultas) na cara dos outros, autoproclamando-se professores de ocasião, mas é desnecessário citá-los. Seu surgimento é exponencial, impulsionado pelo frenesi dos cliques e leituras superficiais.

Há um amontoado de frases retiradas de livros toscos de autoajuda, imagens íntimas como simulacros de uma vida plena, piadas a esmo sobre nossas próprias desgraças. Falta-nos boa vontade no mundo real e no virtual para compreender o outro. Ironicamente, estamos mais próximos do que nunca... nas duas hipóteses fatais, porém não antagônicas.

Mazelas natalinas

Há datas em que a população busca imbuir-se de bons sentimentos, mas como esse espírito de boa convivência não povoa os corações ao longo dos demais dias do ano, o que vemos é a bestialidade rompendo tradições de modo grotesco e visceral.

Simples tarefas, como fazer compras, tornam-se verdadeiros trabalhos de Hércules: enfrentam-se filas colossais, monstros míticos e os feitiços de deuses zombeteiros. Caso se queira empreender essa missão em ares litorâneos, o tormento se assemelha ao sofrimento de Prometeu, com o fígado dilacerado por abutres natalinos.

A véspera dessa festividade capitalista é o prenúncio de bizarrices sortidas, revestidas de cascas edulcoradas que fazem qualquer diabético ter crises violentas, tamanha a doçura da falsidade e das bobagens que permeiam as celebrações.

O costume impõe o presentear, mas a mão esquerda vigia o gesto recíproco ou repreende a mão direita vazia. Os conselhos surgem como enfeites pisca-pisca, sinalizando intermitentemente a sabedoria do moralismo eventual, cheio de sagacidade oportunista.

A ceia é o ápice desse evento carregado de significados místicos, onde guloseimas e bebidas alcoólicas transmutam-se em cenas de auto-humilhação e reproduzem a mesmice de gestos egoístas e psicóticos.

Por essas e outras razões, creio que o famoso Papai Noel vive recluso na gestão maquiavélica de seu feriado (principalmente no Brasil), arquitetando travessuras que ironizam sinteticamente todas as nossas tolices cotidianas.

É exatamente nesse momento inglório que penso em seguir os passos nômades de Zaratustra e evitar esta odiosa epopeia humana, repleta de intenções mágicas e vazias.

A era dos gozadores

Presencio tempos estranhos: um confronto épico entre as tropas dos gozadores sem propósito e as forças dos grandes e pomposos sisudos. Essa batalha atinge proporções estratosféricas e poderia facilmente estrear como blockbuster nacional.

De um lado, fanfarrões que riem como hienas malignas das desgraças do país, estuprado por tarados pelo poder e conspurcado pela indiferença dos estúpidos. No outro canto, o sisudo canastrão, tão confiante em sua moral ilibada que quase convence os demais acerca de suas patifarias e embustes.

O despropósito achincalhado versus a respeitabilidade adornada em falsidade. Fatalmente, bilhões sairão golpeados no cérebro. A ejaculação precoce desses céleres masturbadores da superficialidade fecunda o rebanho aparvalhado com verdades ameboides.

A inépcia impera, não por ser o estado natural da humanidade, mas por escolha, um deleite voluntário na ignorância. Vivo a tecer comentários jocosos, ainda que saibam ser provocação covarde, própria de quem ainda não teve ímpeto legítimo para distribuir os adjetivos aos seus verdadeiros donos.

Vivemos num neo-imbecilísmo, superando todos os períodos obscuros da humanidade. Tomara que não seja preciso um novo cataclisma para cessar nossas iniquidades.

Estranhos desígnios para os homo-sapiens

São mais de oito bilhões de homo sapiens a pulular sobre o planeta, qual criadouro imenso de insetos a circundar algum foco de luz alucinante. O inspetor desse berçário de criaturas hostis talvez admire a proporção tomada por sua criação, nos raros momentos em que se dispõe a observá-la com atenção.

Mal a evolução biológica lapidou nossos instintos animalescos e nosso intelecto rudimentar arranhou os pilares do conhecimento, fomos acometidos por presunção brutal e cegueira que beira a loucura do si mesmo. A solidão das massas, os gritos abafados pelo barulho dos passos, a fuga diante da diferença, tudo evidencia a fragilidade de nosso convívio.

A ciência comprova lentamente o que o coração ancestral já intuía, mas proclama cada constatação como descoberta revolucionária. Lidamos com esse centro sensível como se fosse algo tosco, selvagem e ingênuo, ignorando que nele habita sabedoria que dispensa a biblioteca cerebral.

Além do sol em sua paragem externa, qual luz viceja nos palácios interiores? Quais os signos da caminhada humana? Fomos enganados por eras, mas aos poucos desaprendemos nossas ilusões, lição difícil de esquecer. Um mar de informações descambou num caos que precipita um tsunami cósmico. Se ainda fôssemos animais, saberíamos atuar em grupo. Apartados de tudo, restamos estupefatos e fartos de nós mesmos.

Calendário das torturas

Aprendemos a contar as frações do tempo desperdiçado e a marcar datas na tentativa de simular alívio. Comemorações tolas marcam novos períodos, que nada mais são do que ciclos do sol e da lua, se não fossem nossas ilusões cronológicas.

Cada feriado é engodo: a poeira varrida para debaixo do tapete mundano. Seres ruidosos alardeiam seu entorpecimento, impondo preferências, músicas ruins, filosofias de boteco e passeios histéricos.

Os maratonistas do lazer me cansam só de vê-los. As frases feitas de fim de ano, vazias e repetitivas, deprimem. As famílias reunidas forçadamente encenam convivência. Seria melhor um réveillon num monastério.

O calendário segue com sua ironia regular, apontando já o próximo carnaval. Mas essa já é outra crônica. Fico por aqui, poupando mais comentários rabugentos. Desejo a todos a paz que esta época não propicia e o silêncio das galáxias distantes, onde talvez ainda haja alguma serenidade.

Labuta de um filho da luta

Se eu pedisse esmolas ou enganasse deliberadamente, talvez conquistasse meu lugar ao sol neste planeta de inversões. Ao pleitear um emprego, sou só um ser patético. Irônico, pois poderia estar entre os ladrões e ser bem-sucedido.

Sigo uma ética na qual o salário ofertado é a subsistência e a falta de perspectivas. Mesmo qualificado, estou aquém de um cargo digno. Observo milhões de trabalhadores exaustos, sem condições nem para o menor escalão. Terão lido manuais coloridos de pensamento positivo?

O sucesso parece não depender de inteligência, saúde, habilidade ou vontade. Existe algum requisito místico oculto? Se eu vivesse como parasita, talvez a prosperidade me rondasse.

Qual elemento atrai nossos desejos, além de fórmulas fajutas de livros mágicos? Quem me dera capturar a sorte com um puçá, como borboleta ingênua. Cansado de raciocinar, irrito-me teimosamente com essas constatações.

Deveria "desencanar", seguir meus instintos e largar essas bobagens que persigo como um tolo. Viver de forma predatória talvez me favorecesse. Afinal, não há diferença entre criminoso e cidadão.

Talvez eu divirta alguma entidade cósmica com minha irritação. Talvez minhas frustrações sejam o néctar do criador cruel. Embora digam que tenho amigos espirituais, só recebo rasteiras invisíveis. Querem me impor um aprendizado reservado aos arrogantes. Sou apenas um tolo.

Ludibriado pelos ineptos

Ao confrontar um olhar arguto, donde brilha uma fagulha de inteligência, sabemos que é improvável, ainda que possível, sustentar a farsa cotidiana mantida a todo custo pelos empulhadores profissionais. A insistência com que levam a sério sua encenação é de uma tristeza infinita, pois todo o universo assiste, mas não aplaude suas baboseiras.

Um simples vislumbre por cima das obviedades desnuda até os mais hábeis prestidigitadores e suas mãos ocultas. Não digo que a empreitada da sobrevivência seja indigna, mas ao menos deixemos uma brecha para que os outros percebam a tentativa, ainda que velada, de mostrar algum ato genuíno.

Se houver acordo mútuo, no qual ambas as partes saibam que estão desempenhando papéis, sem a pretensão de enganar, talvez haja uma rota possível nos labirintos que nós mesmos criamos.

No caminho que sigo, muitos são apenas sombras, fantasmas nos próprios casarões, defendendo propriedades fadadas à ruína. Às vezes, trôpego, encontro seres despidos de apegos e por um instante olhamo-nos, face a face.

Além das camadas de hipocrisias deste mundo, a cada véu que cai percebo: também me vesti com andrajos e me sujei com o barro da dúvida. A inteligência buscada talvez seja apenas a limpeza dos detritos acumulados, até que resplandeça a partícula inquebrantável de certeza. Se tenho alguma confiança, ela repousa em mim, no desassossego da alma encarcerada e na suspeita de que algo maior se esconde por trás dessas provações provocativas.

Verborreia

A paciência suprema consiste em suportar, heroicamente, a verborragia, tanto daqueles que repetem o que já entenderam, quanto dos que se alongam em sua própria ignorância. O essencial é luxo. O didatismo exacerbado, lixo vendido como ouro por mestres que infantilizam seus neófitos.

Palavras inúteis transbordam e me causam angústia. O silêncio é a bênção que segue o sofrimento imposto por ruídos imperiosos e desarmônicos. Imagino o quão feliz seria numa síntese singela, num sussurro que ecoasse em harmonia com as batidas do coração.

A objetividade é um valor almejado, mas esperam que agradeçamos as palavras supérfluas com um sorriso estampado. Apenas um ricto de dor distorce minha face, pois meus ouvidos são sensíveis às estultices proferidas como se fossem sapiência.

O que poderia ser dito em breves momentos é estendido por longos intervalos, escoando a ampulheta da resignação. Obviedades esgotam minhas forças. É inútil combater quem prefere masturbar sinônimos e celebrar analogias desprovidas de nexo.

Devemos derrubar essa multidão de falácias fabricadas por mentes sórdidas. Motivar alguém com tolices repetidas é impraticável e monstruoso é manipular o poder da linguagem com armadilhas obscuras.

Por trás das frases e entrelinhas repousa o que realmente importa: a intenção.

Homem-esponja

Tranco-me no quarto, ligo o computador e começo a escrever, com fones no volume máximo. Já que não posso gozar da quietude ou recusar os ruídos que contaminam minha sensibilidade, escolho o barulho que quero ouvir. É o grito desesperado por um pouco de silêncio.

Começo a gostar um pouco de mim. Abdico da pretensão de ser algo. Desisto de tentar. Não quero mais pedir nada, muito menos bater nas portas esperando que se abram. Quero praticar a arte de falar pouco e escutar o mínimo.

A confusão está lá fora, num tempo pretérito, sempre à distância de um braço. Fico aqui, comigo. E até que não é ruim. Ficarei aqui dentro por um momento (aguarde). Quando for a hora de sair para tratar das coisas do mundo, negociarei os detalhes.

A incerteza já me deixou doente, ansioso com o eterno devir. Mas agora, percebo que começo a me satisfazer com este texto que escrevo. Simples, direto, despretensioso. Se eu não fizer nada, está ótimo. Se não for claro ou não transmitir nenhuma mensagem, também não importa.

Ocupo-me comigo, repleto de mim. Se admiro o belo, são meus olhos que buscam os elementos que enfeitam minha tela mental. Tenho olhado demais para a feiura, me espantado com a burrice alheia e atentado à maldade. Cansei de ser esponja, quero ser filtro.

Tempestade ou bonança, quero me rejubilar em cada instante. E se não agrado a maioria... foda-se.

Mestres da retórica pós-moderna

Admiro a eloquência dos profissionais, crentes de que estão transmitindo informações precisas e objetivas, quando despejam, desordenadamente, seus ansiosos lampejos mentais. O interlocutor, aflito com as demandas, tenta em vão fornecer os dados requeridos na velocidade esperada… mas sequer é ouvido em sua intenção de estabelecer uma comunicação de duas vias. Falar e escutar — eis o drama da humanidade.

No contexto organizacional, muitos se vangloriam de sua habilidade em esclarecer procedimentos e situações, mas o que consolidam é o monólogo cruel dos poderes. Toda expressão descamba no vão esforço de noticiar coisas “importantes”.

Pergunto-me sobre os perigos de, intencionalmente, buscar a compreensão. De querer entender o que é dito. O contrário é mais comum: a multidão de palavras não tem serventia para quem não deseja o entendimento. O desperdício é o que vejo em todos os sentidos que imprimo à minha força, como se soprasse violentamente o ar dos pulmões para tentar mover toneladas de ignorância e estupidez.

São os mestres da comunicação, com a pretensão ridícula de ostentar a pseudo-retórica dos semianalfabetos. São os eruditos da superficialidade, com suas bagagens de sinônimos e analogias, desprovidos de significado e consistência. A oratória é toscamente utilizada por esses boçais, com ares de esperteza e malícia corporativa. Não há fala contundente que mobilize as forças monumentais da inépcia. Nem os lendários gladiadores venceriam, pois suas espadas quebrariam ante as armaduras da burrice.

Não tenho orgulho da inteligência que amealhei, nem vejo vantagens que me ajudem a mover-me no mundo. É impossível edificar conhecimentos em seres de alicerces tão frágeis. Para quem deseja, até mesmo as tolices são aproveitáveis. Os antigos oradores se inflamavam porque seus argumentos ecoavam em mentes férteis. Hoje, estamos na vanguarda da confusão, elevando a torre de Babel aos píncaros do descalabro intelectual. Reverenciemos nossos grandes palestrantes… E vamos aplaudir os aplicados alunos na arte de não dizer porcaria nenhuma.

Caminhão de lixo

O sofrimento é um impulso elétrico dos meus neurônios, advindo dos limitados sentidos periféricos. Não bastasse o mundo ser uma ilusão de concretude, ainda assim sou atacado pelas atrocidades abstratas de mentes perversamente criativas.

Os cientistas de boteco e os alcoólatras do conhecimento querem criar compêndios de informação para doutrinar a massa ignara. Essas monstruosas criaturas contemporâneas tentam impingir todo seu cabedal de informações nas mentes que julgam obtusas, ignorando que estas possuem núcleos que as alertam contra tais investidas maléficas. Mas não basta que esses gurus se armem com as ferramentas da empulhação: eles também querem humilhar os que não se curvam à retórica imbecilizante.

Um exemplo das práticas seculares desses fanáticos é a avaliação daqueles que pleiteiam um emprego para subsistir. Os nomes que designam esses rituais de ridicularização são variados e não os citarei, para não ferir o orgulho dos tais seres “altruístas”. A lista de competências para nos mensurar é extensa, mas gostaria de criar a minha própria, para medir os mesmos algozes. Seriam aferidas a onisciência, a sagacidade, a teimosia, a paciência, a verborragia, o sarcasmo, a profecia, a chacota… e outras “virtudes” dessas pessoas “privilegiadas” com um intelecto cristalizado.

Faria com eles traquinagens inauditas, obrigando-os a participar de dinâmicas cômicas que revelassem toda a sordidez incógnita. Elaboraria pareceres que escaneariam suas almas e gerariam rótulos tão patéticos quanto os que tentam forjar para os outros. Querem que eu finja não enxergar essa farsa e leve a sério todas as bobagens ditas com gravidade e um semblante sisudo e “benévolo” (tentarei suprimir as aspas).

Imploram que eu mantenha a leveza e o frescor dos que supostamente não se abalam frente a esse ultraje. Sou atormentado por essas tentativas sistemáticas de me corromper e tirar meu crédito. Se aprendi algo precioso, foi a arte da escavação dos meus tesouros, assim como treinei o ofício de enterrar novamente os entulhos que me jogaram na face.

Humanidade transgênica

Muitos insistem para que eu seja um ser camuflado. Opinião é algo que ninguém parece interessado em ouvir — e eu, tolo, insisto em propagar. Querem me treinar na arte da hipocrisia, para que eu atinja o grau de especialista falsificador sênior.

Advertem-me regularmente para que eu guarde para mim convicções e reflexões. Anseiam que eu me comporte com confiança, segurança e autoestima extremas, desde que eu me exima de externar qualquer conteúdo. Desejam que eu me rebaixe para exaltar a estupidez alheia, que prolifera como vírus endêmico.

Dizem, nas esquinas, para eu bater palmas para os imbecis, mas tenho medo de machucar minhas mãos pela repetição frenética e infindável. Silenciar ante a barbárie intelectual pode me deixar mudo e cabisbaixo por longo tempo, frente à enxurrada de absurdos. Tapar os olhos talvez encubra minha demasiada transparência, mas me deixaria inexpressivo.

Todos conseguem ler minha alma como quem folheia um anúncio de jornal e atestam minha inaptidão para viver nesta vida de mentiras contadas por idiotas doutrinados. Querem que eu aprenda uma valiosa lição, pois há sempre professores voluntários para lecionar as disciplinas do viver.

Sim, há algo a ser assimilado em todas as situações, com todas as pessoas, teoricamente. Mas vejo um palco de horrores, uma escola às avessas. Na antítese do bom-senso, seguimos a cartilha empoeirada do esperado. Gostaria de ser como esperam: um falso convicto ou um convicto falso.

Do topo da minha cabeça, veem sair fumaça, efeito do esforço de pensar. Sou secretamente ridicularizado por não pertencer ao clube dos sedentários do conhecimento.

Endossando a inépcia

Os incompetentes, em geral, escapam ilesos. Há uma postura paternalista que abona condutas negligentes, relapsas, preguiçosas, oportunistas e desonestas. Há uma cultura impregnada em nossas entranhas, difícil de extirpar, onde a malandragem é o *status quo *nacional.

Aqueles que tentam fugir dessa pecha e adotam uma postura ética e elegante são vigiados à lupa em cada suposto deslize. De um lado, minorias ditas marginalizadas ascendem e se tornam intocáveis. De outro, cria-se uma elite opressora que não busca ativismo, tampouco produtividade.

Implantou-se uma nova forma de segregação. E as diferenças, sempre existentes, tornaram-se pano de fundo da desordem. O estranhamento é natural. A busca pela similitude, também. A igualdade deveria valer na justiça, mas nunca prevaleceu neste planeta.

Os privilégios e punições não são e nem serão equitativos. E mesmo que tudo fosse restabelecido, o desequilíbrio logo se instauraria novamente. O ser humano é o principal problema, uma redundância que poucos percebem.

Se busca um ofício laborioso, não o encontra. Se o possui, evita-o com esmero e ainda amaldiçoa a oportunidade. Educação? Não existe, nem no trato, tampouco na sede por conhecimento. O aprendizado deveria ser uma obrigação, mas tornou-se um direito desprezado.

A fome primordial é de direção e propósito. Os estultos se comprazem em achincalhar a própria miséria. Quanto a mim, só quero escapar deste reduto de mediocridade.

“Naum teim pobrema”

O triste panorama da língua portuguesa nos rincões tupiniquins é desolador, em todos os quadrantes sociais possíveis. O tratamento popularesco não é o maior vilão da comunicação; o essencial é o entendimento recíproco. O que assola os constructos da razão no “nosso” Brasil é a falta de tônus mental, resultado da indolência nacional e das reiteradas saraivadas de dejetos pseudo-intelectuais. A troca de ideias tornou-se extremamente limitada, embora o vocabulário aparente estar mais encorpado graças às gírias, expressões regionais, sinônimos inflacionados, analogias pobres, licenças poéticas prostituídas e imperícia conceitual.

O dicionário nunca foi tão negligenciado, justo na era em que poucos cliques acessam fontes (não raro) infiéis, que endossam o discurso professoral de um país arrogante por supervalorizar sua pobreza cultural e literária. Poucos exemplares, com nomes ilustres, adormecem em prateleiras ignoradas pela massa acéfala. Talvez a filosofia de boteco, e não a menosprezo, escrita em papel higiênico, seja a marca da intelectualidade vigente nas megalópoles.

Prefiro o matuto da roça ou da selva à arrogância dos letrados entorpecidos pelos impropérios organizacionais. Certa vez, ouvi um colega distinguir os “cagadores de cartilhas” dos “defecadores de regras”. Fiquei atônito diante da engenhosidade semântica de uma elite que apenas ostenta informações. A verdadeira sapiência é degrau procurado por poucos, pois exige prática e assimilação do conhecimento. Tudo isso me deixa apático, inclinado a suprimir vocábulos, a economizar palavras e poupar minhas cordas vocais de esforços vãos.

Sou coagido a falar ininterruptamente, apenas para engabelar pessoas sedentas por “elucidação”. E mesmo com tudo isso, ninguém logra êxito total em ludibriar a alma calejada pelas injustiças. Forçar alguém a aceitar a escravidão camuflada e a humilhação inevitável da sobrevivência é tarefa que ainda oprime aqueles que conservam um coração. Mas mesmo esses também foram enganados. Deixar-se ser ludibriado com consciência exige maestria. É preciso já ter desmascarado muitos ardis e, ainda assim, disfarçar sua estupefação.

Autoimunidade

É preciso olhar a maldade humana apenas de relance, só para reconhecer sua existência perniciosa. Entranhar-se nos meandros infectados pela devassidão, sem os devidos aparatos morais de proteção, é adoecer fatalmente.

A convalescença é o lento caminho da consciência e nos lembra da importância de manter a autoconfiança sempre viva. O mesmo mecanismo vale para os próprios erros.

O olhar, a escuta, a pele e os elementos que pairam no campo etéreo das sensações dispersas, tudo congrega pequenos vislumbres. Enquanto isso, colecionadores se vangloriam de seus edifícios robustos de conhecimento, mas eu sigo buscando grãos.

Quem sabe um dia eu consiga rir dos estúpidos. Por enquanto, guardo apenas o desprezo e a tristeza. A escada do saber tem degraus baixos. Após longo percurso, visões fugazes nos revelam equívocos. O erro maior está quase sempre por perto nas rotinas, nas cercanias.

Frequentemente, erramos ao culpar o inalcançável. O exemplo ensina tudo, mas raramente somos bons observadores de sua presença constante.

Sigo em frente. Sei que, por trás, há olhares sombrios. Nas interações, sorrisos hipócritas. Ninguém se importa de fato. Aqueles que se importam minimamente... são os que menos demonstram.

Aproximar-se de coração aberto, sem medo do fracasso. Estarei atento ao inusitado. Mas nunca imune à vida.

Instrumentos fajutos da astúcia organizacional

As ferramentas de tipificação humana, quando manejadas por mentes obtusas, podem evidenciar semideuses autogerados. De um lado, alguém com “supervisão”; do outro, um ingênuo contumaz com limitada autopercepção.

Começo este relato sucinto após lograr “êxito” ao conquistar uma oportunidade de trabalho neste mundo de propósitos duvidosos. O ofício de avaliar e enquadrar indivíduos entre os “aptos” e os “reprovados” tem me causado transtornos, não pela tarefa em si, séria e necessária, mas pelos péssimos profissionais que se valem de epítetos pomposos para justificar sua posição no confuso organograma dos tapeadores organizacionais.

A admiração da turba ignara oscila para o desejo do status perverso de analista, avaliador, consultor, professor, guru, etc. Carregar uma dose homeopática de sensibilidade não me dá vantagem, apenas a aflição de perceber os golpes dos estelionatários intelectuais e emotivos... sem poder fazer nada.

Entro, por vezes, em estado de catalepsia. Incapaz de denunciar os fraudulentos que pululam nesta Terra renegada pelo resto do universo. Apenas um sorriso maroto e sagaz estampa suas faces. São os embusteiros dotados do “poder” de delinear perfis.

Por tudo isso, sinto enjoo e enojamento. Não há espaço para a autenticidade. Quem ousa oferecer um resquício de congruência na perigosa relação humana, acaba constrangido. Quem tem intenções louváveis logo é humilhado, ou acorrentado aos processos burocráticos, ou amarrado à rotina de apagar incêndios. Geralmente, ambos.

Neste cenário assustador, é aflitivo ter que justificar cada ato a imbecis que se julgam no direito de questionar até as leis básicas do bom-senso. Repete-se o suplício, dentro da farsa da “ajuda”.

Não quero compartilhar nada. Nem ensinar. Tampouco ajudar. Desejo apenas a tranquilidade de fazer por fazer, sem a tola e presunçosa intenção de significar algo.

Prática da conspiração

A suprema conspiração não é aquela que ocorre sub-repticiamente em reuniões secretas onde se decidem planos estrategicamente nocivos a um grupo maior. A revolução invisível, na realidade, é urdida de forma escrachada, todavia não é notada devido ao entorpecimento dos que são marionetes e dos que são manipulados por essas cordas. Quando se invertem os papéis, vemos que os oprimidos pela burrice das elites "pensantes" armam esquemas de modo telepático. Repentinamente, a chefia convicta de seus ideais "igualitários" toma uma rasteira no ego ao verificar o abandono em massa. Inventam mecanismos e justificativas para os erros dos subordinados, tais como ingratidão, incompetência, desonestidade e falta de engajamento.

Orgulham-se de serem claros e precisos em suas instruções e feedbacks, mas seus ouvidos permanecem tapados, tanto diante dos gritos quanto do sussurro elegante. Não sei ao certo se é melhor acabar com as maçãs podres do cesto ou preservar as boas. Os vermes sempre existirão, e há quem coma os frutos com ou sem surpresa. Somos ludibriados de maneira ostensiva, dado nosso lado masoquista e a vontade de dizer: "Eu já sabia, esperava o pior". O coitadinho sempre vai ser assolado pelo perverso, assim como o enganado a solicitar o concurso do golpista.

Enfim, não existem conspirações, apenas a sujeira que entrou em nossas vistas e não nos deixa ver os bastidores toscamente preparados e suas janelas escancaradas. Frente à impossibilidade de falar com clareza e objetividade, os súditos tentam alertar respeitosamente os monarcas, mas, na ausência dos últimos, sobram apenas piadas, ainda que com o medo de que algumas paredes tenham ouvidos. É o estado de alerta constante e do medo exagerado, pois a sobrevivência depende de "engolir sapos" até a exaustão e decorrente obesidade mórbida da imoralidade. Ninguém consegue nada sem a devida humilhação e sem pedir insistentemente este tratamento. A riqueza é o poder sobre as coisas, mas sobre as pessoas é apenas o velho e conhecido poder. Há quem prefira mais um ao outro, mas no fim, o poder de curvar-se externamente e permanecer altivo internamente é o que difere e honra aqueles que detêm algum tipo de força.

O tradutor

Os imbecis no poder consolidam seus clãs poderosíssimos, perpetuando uma influência nefasta de mediocridade sobre este planeta. Desde tempos imemoriais, a habilidade política tornou-se a mais forte competência já inventada.

Antes mesmo das ferramentas precursoras da tecnologia, já existia o mecanismo do falseamento e da macaqueação. Sem tirocínio algum, buscava-se no plágio grosseiro o atalho para o prestígio. O laborioso é um mito: o ser humano sempre foi, em essência, preguiçoso.

Buscou apoio em consultorias e terceirizou o ofício de copiar mal a arte dos verdadeiros especialistas. Um simples esboço, nas mãos ardilosas dos imbecis, é suficiente para a manutenção deste reinado antigo. Contratam tradutores para simplificar os segredos de quem se dedica ao saber.

Gabam-se da “objetividade”, mas travestem a ignorância em sabedoria. Gastam tempo tentando aprender o “caminho das pedras”, mas não chegam lá. Limitam-se a ridicularizar os “confusos”, vítimas da própria limitação.

Esses seres são similares às baratas, sobrevivem a holocaustos com pouquíssimos recursos cognitivos. Malandragem é seu trunfo. O semblante blasé, outro. E o fingimento da demência, um clássico.

Sou um tradutor. Um serviçal. Meus “superiores” fingem que entendem e eu finjo que não. Ao menos... tento.

Fragmentos paridos e apartados

“Chafurdo em um viveiro de pusilanimidade” — eis a frase inolvidável que feriu meus ouvidos com a acurácia típica dos valentes comediantes do cotidiano insuportável. As pilhérias, despretensiosas, são o prenúncio de um sistema filosófico que extravasa as fronteiras do bar.

Paulatinamente, burilamos as banalidades, já que a alma não pode ser desbastada em sua etérea natureza. Quem se faz menestrel da verdade, torna-se apenas manancial inextinguível de chorume vocal.

Admiro quem domina a ironia e confronta os cagadores de moral tacanha. Nossos heróis são muito chatos e são desnudados pelos vilões do sarcasmo retumbante.

Uma nova anarquia se ergue contra a visão boçal e seu dialeto zumbi, a fim de espantar os frequentadores desta rinha empresarial bizarra. A quintessência do nosso mundinho de falsos humanos é erigir edifícios de mediocridade.

Os artefatos contemporâneos do narcisismo tupiniquim não saciam a volúpia niilista. Vejo por toda parte uma seriedade que não me convence, um embuste descarado.

A burocracia da bondade produziu uma multidão de seres plásticos, utilitários, adaptados ao descalabro moral. Relações malfadadas já não incomodam os anestesiados, que sequer percebem os pontos de intumescência.

A pseudo-descontração e o simulacro de diversão apenas despertam minha melancolia ancestral. Falta-nos uma leveza corrosiva. Uma transfusão de vida.

A primazia das arapucas está no fato de sermos impelidos livremente a nossas próprias crenças. Difícil é sobreviver cercado pelas mazelas inevitáveis.

Apenas a embriaguez e a companhia sensível podem, às vezes, apaziguar este flagelo que minha mente experimenta... e que meu corpo trôpego somatiza.

Quem perguntou?

Eu e minha mania de querer consertar o mundo e as pessoas. Quanta tolice se esconde sob minha fachada de bonzinho! Querer ajudar, sem o devido consentimento, é um desperdício de energia nas formas das palavras, do esforço físico, das reflexões dolorosas e da imaginação criativa.

Parece ridículo eu ter que dizer isso, principalmente a mim mesmo, mas acontece que somente a repetição serve, no momento, para eu perceber o óbvio. Se mal consigo me ajudar, dificilmente o farei a outrem, o qual me aproximo tateando na escuridão. Exalo filosofia profunda (barata) para o território alheio e para mim mesmo a metafísica é terreno longínquo.

Quem me dera, pudesse eu lidar com as questões concretas e a lógica cartesiana do quotidiano. Insisto em ver o que não existe e deixo passar os fatos evidentes com maestria. Falta-me a simplicidade, perdida desde eras ancestrais, para encarar a complexidade que se tornou a vida contemporânea.

Tudo nas relações humanas é uma troca, em termos explícitos ou implícitos. Se eu dei algo que não foi pedido e pedi em troca algo que não foi declarado, então sou um ingênuo persistente. Quem perguntou sobre todas as bobagens que andam falando? Todos querem se arvorar em juízes, professores ou consultores (que tristeza!).

Quero evitar toda essa empáfia toscamente ostentada por essa raça de sepulcros caiados. Não quero “meter o nariz” onde não fui chamado ou me meter em encrencas alheias. Bastam-me meus problemas constantes e intermináveis, onde apenas posso me deter nas soluções possíveis.

Se ninguém lhe perguntar ou pedir sua ajuda, não faça nada; caso contrário, tome cuidado, pois é necessária sabedoria para estabelecer essa ponte frágil.

Certo ninguém

Sempre há alguém querendo cortar nossas asas. Esse, geralmente, é o que rasteja.

Sempre há alguém achando que a gente “se acha”. Esse, provavelmente, só especula.

Penso que incerteza e desconfiança são ferramentas valiosas, quando descobertas e utilizadas com discernimento. A ignorância, ao contrário, não deve ser usada.

Aquele que é descoberto tenta modificar seu comportamento diante de uma pequena mudança sua. E, quando percebemos essas atitudes com clareza e calma, o cenário se ilumina.

O que rumina tenta esconder seu pequeno mundo de obviedades sob o manto da leveza, com gestos politicamente calculados.

Quando essa ameba tenta sondar as possibilidades de fracasso alheio, não percebe que apenas compartilha sua mediocridade com os iguais.

O problema... é que esse “alguém” pode ser você mesmo.

Então, tente escapar da armadilha da mediocridade. Porque, quando você ocupar o seu espaço, sempre haverá um “alguém”.

Sobre prolixos e engessados

Somos uma pátria de pseudo-educadores, num afã doentio de ministrar suas especialidades em doses homeopáticas, revestidas de um didatismo excessivo e enfadonho. O tom professoral que exala dos psiquismos primitivos dos macaqueadores de resenhas e do diz-que-me-diz popularesco me embrulha o estômago, como se estivesse à deriva num rio contaminado e turbulento.

Esses golpes repetitivos quase destroem o último bastião do meu discernimento, fazendo ruir o teto da paciência. Sim, já tratei dessa temática, mas hoje foco num matiz específico dentre os tantos tipos de “queridos mestres” tupiniquins: os prolixos engessados (ou engessados prolixos?).

Não criei um nome para tal categoria. Faltou-me criatividade ou, quem sabe, disposição para batizar o ridículo. São figuras que abusam da chatice disfarçada de ortodoxia e seitas conceituais, repetindo jargões com linguajar variegado. Não que empreguem um léxico sofisticado. Longe disso. Tampouco dominam os artifícios da linguagem que aproximam ideias. Apenas encobrem o vazio com enfeites verbais.

Esses sujeitos falam sem escutar. Ocupar o tempo alheio é seu vício, sem jamais considerar se por acaso suas opiniões são úteis ou pertinentes. Os grupos de estudo que habitam servem mais para perpetuar saberes engessados do que para arejar ideias. Confundem disciplina com rigidez cadavérica.

Extirpam a espontaneidade. Os demais hesitam em sair do cronograma ou descumprir regras não ditas. É árduo exercitar a benevolência com essas almas endurecidas. Uns ostentam o que não possuem. Outros tentar ocultar o que transborda. Por favor, calai o palrador e que o canto dos outros, enfim, se faça ouvir.

Safari gratuito

Gostaria de convidá-los a um passeio no zoológico das aberrações. Espero que seja um momento aprazível para todos que tiverem estômago para tal empreitada. Já no trajeto até o trem, é possível observar a fauna esdrúxula que campeia pelas ruas, seres alienados que percorrem, sem rumo, nos trilhos caóticos da rotina.

O terreno irregular não favorece a árdua caminhada dos transeuntes, que disputam espaço com o lixo abundante e esbarram em outros seres aparvalhados. Adentrar os vagões já é, por si só, um esforço hercúleo que exige infinita paciência.

Após enfrentar filas letárgicas de pessoas comprimidas, podemos, enfim, aguardar o “maravilhoso” veículo que conduzirá as bestas ao seu logradouro. O calor humano aquece os corpos aglutinados. A união é bela: nem mesmo as partículas subatômicas alcançam tamanha proximidade.

Vemos a generosidade brotar: todos compartilham o mesmo hálito nauseabundo, misturado ao odor pestilencial que atordoa os sentidos. Desde já, peço desculpas pela ironia, mas não consigo evitar a dose de sarcasmo. Qualquer elogio aparente é, na verdade, um ódio encoberto à espécie dita humana.

Fui inoculado pelo vírus da misantropia e ele agora corrói minhas veias. Calma! Já estamos chegando. Mas antes, aproveite o “atendimento” dos educados mercadores que surfam no oportunismo gerado pelas mazelas de cidadãos subjugados.

Cuidado com os seres modorrentos sentados no chão: estão fatigados pela indiferença e pelo vilipêndio. Desfrute da música gratuita que invadirá seus tímpanos com melodias “sublimes” e das conversas íntimas alheias que você talvez preferisse não ouvir.

Ah, e as carícias não consentidas, os toques brutais em suas formas modernas de sedução urbana.

Pronto! Agora pode desembarcar e haurir o ar nefasto da cidade. Admire a feiura discrepante dos cenários e os semblantes deformados pela dureza quotidiana. Se não fosse real, pareceria ficção bizarra.

Há abundância de recursos. Mas, entre aglomerações, pessoas mendigam afeto, atenção, dinheiro e migalhas existenciais. Todos buscam um lugar ao sol, mas sem o respeito que encontramos entre os animais. Aliás, errei ao compará-los. Há uma elegância na ferocidade animal que nos falta.

Negligenciamos o saber intrínseco. Vestimo-nos de maneirismos obsoletos. Criamos personalidades despropositadas em nome de discursos funcionais. Bastaria observar e rir: uma miríade de seres travestidos de personagens inúteis.

Todo o ruído que ouço, todas essas vozes incessantes, são apenas discursos sem alma. Se extinguíssemos os conceitos intangíveis usados com exagero, mergulharíamos no silêncio. Evitaríamos palavras vazias, jargões, clichês.

O homo sapiens é o único que quer ensinar antes de saber. Nem copiar aprendeu, quanto menos aprender com a simplicidade dos eventos.

A realidade é gritante. Mas somos doutrinados, desde cedo, por fantasias perniciosas. Leva-se uma vida para se livrar da porcaria internalizada. E, no fim, basta enxergar com clareza onde estamos.

Zoológico, hospital, manicômio? É tudo isso. Somos a escória do universo... largada num paraíso. Não pertencemos a este mundo. E tudo o mais funcionaria melhor sem nós. Sei que deveria me entrosar com meus amiguinhos. Mas sou inábil. Quase apartado. Ainda assim, pertenço a esta mesma paragem, à mesma corja de seres que pululam por este planeta infectado por nossa presença deletéria.

O Aspirante

Ele aspirava ansiosamente a uma oportunidade de emprego, porém as portas se fechavam bruscamente à sua frente. Reunia todas as condições para enfrentar os desafios impostos, por várias razões: tinha certa experiência, inteligência invulgar, habilidades pertinentes à área de atuação e força de vontade. Contudo, não lograva êxito em sua empreitada, mesmo trazendo à tona o que deveria ser dito.

Ocorre que seu desencanto e ressentimento se expressavam sutilmente em seu semblante transparente, deixando aparente, mesmo diante de avaliadores inaptos, uma revolta completamente justificável, embora inaceitável no contexto organizacional esmagador. Seus defeitos eram a honestidade e a opinião crítica, além de portar um cérebro e um coração ainda em funcionamento. Mal sabia ele que a honestidade só pode ser ofertada a poucos, sendo fator intrínseco e aplicável somente a si mesmo.

Seus olhos eram janelas que refletiam apenas desesperança e tristeza, alimentadas por sua crença na impossibilidade de ser bem-sucedido com intenções sinceras. Ainda assim, persistia pateticamente em sustentar sua postura de congruência e autenticidade num mundo de valores invertidos, distorcidos e prostituídos. Suas peripécias em busca de um intento digno e honrado resultavam apenas em humilhação.

A esperança era seu último vestígio de humanidade, o fragmento de um DNA que imprimia essa doença que leva o indivíduo a ser ceifado apenas no derradeiro instante. O fingimento dos pseudo-profissionais e embusteiros especializados lhe era insuportável, causando em seu cérebro fatigado dores excruciantes, advindas do esforço improfícuo de encontrar sentido.

Não conseguia conter o ímpeto de destilar pequenas gotas de verdade, letais aos organismos intoxicados pela mentira perseverante e pela hipocrisia cristalizada. Aos poucos, foi se habituando a aceitar qualquer migalha, mas sabia que até mesmo as sobras caídas na sarjeta só poderiam ser comidas se convencesse os outros de que estava, enfim, vencido. Ledo engano.

Seu olhar incorruptível não se extinguia ao contato com a falsidade. Não encontrava saída ou meio que o permitisse permanecer íntegro, conservar seu brio de homem. Já nessa altura, era um farrapo de ser humano, vencido pela inexorável teia do destino — sempre arquitetando armadilhas para fazê-lo aprender.

Quis voltar ao seio da ignorância, mas já lhe era impossível refazer o cordão umbilical da segurança e do controle. Quando enfim desistiu de sua fantasia, pois achava que também seria merecedor, restou-lhe apenas o vazio.

Arapuca

Por vezes, de forma súbita e persistente, pensamentos glaciais cruzam o deserto da minha mente, assoviando melodias tristes, mantras do pessimismo. Desconfio de ondas que trafegam pela atmosfera com autonomia implacável, como criações ancestrais que ganharam vida própria.

Mas não é diferente da alegria que, por vezes, invade semeando ilusões maliciosas. E assim, mergulhamos nas distrações incessantes da rotina cambiante, entre elementos caóticos. Estímulos incontáveis seduzem e capturam, numa rede nefasta, as massas atordoadas.

São os polos gêmeos da maldade premeditada e do entorpecimento espontâneo que afastam os caminhantes de um centro coerente. O cenário ilusório tem seus alicerces fincados na areia movediça de propósitos espúrios.

Tudo indica que há uma questão central na existência: ter ou não ter consciência da trapaça sistêmica, engendrada por forças ancestrais, de sagacidade maligna. Quem descobre tais vilanias e expressa sua estupefação será, fatalmente, ridicularizado pela turba ignara e estupidificada.

Há uma hierarquia na malandragem. Uma pirâmide opressora. Desde os dotados de raciocínio até os resquícios de lucidez, todos parecem buscar aplicar a ciência milenar dos embusteiros. Mesmo os recém-chegados às letras do entendimento ou vaidosos semianalfabetos tentam enganar em escala “inferior”.

Sinto vergonha imensa à menor possibilidade de enganar deliberadamente, o que talvez explique meu fracasso nos empreendimentos humanos. Um cansaço plúmbeo invade meu corpo efêmero. A trajetória foi breve, mas exaustiva.

O relógio da servidão marca, com sua aparência regular, o “compromisso” de cumprir provações. Somos compelidos a engolir a seco a pílula indigesta da falsidade. Ai de quem exprima descontentamento e se recuse a acatar o *establishment* da enganação.

A história apenas repete, miticamente, a mentira com artifícios primitivos ou sofisticados. A farsa é herança de civilizações perdidas nas brumas do tempo. Suas cartilhas, ainda ilustradas e em vigor.

Essa realidade é frágil. E talvez sua tão almejada ruína esteja no simples ato de render-se. Uma armadilha transitória, desfeita apenas com a benfazeja morte.

Por ora, restamos todos presos neste presídio/hospício, acreditando que estamos num hospital... ou numa escola.

Suor da fronte

Alguém que adentrasse aquele recinto e visse a longa fila de requerentes não imaginaria os túneis intrincados de corrupção e os bastidores tumultuados. A complexidade apenas acoberta a bagunça, e as justificativas pragmáticas disfarçam a práxis do ócio imbecilizante de seus habitantes.

A multidão aguarda impaciente, ignorando a lentidão proposital dos processos. Quem atende procura despender o mínimo de energia, apenas para manter o letargo organizacional, sem se importar com os que buscam favores mínimos ou simples direitos básicos.

A hierarquia invertida, onde ineptos espertalhões se sentam no trono do descalabro, é a meta dos analfabetos corajosos e dos covardes orgulhosos. A perspectiva de que miseráveis de cultura possam herdar o epíteto da intelectualidade assombra os poucos de mente vigorosa.

Todas essas inversões e polaridades distorcidas me conduzem a constatações macabras. São suplícios urdidos em altas esferas, e sua programação inescapável provoca risos nos espectadores celestiais.

Tudo é tão previsível neste jogo, exceto a forma como seremos azucrinados.

Minha ética é meu calabouço. Recuso-me a celebrar no banquete da imbecilidade ululante. A convivência com esses seres tem me extenuado, e minha postura de anuência e negligência diante do quadro tem sido, por vezes, vergonhosa.

Não há como modificar os cenários do mundo, tampouco me disponho ao mister inútil de tentar. Desconheço se as tintas podem ser alteradas para o meu benefício. Saberia de antemão o artifício, e seria inútil a investida nos reinos positivistas da sabedoria popular.

Transposto o limiar do conhecimento, não é mais possível retroceder. Podemos, no máximo, entorpecer os sentidos para usufruir de um lapso de esquecimento.

É triste decifrar semblantes, captar atmosferas, antecipar situações, tudo isso sem poder fazer nada diante da impotência de ser um pária em um país governado por idiotas.

Não há trilhos para mim, apenas trilhas onde não me submeto à escumalha mundana. Fatalmente, terei de romper com os acordos tácitos da estupidez. Toda imundície é tão escancarada que se torna insuportável viver nesta farsa quotidiana.

Ter qualidades, hoje, é estar à margem deste rio de águas imperiosas. Toda emoção neste povo é um flato passageiro, mesmo diante da beleza da arte ou dos engenhos da inteligência.

A verdade é universal. O belo é fascinante. Mas o contraste é o que se escancara diante da minha retina assombrada, dia após dia. Meu autocontrole se esvai.

A irritação me toma, e por vezes me vejo agindo em conjunto com a turba, como se minha rebeldia fosse também dirigida ao estranho arquiteto incógnito.

Ordenhando tetas estéreis

Certas labutas são improfícuas, para não dizer inúteis, diante das figueiras secas que povoam o deserto intelecto-emocional da humanidade.

Vejo um rebanho de tetas estéreis que não podem ser ordenhadas, a não ser para verter um veneno amargo, velho conhecido dos que já arriscaram tal mister.

Quando o desinteresse cede espaço para o diálogo, logo se ergue o muro da oposição, fortificado com argumentos fracos. O mais das vezes, a indiferença preguiçosa povoa os psiquismos.

Às vezes, falta até a mínima vontade de ativar o mecanismo cognitivo e alinhar ideias às impressões evanescentes.

Mas quando há intenção, até monossílabos se encadeiam em brilhantismo de ideias diamantinas. O óbvio, contudo, se oculta na névoa criada pelos obtusos, perdidos em complexidades impostas.

Um vocabulário vasto não rompe o casulo dogmático. Um campo fértil de abstrações pode ser organizado com beleza, mas não há ordem alguma no ordinário que medra nas faces da mediocridade coletiva.

Não há surpresas quando se trata das barbáries humanas. É esperado que chateações brotem da criatividade estúpida, porém esse humor não move o espírito, tampouco é arte que alivia as frontes.

Busco a conexão, as pontes construídas durante a jornada, quando ainda vislumbramos laivos de humanidade. Mas não quero forçar o fruto adocicado em galhos ressecados.

Quero despertar algo em mim, algo que me impulsione à vida.

O contato com essa multidão obsoleta e entediante é um golpe no meu psiquismo.

Nada posso ensinar ou aprender nesta rotina acelerada e previsivelmente enfadonha.

Alimento engrenagens insaciáveis, operadas pelo *status quo* da imbecilidade. Só os estultos se refestelam com migalhas infindas.

Não gosto da realidade que externo. Ela me é insuportável e maçante.

Quais desafios existem, que não sejam oriundos do sofrimento?

Talvez exista algum lugar onde se possa expressar a intimidade, mas não aqui nesse planetinha enfastiante.

Quase tudo se resume à encenação ridícula e cínica, movida pelo medo de perder a ração diária de sobrevivência.

Ainda me livro, pouco a pouco, da doença do auxílio, da teimosia da naturalidade, da generosa dádiva da sinceridade. Poucos merecem uma dose sequer desses remédios.

Afinal, sou eu quem está deslocado e tolamente me sinto réu.

Um dia, farei minha vontade... quando reencontrá-la no mar do autoengano.

Clubinho da misantropia

A Associação Brasileira de Misantropos Anônimos (ABRAMIA) discretamente abre seu edital de inscrição para novos membros.

Os cargos são variados, as exigências mínimas... e o pagamento assombroso (positiva e negativamente).

É uma instituição não-filantrópica, cujo processo iniciático é mais místico do que muitas seitas obscuras da história. Trata-se de um grupo recluso, não por ódio, mas por exaustão dos movimentos hodiernos da neo-ostentação.

Não odeiam o ser humano. Mas guardam a esperança como relíquia em redutos inexplorados ou já esquecidos.

Pode parecer que desprezam sua pátria, mas é apenas o cansaço frente ao estupro reiterado da nação. Cansaram da cupidez de um montante de pseudo-cidadãos. Cansaram da devastação feita por nuvens de gafanhotos humanos e suas pequenas mordidas cruéis.

As investigações engendradas por esses estóicos estudiosos da teogonia encontram abrigo em poucas rodas pensantes. Perguntam-se sobre os porquês do mundo, sobre a arquitetura deste aquário global, sobre a dualidade dos peixes que nele residem.

Querem saber quem imprimiu com letras flamígeras um código pré-definido que rege esta humanidade aparvalhada.

Em suma, o esquadrão inquisitório é composto por seres atormentados por dúvidas pungentes, inabilitados para viver sem questionar.

Desconhecem de onde brota a ilógica bondade neste mundo predatório de animais recém-iluminados. Guardamos nossos instintos em compartimentos não herméticos numa luta contra o raciocínio monolítico do homem.

Mas não há solidez. O olhar atento percebe a porosidade extrema dessa engenhosa peça.

O Clube da Misantropia carrega, paradoxalmente, um pouco de profecia: vislumbra a segregação como oportunidade de mergulho interior. Para enfim se ter a dimensão do grão e da montanha.

Este montículo de poeiras cósmicas cria uma certa luminosidade, invisível a olho nu.

Cuidado ao se deparar com um ranzinza: sua sabedoria ancestral pode estar guardada em areias movediças. Embora seu cabedal esteja fragmentado pelas falácias seculares, algo ainda unifica sua singularidade em torno do transcendental.

Algo escapou do plano. Uma brecha? Ou ilusão idealizada? Será nossa meta fugir da essência que inventamos? Qual será nossa verdadeira natureza?

Esses misantropos são reticentes, indecisos, desconfiados. Talvez vivam num eterno onirismo.


11

Pescadores em aquários

Às vezes me pergunto em que instante a loucura começou a se disfarçar de equilíbrio. Quando foi que o cansaço virou sinal de fraqueza, a pausa se tornou pecado produtivo, e o silêncio passou a ser interpretado como instabilidade emocional?

Há algo de profundamente violento nos discursos bem ajustados. Uma suavidade plastificada, domesticada, que sufoca. Tudo precisa fazer sentido. Tudo precisa ter propósito. Até a exaustão exige boa apresentação, como se a dor, para ser ouvida, precisasse estar bem vestida e saber se justificar.

O texto que segue não é um desabafo. É uma denúncia sutil. Não contra um fato específico, mas contra um estado crônico, esse mal-estar generalizado travestido de rotina funcional. Essa urgência em performar normalidade mesmo quando tudo dentro lateja. Essa exigência de equilíbrio, mesmo quando a alma implora por descompasso.

Talvez escrever ainda seja uma forma de resistir à assepsia dos afetos. Um modo de lembrar que nem tudo precisa ser resolvido, bonito, leve ou inspirador. Às vezes, basta ser real. E doer, se for o caso.

Se há um motivo para este texto existir, talvez seja este: Recusar-se a chamar de “vida” o que tem gosto de anestesia. Há uma delicadeza insuspeita em reconhecer que fomos fisgados. Fisgados por ideias prontas, por estilos de vida engarrafados, por promessas de mapas que, no fim, nos deixaram com bússolas desmagnetizadas. Seguimos rotas que não traçamos. Acreditamos que bastava estudar, produzir, entregar. Ser úteis, funcionais, compreensíveis. Equilibrados, acima de tudo. Mas há sempre algo que escapa.

Talvez seja a alma, que não cabe nas planilhas. Ou o corpo, que resiste ao ritmo das máquinas. Ou talvez apenas esse cansaço difuso de quem já não suporta mais simular normalidade quando tudo dentro ruge por desvio.

Este capítulo não oferece coordenadas. É uma deriva, uma dessas pescas em aquários, onde o que se espera encontrar já não está mais lá. Uma recusa mansa e firme, à lógica que transforma o viver em tarefa e o sentir em ameaça.

Talvez escrever seja o que nos resta quando a linguagem oficial falha. Quando o silêncio imposto adoece. Quando o descanso vira culpa. Quando o “dar conta” já não dá conta de mais nada.

Se algo pulsa aqui, é essa vontade inquieta de desnormatizar o que nos adoece e de chamar de vida apenas aquilo que, apesar de tudo, ainda pulsa.

No mais das vezes somos fisgados

Pois por anos doutrinados

Ficamos com a ingênua certeza

De verdades sedimentadas

E queremos ser operários

Para depois tirarmos férias

Queremos ensinar aos outros

E só muito depois aprender algo

Somos peritos na arte de decifrar o outro

E tateamos na escuridão de nós mesmos

Queremos a estrela guia

O roteiro seguro

Um porto aprazível

O mapa com coordenadas precisas

Ao olhar a realidade nos corrompemos

Num primeiro instante

E achamos ser especiais

Mas somos farinha do mesmo saco

Aprendizes de uma única e dura lição

Conviver conosco e com os demais

E o que é a existência além disso?

O que estamos estudando tanto?

Cenas dos próximos capítulos

Atravessou a nuvem de gás e tentou, em vão, não ser contaminado pelos eflúvios deletérios das pessoas nocivas. Conviveu com seres deteriorados, que caminhavam rumo à cova com ares principescos. Buscou a serenidade, mas a confusão generalizada era o hábito ordinário daqueles moradores cheios de si.

A clareza sempre foi seu objetivo, porém as trevas da estultície eram quase indevassáveis. Parecia um estóico transitando por entre selvagens.

Mesmo assim, tornou-se motivo de chacota por microscópicos deslizes, apontados histrionicamente. Manter a postura ética lhe era quase impossível, sem as credenciais formais. Sua chancela era interna, uma marca indelével impressa em seu próprio ser, imperceptível aos olhos embasbacados dos ineptos.

Seu ofício parecia-lhe penoso, entediante. E, por vezes, atordoante diante da bagunça psíquica. Contemplar o quadro no qual estava inserido lhe trazia a constatação de uma realidade triste e ridícula.

Sabia exatamente o quanto estava deslocado daquele ambiente nefasto, e da tragicômica situação. Precisava aprender a rir de tudo aquilo, entretanto não sabia se conseguiria.

Medidas Paliativas

Antes tomassem atalhos e isto seria preferível aos remendos feitos precária e porcamente.

Os atalhos denotam inteligência. A agilidade, ao balizar entre as vicissitudes, revela o raciocínio.

O provisório é aceitável, desde que seja reconhecido como tal, e não transformado em rotina institucionalizada pelos incompetentes.

Mas o que abunda nestes rincões, onde viceja a estupidez, são as medidas paliativas: ações intempestivas, táticas ansiógenas, lampejos de pseudo-criatividade, imagens caóticas do imediatismo, rompantes de suposta sabedoria, pausas sem ponderação, enxurradas de ideias estapafúrdias... Um roteiro perpetrado por mentes obtusas e despreparadas.

Não é preciso ir longe para perceber que esses consertos nunca irão concertar coisa alguma.

Precisamos conceber trilhas desde o início e esperar que os trilhos viciados se apaguem.

Nada é definitivo, exceto o próprio prosseguir que, com sorte, se rearranja.

O ex-convicto

Ah, como eu gostaria de estar errado. Pensar de forma desconexa, agir sem juízo, abandonar a lógica e permitir-me o deleite da inconsciência.

Muito apreciaria reconhecer meus erros, mas vacilo ao desconfiar da certeza pretérita que sempre me guiou. Minha falha maior talvez seja não ter a convicção pueril dos imbecis, que ostentam certezas histriônicas com espantosa naturalidade.

A histeria tornou-se fenômeno costumeiro e prolifera em todos os circuitos sociais. Mostra-nos seres que mal saíram do útero, mergulhados na inconsciência abissal.

A dissociação dos psicopatas em postos de poder expõe a ruína das noções rudimentares de ética. A perversão sistêmica dos que mantêm relações objetais deliberadas revela o quanto ainda engatinhamos na escala evolutiva.

Suportar o langor inominável da impotência intelectual é tarefa de valor supremo, cujo pagamento é a humilhação cotidiana.

Seria interessante tocar a marcha do “foda-se”, como alguns fazem com maestria. Mas sou atormentado por coisas ridículas que ainda insisto em chamar de princípios.

Se existissem parâmetros para a loucura, talvez eu soubesse o que é um caminho.

Zapeando

Há mistérios ocultos aos sábios e prudentes, porém também há obviedades que escapam aos tolos e estultos.

Podemos imaginar que uma nuvem tolda a visão daqueles que se iludem com palavras ou se entorpecem com a preguiça mental.

A vaidade intelectual isola o suposto “pensador” dentro de muros de convicções, mas não se deve esquecer da sensibilidade que orienta a frágil ferramenta cerebral.

A inteligência repousa no seio da consciência, e esta paira e interpenetra tudo que concebemos.

Infelizmente, vivemos sob o culto à inépcia, cujos defensores a colocam num pedestal inatingível, atacando com virulência o esforço do pensamento e o brilho de sua lapidação.

Alguns se jactam de captar informações ao relance e extraírem análises conclusivas com uma suposta assertividade. É o olhar superficial, a convicção do aparente.

A pressa caminha ao lado da estupidez, e ambas são velozes em suas certezas fugidias. A rapidez do julgamento dessas pessoas é inversamente proporcional à lerdeza de seus raciocínios.

Não adianta repetir a mesma informação incontáveis vezes. O insight, quando vem, chega como um parto deveras atrasado.

Semeadores de obviedade

Dentre os ofícios mais execráveis, há uma casta peculiar, simultaneamente odiada e ovacionada pelas multidões aparvalhadas: os semeadores de obviedades. Inundam os estúpidos com fórmulas da repetição prolixa, travestidas de crítica e renovação.

Aos atentos, tudo não passa de engodo: espertalhões disfarçados ou ingênuos encantados pela própria ignorância. Alguns distorcem até as certezas auto-evidentes com confiança digna dos tiranos mais dementes da história. O dia se esvai numa sucessão de episódios nauseantes, onde o enfado diante de tanto desperdício de palavras embrulha o estômago dos mais resilientes.

Mesmo prestes a adormecer, não posso me furtar de tecer comentários sobre essa semeadura mórbida. O silêncio noturno, que outrora era refúgio, agora ecoa as vozes tagarelas dos profissionais da subjetividade tacanha.

Eu gostaria de preservar a quietude da sapiência, mas me pego a soltar galhofas enigmáticas, em paródia dos idiotas que não calam. Impossível levar isso tão a sério, e ainda assim me irrito com a burrice diária.

Por trás da minha fachada boba, escondo o tédio milenar. Sou duro como diamante e quebradiço como vidro fino. Preferiria ser pedra bruta — ter alguma utilidade. Agora sou sombra que se move entre as idiotices dos que batem palmas para os clichês.

Os semeadores de obviedade fogem das águas profundas do pensamento, pois temem enlouquecer — e com razão. O pior de tudo é ter de fingir interesse diante de suas pregações vazias.

Se um dia me for permitido, irei para as montanhas. Viverei entre os animais. Eles, ao menos, não envergonham a existência.

Você está certo disso?

Ah, a estupidez dita com convicção! A dinastia milenar da burrice suplantou os esforços hercúleos da reflexão.

A desconfiança profícua daqueles que buscam a verdade sempre foi vista como fraqueza por quem professa obviedades com vigor e contundência.

O impacto do apelo emocional nos discursos dos obtusos causa mais barulho do que o ruminar lento e discreto dos pensadores.

Digiro pequenas verdades e todo o amargor de seus sabores exóticos. Falta-me o tônus necessário para enfrentar toda a horda dos pseudo-intelectuais e o ânimo para repetir evidências aos estultos.

A objetividade que esses círculos sociais cobram é a da brevidade — não aguentariam o completar de uma frase.

Ah, a estupidez dita com alegria! Enche de esperança as mentes atordoadas pela preguiça e pela teimosia.

O falso discurso motivacional e o olhar descrente daqueles que são obrigados a fingir que acreditam nas infindáveis falácias do nosso cotidiano.

Foliões umbralinos

Há seres que se movem por espasmos, seja nos medos viscerais, seja nas alegrias pré-programadas. Ocupam o tempo com contorções espalhafatosas e externam seu júbilo esvaziado em sons guturais e tamborins enlouquecedores. Chamam isso de “manifestação cultural”, mas é apenas a famosa “dancinha da virilhada”, como bem disse um amigo meu.

A cerveja que poderia ser sorvida com prazer é devolvida aos tonéis da mediocridade. O componente etílico escancara a “riqueza íntima” desses foliões. Pela manhã, caminham como zumbis rumo ao trabalho; à véspera de um feriado, são súbitos malabaristas, exibindo a “virtude” da malemolência. Como se desafiassem a pobreza generalizada com uma coreografia de zombaria.

Estas festas repetem as arenas romanas: pão e circo que encantam almas endurecidas. O mesmo se vê na comoção gerada por apelos sentimentalóides articulados por psicopatas. Somos domesticados pelos instintos mais grosseiros. A alma, faminta, busca algo que transcenda o código imposto.

A beleza se esconde. Ela aparece nas nuvens diáfanas, no olhar que se encanta com o imperceptível. Já a folia ostenta a teatralização do tosco, o romance do vulgar, a estética da inutilidade. Os histriões desfilam pela avenida sem jamais atravessar o pórtico da sensibilidade. Para enxergar o horizonte, é preciso ultrapassar o umbral.

De minha parte, deixo apenas uma fresta de luz. Que ela sirva de convite para quem ainda tem olhos atentos e curiosidade viva.

Propriedade intelectual

A inteligência é patrimônio universal, ferramenta que transcende o intelecto mecânico e a lógica utilitária. Há os perversos que a instrumentalizam para fins escusos, e há os desnutridos de saber que se apropriam indevidamente do brilho alheio.

Esse recurso está acessível a todos, mas jamais deveria ser usurpado. A admiração pode nos inspirar, mas o roubo da autenticidade polui os vínculos e expõe a feiura desarmônica dos que não sentem a beleza.

A ponte entre cabeça e peito é o mais curto e necessário trajeto da humanidade. Aquele que instrui ilumina com a caridade didática, enquanto outros preferem cultuar a esperteza e o desdém. Uns falam quando deviam calar. Outros calam quando deveriam falar.

Tudo está invertido. Tento escapar dos tentáculos do desânimo e da raiva, serenando minha mente aturdida. Lucidez é propriedade que prescinde de inteligência — basta sensatez. No momento, não enxergo nem uma nem outra. Respiro fundo e aquieto a mente orgulhosa.

Tatuagens efêmeras

No universo dos “alternativos”, pululam almas moralistas, travestidas de descoladas. Vestem a aura da modernidade, mas ainda empestam o ar com os velhos julgamentos sobre certo e errado.

Abusam da “sinceridade”, assim como eu abuso das aspas. A franqueza vira crime hediondo. A conduta alheia é medida com adjetivos inflados, principalmente quando se tratam de “deslizes” ou “reprovações”. São sedutores no início: lançam suas redes disfarçadamente. Mas, ao se verem devorados por olhares famintos, só resta a fuga e a pusilanimidade.

A linguagem corporal entrega o medo, a mente programada, os bloqueios. O fascínio pela vida é substituído pelo domínio do intelecto. A exuberância não quer ser tocada, só contemplada — decorativa, intocável. Muitos se protegem com enfeites, tatuagens que dizem muito e escondem mais ainda.

Prefiro aquilo que vem fácil e transborda. Que joga a corda no fundo do poço e me puxa. Que arrebenta a armadura e desarma a espada. Sinto unhas arranhando minha superfície, tentando me acessar. Mas, em camadas mais internas, ainda não passa sequer uma brisa.

Mosquito

Chegamos a tal nível de “complexidade”, ou melhor, de bagunça, que apenas um mosquito é capaz de vencer toda uma corja de estultos. A confusão é habilmente aproveitada pelos manipuladores tupiniquins, enquanto “opositores” e aproveitadores de nichos vanguardistas brotam dos bueiros infectos à custa do sofrimento alheio.

Para que um lucre, outro precisa necessariamente se foder e, desculpem o termo, mas estou contaminado pela súcia midiática que me cerca. É muita baboseira em todos os cantos onde perambulo. Ó, solidão atroz! Os valores foram violentamente invertidos. Os nobres são ridicularizados; os sensíveis, silenciados.

Tentar decifrar os psiquismos simplórios é ser visto como tolo. O bom humor que tento ofertar, como via para a inteligência, é interpretado como pueril. O sarcasmo, como pedantismo. O bom senso, como enfado. O brilho é ofuscado pela rotina imbecilizante.

Os cretinos imperam e têm sempre respostas prontas. Criamos uma hierarquia da imbecilidade, e no topo da pirâmide só há demônios que escarnecem da nossa estupidez. Vivemos no fundo de um poço cósmico, esquecidos do resto do universo. Um excremento à base de uma escada infinita.

Quão patéticos somos ao esquecer nossa essência! Ajoelhados, só encontraremos gigantes. Assim, até os menores seres da natureza podem nos derrotar. A única arrogância que presumo legítima é a da intimidade com o criador, porque o inefável não cabe na forma humana.

Tudo ao nosso redor zomba da espécie aparvalhada, mas depois só resta chorar diante do caminho autoescolhido. Tudo parece ter lugar e propósito, menos o ser humano, que segue aniquilando a esperança enquanto abocanha pequenas vantagens. Escuto um zumbido... mas não é um mosquito. É a nuvem de gafanhotos humanos devorando o que resta de mundo.

Manicômio nauseabundo

Alguns lugares exalam odores compatíveis com seus frequentadores. Se tais seres são assíduos na rotina imbecilizante, o mesmo se dá com sua higiene psíquica.

A esfera contaminada por eflúvios deletérios torna-se o habitat natural e o olfato domesticado à pútrida sensação de que algo está profundamente errado.

Conheço um desses locais. O cheiro é um misto de chorume e enxofre. A estupidez paira como nuvem espessa sobre as cabeças inoperantes. Tento preservar a lucidez e a dignidade, mas sufoco nos gases da alienação.

Às vezes, penso que estou num hospício abandonado. As pessoas ali não percebem que podem sair a qualquer momento — esqueceram-se de que ainda possuem sanidade.

Por ora, sei exatamente quem sou. E aguardo portos aprazíveis onde possa enfim respirar.

Beliscando o próprio braço

Ainda pertenço ao mundo dos “vivos”, ou ao menos tento acreditar nisso, neste lapso chamado existência. Sei que a revolta estéril não detém as engrenagens esmagadoras que já giravam antes mesmo do filme começar. Um autor megalomaníaco se deleita com as cenas desse bizarro reality show de bonecos movidos por automatismos.

Tenho me esforçado para demonstrar valor — uma ingenuidade que beira a estupidez — quando deveria, isso sim, desprezar os “louros” de um mundo governado pela astúcia. Meus melindres e murmúrios só me mantêm na posição cômoda e lamentável de espectador bunda-mole.

Enfrento, com o que me resta de galhardia, os cenários que não se alteram com a bondade pueril. Aguardo com curiosidade o que virá, embora saiba que mal inflijo qualquer influência nas rotas previamente traçadas. Se fui eu quem escolheu esses dramas, então sou mestre na arte do masoquismo metafísico.

As leis da atração só me trouxeram escárnio e ironia. Foi apenas quando abandonei a esperança, e o desapego me deixou seu travo amargo, que colhi algumas surpresas. A dor, essa sim, foi sempre elo entre ação e reação. O coração responde, mas em percalços e contradições.

A ambiguidade sempre rondou meu caminho, como um ciclo ininterrupto de angústia e contradição. Se a morte apenas desnuda o véu da matéria, somos todos farinha do mesmo moinho cósmico. E, por isso, já não quero compartilhar, ensinar, ou mesmo, ajudar.

A imagem de empatia que ostento é apenas fachada, como se um vírus mutante corroesse a frágil imunidade da minha impessoalidade. Encaro tudo isto como afronta, brincadeira ou desafio. O que surge não pede permissão, e tudo toma uma proporção que minha percepção concede.

Prossigo tentando sustentar a sensação de pertencimento nestes descaminhos. E, por fim, desfaço-me das intenções sempre fugidias como fumaça.

Diagnósticos de boteco

Alguns diagnósticos proferidos por mentes obtusas não passam de projeções rudimentares de psicanálise de botequim. Ao ouvir tais disparates, sinto como se uma injeção de cicuta me atingisse a medula.

Surge, então, uma vontade cômica e violenta de disparar impropérios contra esses seres e apontar-lhes, com dedo em riste, os reais imbecis da história. Seria, ao mesmo tempo, fácil e fútil desmontar tais teorias rasas.

Gente que mal articula frases, que tropeça em parágrafos, ousa rotular outros como disléxicos. A ironia é incompreendida e os conceitos rasos ganham status de revelação.

Em ambientes dominados pelas trevas intelectuais, as observações bem-humoradas são confundidas com limitações.

A complexidade assusta e a ignorância se arvora em sabedoria. É uma luta inglória: os despreparados julgam os esforçados.

Quem precisa de um olhar sensível, recebe o golpe bruto da ignorância convicta.

Cuidado com as gotas de pseudo-sabedoria — são vacinas que nos emburrecem.

O zelador da burrice

Há uma profissão não declarada que grassa em todo canto deste orbe tupiniquim: o zelador da burrice. É aquele que burocratiza o simples, que transforma o óbvio em entrave. É o mantenedor oficial da desordem disfarçada de função.

Até o repasse de correspondências vira um ritual caótico. Nada funciona. E, no entanto, há pagamento em troca da desorganização.

A incompetência alastra-se como erva daninha e os imbecis incubam esse vírus, rebaixando o nível cognitivo alheio pelo simples contato.

A clareza é inglória frente ao muro da estupidez. Ser idiota virou ofício, e quanto mais autoconfiante, mais elevado o status. A "personalidade forte" é, muitas vezes, apenas a convicção do inepto.

Existem zeladores da burrice que se esmeram para mantê-la viva, sem sequer perceber a pandemia que perpetuam.

Acima deles, só chefias ainda mais obtusas, onde a truculência compensa a falta de inteligência.

Não há para onde correr. A mediocridade é contagiante e os desesperados à minha volta não têm onde se agarrar.

Estamos cercados. E o silêncio daqueles, sensíveis, é o último bastião.

Perpetuadores do etecetera

Aqueles que falam demais sofrem menos que os que pouco falam, pois não se importam com nada ou ninguém. Suas vozes lhes parecem bênçãos aos que se calam por angústia inefável. Quando seu discurso soa preocupação e desvelo, é exatamente o oposto e vice-versa.

Deliciam-se ao dissecar pontos óbvios, revelando aos poucos a simplicidade oculta. Quando se deparam com o etecetera, querem esmiuçar detalhadamente as amplas possibilidades... e seguir até a exaustão. Comprazem-se nesse exercício, certos de que espargem benesses infinitas. E quando encontram reticências, então...

A existência desses seres foi, talvez, engendrada pelo criador supremo para obrigar os humildes a lapidar as mais difíceis arestas da paciência. O reino do outro mundo, quem sabe eu adentre suas porteiras rústicas e singelas. Sei que minha impaciência ainda revela muito de tolice e a ousadia inútil de querer reparar o irremediável.

Felizes os que aceitam pacificamente o inexorável agora e não se debatem como animais ariscos. Nascemos com o arbítrio de ter apenas uma opção. A resignação não deve ser passiva, mas deliberada e mansa.

Quem olha ao redor e ignora os epifenômenos talvez seja sábio, pois compreende que o mundo é feito de fenomenologia interna e empírica. A epistemologia não lhe interessa, mas os ruídos da alma, sim. Os outros se incomodam com sua roupagem de fé, mas eles não se abalam. Inquietam-se com os desconfiados, como se fossem mensagens indecifráveis.

Trabalham com afinco na manutenção do mundo... e de suas ilusões.

Aplausos para a mediocridade

A risadinha ladina, sutilmente percebida num lapso, é a resposta que eu esperava para constatar o que já sabia há tempos. Se a inteligência é atributo do espírito, alguns podem ser considerados desalmados.

O aproveitador suga até o final da medula daqueles que possuem qualidades que não detém. Sua maior virtude é a malícia ao explorar os idiotas que enxergam bondade onde não há. É difícil de crer, mas muitos só agem impelidos por artimanhas e se comprazem em tais jogos.

Estúpido sou eu ao acreditar em tolices como regras atemporais e universais. Estamos em um mundo de prazer instantâneo e egoísmo brutal. Não existe nada que se possa ganhar por mérito, só existem interesses.

Certamente herdamos as características das divindades, pois estas desejam ser exaltadas e temidas. De fato, não estou habilitado a viver esta vida de aparências. Só se destaca o brilho advindo do ouro dos tolos, a falsidade aplaudida pelo séquito dos imbecis.

Não há oportunidade para mim onde estou. Não enxergo saídas, só armadilhas urdidas por espertalhões ineptos. A mentira triunfa em seu pódio colossal.

Reaprendendo a orar

A politicagem de forçosamente demonstrar interesse por outrem é o que mais se vê nas pausas da rotina tumultuada. Percebe-se a verdadeira face desses embusteiros nos raros momentos de tranquilidade, quando são surpreendidos em sua indiferença friamente calculada.

Falam sobre temas conhecidos, fazem perguntas sobre trivialidades cujas respostas já preveem, mas não querem — de fato — saber sobre aquilo que o outro gostaria de compartilhar.

Quando imersos na azáfama e contaminados pela ansiedade do ambiente, deixamos de notar os olhares patrulheiros e a maledicência deletéria. O vilipêndio tornou-se minha única postura, mas, por vezes, ainda me irrito ao notar a movimentação malsã.

Alguns são hábeis na arte do fingimento constante. Eu estou “aprendendo” esse ofício, sem perder a essência. Na verdade, tento ocultar o que não interessa a ninguém ou falar de mim com despreocupação estratégica.

A maldade espreita ativamente, mas não dou trela.

Vigio. E, sobretudo, busco reaprender a orar.

Faixa limitada do livre-arbítrio

Certos grupos ditos religiosos são tão burocráticos e engessados que mal percebem o abismo entre seu discurso fanático e a realidade gritante.

Falam de caridade e auxílio ao próximo, mas não enxergam os pedidos mudos, tampouco sabem acolher.

Apregoam a liberdade como pretexto para não atuarem em prol dos necessitados.

Exaltam o estudo e flertam com a ciência, todavia se ancoram num purismo e ortodoxia ferrenhos.

Ao mesmo tempo, combatem a inteligência, como se tal atributo fosse avesso à virtude dos simplórios.

Alardeiam a reforma íntima e o aprendizado, porém são incapazes de ouvir reflexões humildemente proferidas.

São professores ciosos numa didática infantilizada e imbecilizante. Ao ouvirem críticas sutilíssimas, inflamam-se e advertem os “petulantes” quanto aos cânones da consolação.

Buscam as causas do abandono, mas apenas ilustram o quanto ainda engatinham no entendimento.

Esdrúxula pseudomodernidade

Se minhas percepções fossem externadas sem filtro algum, este planeta se tornaria um pântano estéril e trevoso. Entretanto, tento tecer minhas considerações com parcimônia. Estou engessado no comportamento “politicamente correto”, máscara que oculta o medo das represálias impostas pela soberania dos imbecis.

Os cidadãos lutam por míseros espaços nos conglomerados humanos e só os conquistam à custa do consentimento humilhante. Quem não se torna um vendedor comprometido da farsa triunfante, automaticamente vira pária.

Ser um homem do mundo ou um deflagrador de mentiras, eis o conflito da minha existência atormentada. Tenho asco da teatralização fajuta... e, por consequência, de ser um péssimo ator. Quem perde a fé, em tantas esquinas povoadas de espreitadores sinistros, dificilmente encontra a faísca de volta.

Percebo, enfim, que fui manipulado, sutil e insistentemente, a seguir impulsos deletérios. Agora, consigo desmascarar algumas dessas artimanhas. Só não posso apontá-las, sob pena de ser ridicularizado.

Antes, eu observava, aturdido, os eventos no horizonte da normalidade entediante. Hoje, tudo me parece esquisito e sem nexo. Quem me lê talvez me ache deprimido, mas não sou. Apenas não participo da mentira consensual.

Os registros da humanidade incluem compêndios de vaticínios, poções de felicidade, estórias distorcidas, receitas alquímicas, explicações fantasiosas e uma descrença preguiçosa. Remo contra a maré dos absurdos e tento fazer algum sentido, ao menos para mim mesmo.

Apesar da minha habilidade em tentar interferir nos acontecimentos, percebo: sou apenas espectador. Minha missão? Não me irritar com toda essa infâmia e fazer piada das desgraças que sofro voluntariamente, com indigesta resignação.

A marca da besta

Falam tanto sobre a antítese do bem que até parece que o mundo já está completamente arranhado pelas unhas do capiroto, como se subissem num ringue dois arqui-inimigos ferrenhos.

Possivelmente, são os espectadores escolhendo o bode expiatório para sua sede sangrenta ou depositando suas culpas num espantalho maligno.

A marca da besta está oculta — e só conseguimos enxergá-la através do ritual místico e complexo de simplesmente encarar nossa face na lâmina refratária do espelho.

O chefe supremo já deu suas ordens e nos deixou ligeiramente à vontade, embora perdidos como qualquer empregado recém-contratado.

Os capatazes da maldade foram demitidos, pois fizeram seu serviço com tanto esmero que não sobrou mais nenhuma demanda, e o chifrudo dispensou seus préstimos.

Ninguém quer mais empregar o trabalhador corajoso para as obras esquecidas da caridade, visto a ousadia deste “novo” empreendimento.

Preferem utilizar a marreta da crítica estéril na frágil parede das benfeitorias escassas.

Subalternos da resignação

As relações de poder tornaram-se um tema recorrente já batido e debatido, pois permeiam desde o nível celestial até o microcosmo de nossas insignificâncias: nas lutas cotidianas por controle e na manutenção do caos. As filas compostas por aqueles que seguem a manada por inépcia ou desesperança são gigantescas. Mas minha teimosia me faz abandonar a burocracia da mendicância. Alguns almejam atuar como serviçais, não importando a situação, sem ligar se transparecem sua subserviência.

O desejo de domínio é a doença que marca, nos tempos atuais, o psiquismo de alguns seres embotados ou escrachadamente ávidos por poder. A manipulação ocorre em níveis sutis ou descarados, pois já estamos com a vista nublada e não distinguimos verdades de mentiras no sincretismo do absurdo. Os mafiosos das corporações colocam-se num patamar elevado, onde não oferecem mais acesso aos vassalos, muito menos desconfiam das piadas de bastidor. O funcionário é aquele que desempenha suas funções; o colaborador é aquele que sabe que estas são imperiosas e deve forjar seu contentamento.

Até aqui, falei apenas obviedades, pois a opressão é tangível, tal qual tocar as cordas de um violão ou ser açoitado em sua honra. O contrato, à semelhança dos pactos de encruzilhada, assegura nosso emprego e subalternidade, assinalando a obrigatoriedade de seguir a cartilha da resignação. Copiamos os defeitos de alguns deuses, por venerarmos suas condutas e por invejarmos o fascínio que exercem.

A história remonta a esses relacionamentos de submissão e tirania desde longa data, para nos lembrar o quanto os repetimos, na ânsia de receber um norte ou doutrinar os outros quanto àquilo que nem mesmo nós sabemos. Escravo da poesia é meu cargo registrado oficialmente, mas minha função é de charlatão da prosa.

Roquismo

Um dia fui classificado como pertencente a uma nova corrente filosófica e fiquei abismado. Trata-se do roquismo, tendo como mentor a personagem principal do filme Roque Balboa, o lutador. Nos filmes, sempre são deixadas (por vezes de forma subliminar) mensagens motivacionais, por meio de frases tão intrincadas, extensas e superficiais, que ao final não se sabe se foi captado o sentido ou se perdemos algo de valor transcendental.

Toda a acurácia de Balboa se deve à sua resiliência frente às pancadas recebidas pela vida, pois, se estas deformaram seu rosto, não conseguiram afetar seu cérebro privilegiado. Ou afetaram? Se o Roque tivesse sua versão tupiniquim, mal conseguiria levantar suas luvas de boxe, bem como somaria à sua frágil comunicação o problema de vocabulário escasso e erros gramaticais hediondos.

O fato de ir à lona e se erguer sistematicamente seria comparável ao nosso povo, mas no embate lógico seria nocauteado pelos lutadores mais tísicos. A única diferença entre as versões seria a falta de conteúdo das mensagens que o Balboa brasileiro transmitiria, o que lhe garantiria o cinturão de campeão dos pesos-pesados da estupidez.

Aglomerado Democrático

A democracia é uma mentira tão infundida na mente de alguns povos que até parece realmente existir, pois dá a sensação de que basta o levantar dos braços para computar nosso voto na decisão suprema. Tendo em vista a burrice da maioria, quando há uma espécie de consenso, quem vence é a massa dos ignorantes. Todavia, a decisão já foi previamente arquitetada por “elites” maquiavélicas — já que, sem discernimento, todas as manifestações se dissipam e são usadas em prol de interesses escusos.

Nas reuniões de condomínio, por exemplo, podemos ver o total descaso das pessoas em relação à opinião alheia — e indivíduos sem a menor condição de arbitrar sobre qualquer coisa, seja por inépcia, seja por falta de bom senso. Os grupos são incapazes de qualquer ação ou resultado, pois são formados pelo caos previsível de suas próprias reações instintivas. O que vemos é a comédia misturada à tragédia: o poder de decidir sendo desperdiçado, qual dejeto a se esvair pela privada do banheiro mundial.

Nem o adubo dos erros tem serventia em solo árido do senso comum. O nível de manipulação é de uma sordidez incomensurável, e nosso automatismo descerebrado é próprio de gado a ruminar a ração de estupidez diária. Fico aturdido e impossibilitado de falar sobre outros aspectos da nossa fantasia humanitária, pois nem sei para qual público escrevo. Nem o pessimismo crônico, muito menos o otimismo delirante, me satisfaz. Fico apenas com uma expressão abobalhada — própria daquelas pessoas que transmitem à multidão a fisionomia dos ingênuos desprovidos de inteligência.

Queria ter a malícia alardeada por muitos, a sagacidade dos que aproveitam oportunidades com altivez. O embuste está em cada esquina, e pedimos para sermos ludibriados: teimamos em ver bondade na pilantragem majoritária e insistimos em enxergar maldade onde não há essa consciência.

Certamente, os corruptos (a parcela maior da humanidade) estão cônscios de sua vilania, enquanto os que carregam o germe da bondade hesitam. Qual será o desfecho deste embate entre forças antagônicas? Isso será discutido na próxima assembleia... ou no próximo capítulo.

O mundo é dos assertivos

Existe uma competência muito estimada no panorama empresarial atual e pelos propagadores inveterados da performance: a tão almejada assertividade.

Ela consiste em expor nossos pontos de vista com clareza, objetividade e firmeza. Até aqui, tudo bem! É altamente desejável que as pessoas se expressem assim. Porém, não sei o que dizer quando fazem isso sem qualquer tipo de crivo.

Há seres que se apossam indevidamente dessa postura assertiva, sem utilizarem recursos pautados na razão. E, ao falar de razão, não me refiro apenas ao domínio do intelecto, mas ao equilíbrio entre pensamento e sentimento.

Como eu dizia: existem personagens que vestem a roupa da combatividade, valentes por fora, mas incapazes de perceber o que falam e sentem.

Não se apercebem enquanto caminham pela vida; apenas querem impor seus personagens.

Por isso, digo: é fácil demais decidir ser assertivo neste mundo de lutas épicas, onde os guerreiros empunham as armas da imbecilidade e da ignorância.

Há uma discrepância brutal entre o que as pessoas são de fato e o que querem ostentar.

Não há espaço para a inteligência. Certamente, a paciência, essa sim, continua sendo uma das virtudes mais excelsas, para mim.

Doutor pica das galáxias

Desde a Antiguidade temos registros de títulos honoríficos outorgados a pessoas — muitas vezes, sem qualquer honra. Havia duques, príncipes, grão-mestres, capitães-mores, barões, condes... Uma profusão de formas de tratamento para exaltar a suposta nobreza alheia.

Hoje, pouca coisa mudou — apenas algumas nomenclaturas. Temos o que dantes já havia, e mais uma infinidade de políticos, professores, artistas e outros tantos “famosos”. No Brasil, o cenário é particularmente decadente: nomeamos reis da música, rainhas das crianças, e uma coleção de personagens “ilustres” que envergonham os nomes verdadeiramente expressivos de suas áreas.

Nas esferas “mais altas” da sociedade tupiniquim, atingimos os píncaros da formalidade canastrona: homens sem caráter se tratam por vossa excelentíssima, meritíssima, reverendíssima — e por aí vai. Lá fora, pelo menos, há quem seja consagrado como Sir Pica das Galáxias, com alguma ironia ou estilo.

Aqui, neste país de dimensões continentais e baixos níveis intelectuais, as formas de tratamento se invertem. O fenômeno mais ridículo é a maneira popular de se referir a alguém. Sou frequentemente interpelado como amigo ou camarada por pessoas das quais sequer desejo aproximação. Em outras ocasiões, surgem os tons afetivos com estranhos: coração, flor, meu amor, querido. Reflexo de um povo sentimentalóide, infantilizado e hipócrita.

Também existe a gíria dos guetos alternativos e/ou marginalizados, adotada inclusive pelas classes médias. Sou chamado de chefe, chapa, mano, sangue bom, truta, parceiro, campeão, mestre, jovem, velho... e outros adjetivos criativos. Às vezes, o tom é amistoso. Noutras, jocoso, irônico ou agressivo.

Não sei como lidar, ou sequer como tratar pessoas tão medíocres — senão como: senhor dos idiotas, campeão da imbecilidade, imperatriz da farsa, mestre dos engodos…

Seria, no mínimo, engraçado se eu pudesse nomear adequadamente alguns seres que parecem saídos de uma ficção bizarra.

Sindicato dos demônios

O sindicato dos demônios vem a público reivindicar seus direitos, pois sua classe tem sido há muito vilipendiada sem receber o devido salário. Os préstimos deste milenar ofício, ofertados por esses famigerados trabalhadores, ultimamente têm sido de pouca valia.

Os demônios reuniram sua alta cúpula em assembleia extraordinária para deliberar os rumos de tal mister (com um toque de prazer e lazer), exercido pelos profissionais do ramo da maldade. Assim, decretaram uma greve que recebeu total adesão de seus demoníacos representantes.

Ocorre que ninguém deu pela falta de tal serviço, assim como aconteceria se os representantes da área de "recursos humanos" fizessem uma paralisação. O capeta-mor e seus subordinados cumpriram seu papel com tal esmero que, doravante, não precisaremos mais de seus préstimos para propagar nossa vilania e pequenez moral.

Apenas colocamos a culpa nos ombros desses infatigáveis operários, que cairão no ostracismo caso não busquem outra ocupação mais profícua. Na realidade, nunca prestaram serviço algum que não fosse o de plantar a dúvida no campo duro dos dogmas.

Os verdadeiros obreiros desta monumental empreitada maligna foram os “bonzinhos”, crentes de que estavam edificando um mundo melhor, enquanto colocavam a culpa em quem contrariasse suas “santas” intenções. Deus me livre desses embusteiros travestidos de salvadores!

Bonsai brasileiro

A arte milenar de criar pequenas réplicas de árvores revela algo além da estética de suas miniaturas ou da paciência de seus cultivadores. O homem, em seu labor incessante de tentar represar o impulso latente de crescimento, busca modelar, ao seu bel-prazer, as forças exuberantes da natureza.

Todo esse esforço de manipulação perseverante aponta para o íntimo desejo de alterar cenários externos, antes mesmo de podar os próprios galhos, apodrecidos e estéreis. Na esfera dos comportamentos, ocorre fenômeno similar, ao passo que somos estrangulados com arames e puxados para manter inalterado nosso nanismo moral.

Devidamente ornamentados no vaso da sociedade, parecemos belas criaturas, mas simulamos uma harmonia almejada, sem compreender que ela é composta de elementos dissonantes e caóticos.

Alguns exemplares, puros e originais, repousam à beira do penhasco, em condições selvagens. Muitas mazelas brotaram da negação dessas intempéries salutares e de nossos instintos protetores.

Dentre tantas estufas de plantas artificiais e disformes, vejo na vegetação agreste as raízes intocadas de um peculiar senso intrínseco de crescimento individual.

Leis da física

Os brasileiros adoram desafiar as leis da física, principalmente no que tange ao transporte coletivo, pois num trem onde caberiam 500 pessoas se espremem 1000 seres aflitos. Nem mesmo os átomos em sua microscópica humildade ousam deliberadamente desatar seus liames ou invadir espaços alheios.

O desrespeito beira o descalabro em compartimentos onde o indivíduo é involuntariamente estuprado em sua privacidade. Mesmo que exista uma brecha possível para respirar, o cidadão faz questão de se grudar qual um parasita ao corpo do hospedeiro.

Nestes rincões onde moro o desespero monta guarita no psiquismo de seus moradores nas formas da pressa automática e da alienação das paisagens.  É um cenário feio e contaminado por discrepâncias, poluição sonora e entulhos. O engarrafamento no trânsito ocorre entre os carros e as pessoas. Alguns se locomovem em velocidades frenéticas, enquanto outros se arrastam quais zumbis.

O que me incomoda sobremaneira é ter que esbarrar nestas personagens bizarras, mesmo tomando o cuidado de não o fazer. Quando desço da composição do metrô, aguardo alguns minutos para subir as escadas rolantes e assim evitar o afunilamento caótico das forças bárbaras dos passageiros acéfalos. É de fato um teste grandioso manter a paciência, o que me transformará brevemente em um mestre ascencionado ou em um lunático.

O silêncio neste contexto do transporte metropolitano é a benção suprema só conquistada em momentos de muita sorte. Enquanto as leis da física funcionam em certa harmonia, não reverenciamos os movimentos cíclicos e perpétuos da natureza.

Talvez o apocalipse em sua fúria apaziguará o turbilhão de forças dissonantes. Queria ser o último homem da Terra para desfrutar de alguns momentos pacíficos.

Rodízios modernos

Ser maltratado é quase uma constante na maioria dos estabelecimentos nestas paragens tupiniquins. O cliente é atendido com certo desdém, por pessoas sem o mínimo de preparo para servir alguém. A não ser que você exiba o ar despreocupado dos que ostentam alto poder aquisitivo, será fatalmente aborrecido pela forma xucra com que o tratam.

Bem-aventurados os que não se importam, ou os que já se acostumaram com esse modo rude de abordagem. Os preços sobem e a qualidade do serviço despenca. Quando alguém consegue ser tratado como gente, o local logo se torna disputado e badalado.

Qualidade no produto e no atendimento, juntos? Nem pensar. E quando, por sorte, essas coisas se equilibram, são os próprios clientes que tornam o ambiente desagradável.

Certos restaurantes, que contam com comida bem-preparada ou bom atendimento, aos poucos degringolam. Tudo isso me leva a cultivar a misantropia: por aqui, o cliente nunca tem razão, nem mesmo quando a possui.

É uma cópia fajuta de certas marcas estrangeiras, mas sem o requinte, a educação ou o bom senso. Quando a cozinha é de alguma nacionalidade específica, os representantes locais subvertem sua essência, inventando modificações absurdas.

É ridículo quando trazem à sua mesa a comida sem frescor, como se jogassem ração velha a um gado faminto. Os garçons, ou servem de modo célere, desajeitado e brusco, ou te sufocam sem deixar você se acomodar. A falta de respeito é generalizada.

Só falta o cliente ser enxotado a pontapés após engolir a última garfada. A sensibilidade morreu na porta de entrada. Faça você mesmo. Assim, será bem tratado e, quem sabe, até satisfeito.

Hemorroida cerebral

Nos compêndios científicos das mais novas patologias humanas descobertas, figura uma doença (até o momento fictícia, não se preocupem), totalmente assustadora, cuja dor faz até o mais bravo vociferar impropérios e se desatar em lamentos pungentes. Trata-se da terrível hemorroida cerebral, onde os sintomas são de difícil constatação. É preciso dizer, primeiramente, que esse quadro raro é causado por um conjunto específico de comportamentos. Temos um distúrbio psicológico que evolui para uma causa fisiológica, por conta de repetidos esforços ou práticas deletérias. O fenômeno consiste no fato de o indivíduo, teimosamente e com excessivo zelo, se esforçar por encontrar respostas para as injustiças do mundo, que fatalmente recaem sobre sua vida atormentada, ocasionando a inflamação e dilatação das veias cerebrais.

Há a intercorrência crônica da doença, aferida quando o paciente já incorporou à sua vida algumas respostas insatisfatórias, que apaziguam muito pouco sua angústia existencial. As dores excruciantes não deixam que se concentre em outras possibilidades. Parece que lhe colocaram um estribo na cabeça que esmaga seu crânio lentamente. A pessoa que sofre desta influência maligna tem sua vida completamente atrapalhada por esta má sorte, mas a gênese da moléstia é psicossomática. Que merda!!!

Tal qual o outro tipo de hemorroida, que surge em local inconveniente, não é possível ignorar que há algo errado. Esqueça quais são as causas profundas ou qual é o cerne (cú) da questão, pois devemos nos ocupar com as possíveis soluções, sem a mínima esperança de que será resolvido. O ser humano é máquina e deve estar em pleno funcionamento, para que suas engrenagens não emperrem. O tratamento consiste na abnegação dos pensamentos e no laborioso empreendimento de agir roboticamente, seguindo o fluxo apolíneo dos seres assistidos pela divindade que pune quem sai fora das cercas. O corpo é o cárcere da alma, como se o condenado fosse imensamente superior ao algoz. O arbítrio é a mínima probabilidade no jogo cômico de azar. Estou sarando vagarosamente. Enquanto minha mente está convalescente, meu coração permanece petrificado pelos efeitos colaterais de tais esforços vão.

Desalumiado *strictu sensu*

O analfabetismo desta nação em que vivo não está diretamente ligado ao desconhecimento das letras, mas se estabelece na ausência de princípios básicos de compreensão. Trata-se de uma escuta deficiente, preguiçosa e dispersa.

Não podemos dizer que as sinapses não funcionem corretamente, mas que ficam indolentes diante do estilo de vida sedentário dos neurônios. Buscar algum resquício de verdade é trabalhoso e cansativo, por detrás das aparências e por entre os milhares de estímulos diários.

Repetir informações várias vezes, na esperança de que o interlocutor crie conexões com nexo, é tarefa angustiante. Querer tecer algum comentário filosófico, entre os pensadores de bar ou os diletantes organizacionais, é esforço vão que redunda sempre na superfície das ideias.

Trazer alguma palavra bela é correr o risco quase certo de ser tratado pejorativamente como um poeta desvairado. Qualquer um por aí arrisca versos pobres, sem lapidar suas arestas na maturidade do tempo. Todos querem andar no compasso da prosa — com prumo, linearidade, continuidade, regularidade e previsibilidade... entediantes.

A inépcia é persistente. Perco segundos com detalhes estúpidos.

Não consigo acelerar a irrelevância, dado o caráter perpétuo das contribuições inúteis.

Vivo na caça de augúrios favoráveis que apontem algum rumo na direção de mim mesmo. Comunico-me apenas com minhas vozes, tentando ignorar os “outros internos”. Algum tipo de diálogo legítimo é um momento raro, nestas paragens onde cada um só quer se afirmar ou se impor.

O cenário é este mesmo. A paisagem física revela indícios da paisagem interior destes seres que povoam cá nestas bandas. A corrupção se infiltra até nos processos de aprendizagem, onde muitos afirmam que compreendem, mas...

Escolinha da truculência

A lucidez se mantém em estado de coma, após inúmeras investidas perniciosas dos selvagens patriotas. O orgulho pelo que desconhecem os faz manifestar sua alegria de forma histriônica e abobalhada. É o folclore elevado a "cultura", abraçando nossa legítima marca: a superficialidade da preguiça pretensiosa e ostensiva.

Como não estão habituados a buscar beleza ou inteligência, assustam-se com a ousadia de quem o faz deliberadamente. Procuram achincalhar os que se portam com educação, elegância e serenidade, pois exaltam a lei dos mais fortes.

Desde tenra idade são alfabetizados no grito retumbante, onde ecoam argumentos desconexos. Quem não entra na mesma frequência das falácias infantilóides é taxado de “mole” ou “sem assertividade”.

Por tudo isso, o costume prega a "tratorização" do bom senso e lança o "carro-bomba" da agressividade até contra os aliados. Essas “virtudes” da brasilidade transformam a tolice em esperteza e a honestidade em ingenuidade.

Não quero mudar! Cansei da velha estória da lapidação rumo à forma ideal, pois estou deformado, feito argila nas mãos inaptas de estúpidos escultores. Tampouco desejo o tal aprendizado ou aprimoramento. Exalto o que em mim é rústico, reles e sem adornos, mas também celebro o sublime sentimento que é inefável.

Querem fazer de mim um guerreiro ágil, destemido, sagaz, brutal e impiedoso… Mas eu só queria decepar cabeças inúteis e perfurar corações atrofiados.

Todos querem doutrinar-te na disciplina milenar de como ser uma pessoa xucra e bem-sucedida. Agora, um pouco amansado pela visão do inútil confronto contra as forças titânicas da burrice galopante, respiro — E desisto de fazer algo. Começo a concatenar ideias, a calibrar meu espírito. Não quero aprender nada com os que se arvoram mestres da estupidez.

Os Charlatões da Galáxia

Como é difícil viver numa galáxia imensa, espremido num reduto paulistano repleto por todo tipo de oportunistas baratos. O tipo de embusteiro que mais me perturba é aquele que vive na espreita por pequenas vantagens e nem vou me cansar enumerando quais são, para não ter um ataque apoplético.

Apenas descreverei algumas cenas nebulosas, tentando sublimar de forma digerível essas sensações desconfortáveis.

Acotovelando-se em espaços tumultuados, essa raça “guerreira” luta não sei por qual motivo, senão para alcançar algum ponto de escravidão e submissão. São peritos em analisar situações complexas a partir de um único ponto de vista: o próprio!

A criatividade absurda desse povo consiste em criar paródias inúteis sobre seu sofrimento, sem jamais fazer qualquer reivindicação para modificar seus cenários grotescos. A execrável postura passiva de pessoas dilaceradas desde as entranhas e já acostumadas aos abusos repetidos é um golpe no meu psiquismo.

Tento não ceder ao império da pilantragem generalizada, nas organizações ou nos pequenos grupos eventuais. Sou ridicularizado por não aderir à sagacidade desonesta nem incorporar os trejeitos esdrúxulos dos que se acham claros, objetivos, firmes e “impossíveis de serem enganados”.

Meu exercício diário é a prática da *ioga profunda*, para não ser impactado por essa avalanche de estímulos bizarros. Não quero ser defensor de território algum. Tenho buscado apenas me proteger, o que é impossível. Não há blindagem contra a estupidez maciça.

A única saída talvez seja tentar ficar bem e não dar atenção às moscas humanas. Isso pode, quem sabe, aplacar minha fúria justiceira. Há um lugar onde a escória do universo se concentra e sua imundície é nauseabunda.

Heróis são aqueles que não se deixam contaminar pela escumalha humana. E, por isso mesmo, são vistos como aberrações.

Campeonato apocalíptico

Um fenômeno estranho tem pipocado ultimamente por todos os recantos desta cidade atribulada e insana. Milhões de seres, com seus celulares em punho, vêm desenvolvendo TOC por meio do sistema *touch screen,* tirando selfies freneticamente a esmo.

Acrescente-se a isso um cenário caótico e congestionado e pronto! Temos um quadro pós-apocalíptico, onde os psiquicamente sãos tentam se preservar íntegros diante da escória que pulula e pula em manifestações primitivas.

As músicas rudimentares e os sons guturais emanados ferem constantemente os ouvidos fragilizados. Talvez só indivíduos com alto grau monástico de paciência ou poder de abstração suprema dos iogues consigam ignorar tais incômodos, mas duvido.

Em momentos festivos, a aflição beira o descalabro, pois a alegria esvaziada e imposta é sucedâneo da tristeza que não se quer encarar e da burrice varrida para debaixo do tapete.

Como torcedor, em qualquer nível, obviamente torço contra meu próprio time, para não me esquecer da miséria que medra e abunda. Qualquer torcedor é um otário, pois vive em compasso de espera, na esperança tola da inércia.

Assim, os bobos anestesiados querem alucinar também aqueles que conseguem algum tipo de paz. É a solidão atroz compartilhada com muitos, para simular uma felicidade que não é vivida.

Fazem o máximo para ignorar o chamado das esferas mais íntimas do ser e aparentar algo que não são. O esforço monumental que despendem para manter essa fachada fajuta só os deixa cansados, até que o esgotamento da dor os retire do torpor.

Às vezes, sinto que estou em outra dimensão, olhando para esse cortejo de absurdidades. Às vezes, fico em apneia, como se estivesse mergulhado numa piscina de dejetos. Às vezes, desejo criar uma bolha ao meu redor, para me proteger destes seres torpes e abjetos.

Não sairei sem máculas deste ambiente, mas preservarei algum tipo de pureza, inalterada pela minha “ingênua” teimosia.

Jogos mordazes

O mundo clama pela cumplicidade de todos os participantes, não deixando espaço para os observadores. Na contemplação das miragens, tudo se revela como imagem que se desfaz ou se perpetua.

Podemos sondar o que se esconde por detrás das fachadas imaginárias daquilo que gostaríamos de ser, como um reverso intento construído. O que foi aprendizado e o que é parte intrínseca… coisas distintas, distanciadas pela aceleração do tempo interno.

Os grupos imploram adesão, forçando nossa inclusão em situações pré-formatadas. Indivíduo e ambiente, elementos indissociáveis, ou talvez feitos a partir do mesmo tijolo. Estar e ser: as pessoas oscilam entre essa confusão irremediável e a crença de que vestem uma realidade peculiar.

Aquilo que acredito me absorve a ponto de eu não saber se é escolha ou destino inexorável. E se temos um mundo de crentes, então boa parte da população é constituída por arquitetos incompetentes.

De minha parte, cansei de tentar consertar as coisas. Já que não há como escapar do jogo atroz, conto com a ajuda benevolente do juiz.

Participarei com ar fanfarrão e, diante dos estúpidos, vestirei a formalidade pungente.

E tudo será acompanhado dos bastidores frios, enquanto controlo alguns movimentos dentro de uma câmara oculta, revestida de algo que ainda penso ser minha personalidade.

Game over

Fim de tarde. O operário repousa num banco, fatigado após o dia de trabalho. Seu suor seca lentamente. Respira a longos haustos. Relaxa o corpo combalido. Esquece as atribulações. Desembaraça os pensamentos. Acalma o turbilhão mental e contempla o cenário ao redor da praça. Observa o pôr do sol alaranjado. Sente, na fronte, uma brisa que prenuncia o anoitecer.

Quando já estava pacificado e seu semblante transparecia serenidade, um vizinho conhecido cruza as trilhas da praça e o saúda. O homem estaca em sua frente e solta a seguinte frase: — “Eita, vida boa a sua, hein? Só na moleza, né?” O trabalhador emudece diante de tal disparate — dito com tamanha jocosidade. Só tem forças para retrucar: — “Então, meu caro... Só de passagem por aqui?”

O rapaz, com quem tinha pouco contato apesar de ser vizinho, apenas meneia a cabeça e segue adiante, com um sorrisinho enigmático, mistura de vagabundagem e superioridade. Como se responde a esse tipo de imbecilidade?

Não era possível fazer frente à estupidez dominante dos que vivem eternamente “de passagem” e só enxergam o imediato e o aparente. Após sua labuta diária, quase perde a paz adquirida naqueles poucos minutos, por conta de um único estímulo externo irritante.

Mas tem, então, um insight poderoso: — os dias sofrem sempre com milhares de situações idiotas e dezenas de pessoas estúpidas. E quanto mais percebia isso, tanto mais se transfigurava e se assemelhava àqueles que repudiava.

O silêncio após essa revelação quase-divina eriçou o topo de sua cabeça. Soube, instintivamente, que o propósito de todo ser humano é não entrar no torvelinho deste jogo obrigatório.

Assumiu seu papel de jogador. E passou a tentar, no dia a dia, não se incomodar com a corja dos prisioneiros humanos. Reparou que a maior droga inventada pelo suposto criador universal é a nossa mente. Que o perigo se abriga no sentimento. E que o único refúgio se esconde, com simplicidade, no ser.

O pó da incerteza perene

Nada realmente importa. Nada! Quem atribui valor a tudo que existe e ocorre é a instância particular do ego.

De fato, um mero personagem construído, mas especial, por conta da teia complexa urdida pela consciência cambiante e indomável.

Mentira ou verdade... palavras desprezíveis. A mera possibilidade de perder ou vencer abala as estruturas deste jogador, viciado há tempos.

O pior é que somos instigados a manter o hábito de viver entre o prazer e a dor. Entrar ou sair das situações tampouco possui propósito definido.

Queremos nos desvencilhar das repetições monótonas e degustar um pouco de tudo o que nos é destinado e, por vezes, nos empanturramos dos sabores prediletos.

Há um centro de vontade que despreza os conceitos ambíguos e só se preocupa consigo mesmo.

Urucubaca

Não queria fazer parte da mesma igualha ignóbil à qual compartilho, diuturnamente, minha sapiência involuntária. Contudo, a mandinga dessa gentalha me lançou uma urucubaca inaudita. Um sortilégio pungente, que extirpou minha sorte durante esta existência. Fui tragado por uma arapuca engenhosamente forjada pelos estultos.

A zombaria de que sou alvo, nesta ordem invertida de poder onde os estúpidos reinam soberanos, traz o estigma daquele que se debate inutilmente. Perceber o que me rodeia apenas acentua minha tristeza e somatiza o drama inextinguível da consciência pungente.

Quero me reestabelecer, mas meu corpo se revolta contra a tristeza que ressurge como lava ininterrupta. Fico zonzo ao pensar nos problemas insolúveis e nas pequenas vicissitudes quotidianas que tampouco consigo administrar.

Minha sina é a de apertar parafusos sistematicamente, sem reflexão, sem sentido. Quando tento extrair um significado ou manipular um evento, sou frustrado até nas pequenas conquistas.

A sorte, essa desavergonhada, costuma tropeçar em nós quando estamos distraídos e despreocupados.

“Deixa eu” te falar uma coisa!

É negativamente impressionante como alguns seres se arvoram em peritos avaliadores de nossa personalidade — dotados de uma sapiência que ultrapassa até mesmo nossa restrita autopercepção. Ostentam uma confiança que beira o ridículo ao decifrarem nosso temperamento com base em atos pontuais e esporádicos. Costuram retalhos e pintam um quadro que se assemelha à imagem de qualquer outro ser humano da galáxia. É um reservatório imensurável de obviedades, clichês e frases pré-moldadas por embusteiros do ramo da autoajuda ou por aventureiros autodidatas. Apregoam suas certezas depreciativas enquanto exaltam suas fortalezas e “virtudes impolutas”. Ouvir tais discursos — vindos de mentes tacanhas — me deixa triste e irritado simultaneamente, até me tornar depressivo e incapaz de pronunciar palavras.

Essas pessoas pedem encarecidamente por sinalizações de suas fraquezas — desde que sejam miudezas — sem deixar qualquer brecha para isso, ou erguendo barreiras intransponíveis de justificação. São gurus na arte de enxergar “pelo em ovo” e de transformar insignificâncias em catástrofes estratosféricas. Treinaram a disciplina do terrorismo psicológico, no afã de infundir medo nas mentes laboriosas e despreocupadas. Fingem preocupar-se — piamente convencidos de suas próprias mentiras — enquanto infundem irresponsabilidade nos outros. Isso acontece especialmente quando essas criaturas de parcos recursos e desmesurada segurança encontram indivíduos talentosos, porém vacilantes. É um combate desleal — e essas figuras são incapazes de se envergonhar diante de suas amostras de sabedoria popular, espontaneidade vulgar, compartilhamento não autorizado e questionamentos inoportunos.

Só podemos tentar não ficar furibundos com esses chatos — pois eles se alimentam do nervosismo alheio. Quanto aos irritáveis: miseráveis existências nesta face do mundo de azucrinadores. Quando alguém disser: “Deixa eu te dizer uma coisa!”, saiba: isso não é uma pergunta. Não refute. Não aceite. Deixe essas palavras te atravessarem como = sombra. E assopre o vapor nauseabundo. Sinta a comédia internamente — e faça um semblante de gravidade, como se ouvisse algo só revelado a iniciados nos mistérios ocultos.

Parrudo

Para me tornar um indivíduo parrudo, minha compleição física deveria ser atarracada, aspecto este que só se manifesta, em mim, nas dimensões psicológicas.

Não tenho a bravura necessária para enfrentar o status quo da truculência reinante. A imbecilidade é um utensílio de ostentação e me recuso a participar deste banquete putrefato.

Ouso, às vezes, fazer pilhérias e simplificar a confusão urdida pelos embusteiros profissionais, mas logo sou tido como fraco ou tolo pelos sisudos de plantão. Gostaria de transmitir galhardia, firmeza, a força requerida para fazer frente às injustiças, mas é inútil tentar desmascarar os esquemas secularmente introjetados da subsistência.

Os trogloditas modernos mostram sua faceta rude ao menor sinal de ameaça às suas zonas de conforto letárgico. Qualquer discordância leve é convite ao combate e não existem argumentos que chamem à razão os contendores empedernidos.

Os parrudos comunicam-se por meio de grunhidos e um vocabulário raso, desconexo. Tentar estabelecer um diálogo inteligível com estúpidos indômitos é tarefa inconcebível, digna apenas dos grandes avatares.

Queria ser corajoso o bastante para vencer, mesmo sem ter razão ou merecimento. Mas falta-me o estômago forte para suportar os golpes baixos e os cardápios indigestos dos empulhadores.

Igualmente, seria necessário adotar uma postura altiva e desafiadora, todavia patino no fino gelo da desconfiança generalizada. Ao mesmo tempo, começo a confiar em mim... e percebo que isso, por si só, não basta para pertencer ao mundo.

Ser ridicularizado é minha sina, meu passaporte para mundos invisíveis e superiores. Navego com a âncora arrastando no fundo do mar e só retiro o escafandro carnal quando adormeço e desapareço por instantes.

Talvez, em túneis subterrâneos, eu perca meu refinamento inútil e seja apenas o ser que deseja e toma posse.

Guardei minha sabedoria em furnas inóspitas e esquecidas, donde um dia voltarei para resgatar a alma inolvidável, porém relegada.

Intrinsecamente, nunca consegui afastar-me de mim sem gritar de pavor ao vislumbrar o breu da solidão.

Não invejo tais bárbaros e sua colonização da mediocridade. Mas confesso: tenho receio de caminhar solitário.

Ao palmilhar a estrada, indaguei muitos sobre o itinerário e percebi que a maioria eram fantasmas esbarrando uns nos outros.

Quis ser sólido, impávido, inamovível, mas minha natureza é fluida.

Serpenteio pelo espaço. Brinco de fazer sentido entre as construções. Sempre achei esquisita a seriedade mórbida das sentinelas do mundo. Minha criança nunca quis entrar na cidade dos adultos, pois sempre rejeitou as obrigações.

Os deveres da alma me chamam. E são lições de sutileza.

Meu coração, ao menos, se mostra gentil. Sábio. Corajoso.

Faixa Preta

No mundo das artes marciais, o discípulo galga paulatinamente os degraus da perícia, até ascender ao grau de mestre. Cingir a faixa preta significa que superou os obstáculos, tornou-se disciplinado, alcançou o equilíbrio e agora é capaz de ensinar alguém, pois conhece os passos e as pedras do caminho.

O uniforme, com seus adereços próprios, é um símbolo que impõe respeito. Porém, essa tradição ancestral quase se esfacelou diante dos "mestres" da modernidade. O que vemos disseminado é a cultura vazia do rótulo, onde títulos pomposos e milhões de cópias poluem o horizonte, tornando difícil filtrar o que é genuíno.

Observamos uma falange de especialistas, consultores, aconselhadores, mentores e outros tantos epítetos, propagandeando sua expertise e toda a sorte de mensagens motivacionais extraídas de livros açucarados de autoajuda. Quando não imbuídos destas "boas" intenções, esses ciosos patrulheiros da verdade tecem comentários críticos sobre temas variados que simulam dominar, ou discursam mordazmente sobre pessoas e personalidades.

A primeira e falsa impressão sobre esses doutores é que sua fala está totalmente alinhada, sua visão está para além dos mortais e sua postura exala confiança suprema. Porém, ao observar com cautela e proximidade, vemos que são apenas atores canastrões, senão meros charlatões. E não adianta tentar expor tal farsa, pois as máscaras estão sedimentadas em seus moldes. Nem sob ameaça de morte desmontam suas personagens milimetricamente moldadas.

Existe um acordo tácito: um lado executa seus padrões e a outra ponta corrobora as ações, mesmo que ambos saibam que tudo não passa de uma mentira engenhosamente engendrada. Certamente há crédulos que acreditam no status alardeado por outros, em todos os âmbitos possíveis da existência. Seja na esfera profissional, religiosa ou dos assuntos aleatórios, sempre há uma autoridade inspirada que dita os preceitos norteadores para o populacho ignorante.

É assim que lhes apresento o perfil que cunhei carinhosamente de faixa-preta. Entretanto, há um tipo psicológico muito específico que tentarei delimitar. Trata-se dos profissionais que transitam no reino miraculoso dos recursos humanos, uma dimensão particular em que seres circulam entre a divindade e a boçalidade. De certo modo, eles se enquadram nas características citadas, mas com uma especificidade própria. Quando transmitem suas pérolas de sabedoria, ora o fazem com intenção de leveza, ora com a contundência própria dos convictos fanatizados e beligerantes.

A postura de profissionalismo não se sustenta e deixa entrever um lado tosco e inábil nos bastidores. A capacidade de teorização é assustadora, levando a abstração a níveis indecifráveis. Muitos desses são trabalhadores incansáveis, que precisam eclipsar suas tristezas para aparentar um equilíbrio eterno e bem atender seus clientes. Por conta desse esforço polarizado, acabam por somatizar uma miríade de doenças mentais e suas sequelas físicas.

Então, decidi chamar esse perfil de tarja-preta, pois essas pessoas são costumeiras consumidoras de medicamentos de receita controlada. O certo é que precisam desesperadamente controlar seus impulsos histéricos, maníacos, ansiógenos, depressivos, esquizoides, etc. Há que ter certa blindagem para nos proteger dos constantes ataques psíquicos e achaques por toda parte. Precisamos enxergar os doentes ao longo do percurso, sem, no entanto, nos contaminarmos com a horda dos desesperados.

Nossos cuidadores estão doentes e os orientadores de todos os matizes estão desorientados, mas ninguém "dá o braço a torcer". Enquanto isso, no mundo de concretude avassaladora, o fingimento continua incólume, enquanto tento encontrar brechas que libertem a luz genuína.

Magnânimo

Com seu dedo em riste e sua fonte inextinguível de saber, ele versava sobre os mais variegados assuntos dentro da vastidão do universo corporativo. Jamais se despia do seu personagem milimetricamente urdido ao longo dos evos e pretendia seu galardão por tais consultorias prestadas, com fins de enaltecer seu ego sobejamente inflado.

Tal era seu domínio sobre assuntos terrenos e metafísicos, que ele próprio respondia às suas próprias perguntas proativamente. Jactava-se até a exaustão por seus feitos, conhecimentos, experiências e dons divinos e divinatórios. Considerava-se uma sumidade em sua especialidade e o suprassumo dentre os profissionais da sua área.

Tinha reações orgásticas às próprias encenações e performances. Sua fala esgotava todo o léxico das possibilidades, bem como todos os clichês e jargões disponíveis no seu bojo de robustez inquebrantável. Seu olhar percuciente varria todos os escaninhos possíveis, com argúcia microscópica, todos os detalhes humanamente visíveis.

Quando cogitava remotamente que não houvera contemplado todas as nuances e cenários probabilísticos, entrava num estado de ansiedade superlativo. Admoestava-se por não ter descortinado todas as fronteiras visíveis e intangíveis. Na sua humilíssima opinião, conseguia prever toda uma miríade de eventos, assim como toda a psicologia de todos os seres humanos.

Talvez tivesse uma ligação de intimidade com a deidade e todo o panteão de divindades. Chegava ao ponto de tangibilizar o incognoscível e devassar o mundo quântico. Não havia, de fato, distância que sua sapiência não alcançasse ou mistério que sua mente não penetrasse. Ao trazer algum aconselhamento, conseguia transmitir a fonte de seu inexaurível saber de modo professoral, sem ao menos uma palavra sair dos lábios de seu interlocutor.

Tinha poderes sobrenaturais, de tal modo que não tinha senão a carcaça como resquício humano. Quiçá sua matéria fosse algo etéreo ou emanado para além da primeva substância. Formas-pensamento de brilho mirífico pairavam sobre sua fronte aureolada. Sua autoconfiança e assertividade figuravam qual instrumentos de domínio que exerciam um fascínio sobre o rebanho aparvalhado. Sua visão treinada perscrutava todas as blindagens humanas e seu ouvido apurado auscultava até mesmo as notas e nuances sutilíssimas de baixas vibrações.

Seu sopro de conhecimento tinha o poder de deixar angustiados e atônitos quem atravessasse seu caminho. Sua excelsa figura transmitia um halo de ser celestial planando em altas paragens e ofuscando a todos. E suas intenções, ainda que com roupagens diabólicas, dizia ele, eram apenas os frutos de uma intenção imaculada e benevolente.

Sua comunicação não era apenas a verborragia própria dos prolixos, mas sim uma explanação integral de todas as teorias humanas. Era deveras um contador nato de estórias, que assistiu à longa evolução terrestre e legislou sobre nossa primitiva espécie. Se fosse um animal, seria uma águia com visão macrocósmica das árvores e das florestas. Sua presença era imponente e impunha respeito àqueles que estavam num patamar abissalmente menor que o seu.

Oh, que indescritível ente, andando entre nós mortais. Tive a oportunidade da dádiva de sua inolvidável e singular personalidade. Era assim como este ser humano se percebia. O que aprendi com o beneplácito de suas pérolas? Talvez vocês estejam se perguntando se ele era assim mesmo. E eu posso simplesmente dizer: — Só que não, só que não...

Canalizadores do engodo

Invejo muitos seres que dizem ter estabelecido algum tipo de comunicação com quem quer que seja. No dia a dia tumultuado, parece ser impossível tecer algum comentário prolongado, pois as atividades desviam a atenção e requerem a troca esvaziada dos monólogos.

Cada situação mundana impede que saiamos do script programado ou que o texto tome direções inusitadas no horizonte do caos.

Admiro principalmente aqueles que, em determinado momento da vida, receberam alguma revelação: seja de extraterrestres, entidades espirituais, entes trevosos, elementais da natureza, divindades angelicais ou do próprio Deus em pessoa.

Fico espantado com tais habilidades e sensibilidades, quando eu próprio mal tenho a capacidade de pisar corretamente o chão da realidade. Talvez tenha ficado petrificado, e as coisas etéreas, qual brisa suave, não despertem mais minha consciência nublada.

Como são maravilhosas essas pessoas que querem compartilhar uma migalha dos excelsos conhecimentos adquiridos num repente de inspiração! Estamos num mundo de eleitos e seres mui especiais.

Basta olhar o descalabro que assola as paisagens tangíveis ou psíquicas para verificar que foram destinadas para este orbe uma plêiade de almas elevadas. Mas só consigo falar com tais figuras notórias com hora marcada e sobre temas que elas consentem gentilmente em arranhar a superfície.

Seria muita honra, deveras, obter a sinceridade num rompante de objetividade, bem como a glória de buscar a profundidade em meio às inquietações da dúvida angustiante.

É raro encontrar o interlocutor junto ao ensejo de entabular a conversa. O ambiente de quietude que agora me encontro não impede que um tremor domine meu corpo na ansiedade do inefável.

Não entendo esse desejo louco por ser entendido. Não compreendo minha sanha de buscar o discernimento. Tenho precárias ferramentas para captar a realidade e também me cansei de toda a metafísica onde se refugiam todos os perdidos que se julgam sábios.

De fato, não estou em paz comigo e vivo em guerra contra a estupidez que me rodeia. A feiura é algo concreto que pesa em minhas retinas fatigadas e a tolice fere meus tímpanos.

Reiteradamente, ocupo a cadeira de réu no tribunal dos estultos que tentam me admoestar ou aplicar o receituário de uma sabedoria capciosa.

Estou um pouco mais seguro quanto a mim na miraculosa trajetória que enceto, porém estou só. Talvez precise buscar a solitude onde me compraza com minha eterna companhia.

Sei que ando entre fantasmas falastrões e me esforço para não ouvir os conselhos idiotas que alardeiam. Enfim, não confio nem nos vivos, nem nos mortos. Estou num limbo, chafurdando no charco humano.

Vendilhões e Mendigos

O velho mundo, repaginado, continua sendo um lugar inóspito à inteligência, um cenário onde se acotovelam, em núcleos bizarros de convivência, bilhões de seres que louvam a demoníaca pseudociência, o brilho lancinante da hipocrisia, o efêmero entorpecimento, o satírico senso comum, os périplos do autoengano e a especialização vaidosa na superficialidade.

Vemos o comércio dos embusteiros proliferando por todos os quadrantes da existência, ostensivo, desavergonhado, ubíquo. Afinal, são inúmeros desesperados mendigando sua parca ração de subsistência e digladiando-se por um espaço nos redutos ilusórios da prosperidade.

Há milênios, nada mudou que não as vestes ou a configuração propícia para ampliar os celeiros humanos da decadência.

Aqueles que conquistaram um lugar no mercado de trabalho tupiniquim se esmeram em labutar o mínimo possível, para não sacrificar suas esparsas e raras sinapses cerebrais. A miserável situação de inúmeras instituições e empresas é de cortar as fibras dos atrofiados corações, tamanha a desorganização inaudita e a preguiça patológica.

Ver a linha da mediocridade seria quase uma felicidade imerecida, pois encontrar quem tenha atingido esse píncaro de saber é uma dádiva rara entre as torpezas incessantes da rotina.

Quem, por acaso, não logrou êxito ao arrumar sua cama na zona de ociosidade, está fadado a perambular desesperadamente em busca de subsistência.

A venda pura e a assistência são os artifícios naturais que constituem os intercâmbios, assim como as relações de poder e mesquinharia. Inúmeras são as formas de manipulação, engodo e chateação utilizadas para amealhar as cédulas de valor e influência.

O conhecimento, agora profundamente prostituído, tornou-se moeda emporcalhada de especulações vãs.

Ao deter meu olhar embaciado sobre o horizonte urbano, vejo os mesmos corpos esquálidos de sabedoria apenas lutando para se manterem provisoriamente eretos. O inconveniente de caminhar se desviando do séquito de seres rudes e parvos. A solidão ancestral no seio da massa atordoada. A ausência de gentileza em situações de carência extrema.

Também queria discorrer sobre a infindável fila de pedintes em cada esquina, mas meu cansaço é força plúmbea — que me chumba ao chão de ferro retorcido.

Afinal, por que lutar, se somos compelidos a andar sobre linhas tortas?

Todos que ousam pensar têm o cérebro esmigalhado pelos outorgadores da estupidez.

Sei que o desespero move muitos, mas não consigo desviar a atenção da assustadora proliferação da vagabundagem e da imbecilidade.

O cenário está abarrotado de vendilhões e mendigos.

Fingindo demência

Um dos ensinamentos mais profícuos já ofertados em meu penoso ofício diário é a arte de emular desentendimento, o famoso fingimento da demência. Notei que tal técnica, aparentemente de fácil aprendizado, é executada com perfeição por aqueles que carregam traços desta mesma patologia causada por reiteradas saraivadas de pensamentos estúpidos.

Creio que não estou me saindo bem nestas tentativas, pois a burrice ou a inteligência são descobertas mesmo que ocultadas com maestria. Ofertar muita sinceridade para os malandros é atitude ingênua, pois abusam da bondade, bem como pode soar como um mistério tal postura.

Novamente, volto ao mesmo conflito da acessibilidade, do alimento ofertado já mastigado, do peixe já fisgado e preparado. O altruísmo deve ser dosado e as manifestações de ajuda destinadas apenas com prudência, parcimônia e critério.

O que dizer daqueles cuja profissão consiste neste suporte psicológico vilipendiado? Muitos agem de má fé ou iludidos ingenuamente, mas o que vale é a boa intenção (desculpem o clichê) no final das contas.

Sinto a necessidade premente de moldar meu espírito e vigiar minha conduta, pois acabo caindo em armadilhas diárias, qual um pássaro que perde provisoriamente o poder de voar por isto.

A cada dia cresce meu desejo de diminuir a quantidade de minhas palavras faladas. A coação quotidiana para falar, agir e pensar é ininterrupta e quem não participa tácita e atavicamente é descoberto.

Participação e atuação, apenas serão válidas se houver um propósito mediante desafio íntimo. Enxergar toda a falsidade das paragens belas e do caos feio criado pelo ser humano é a saída para a porta interna negligenciada.

Talvez a multiplicidade de estímulos sejam distrações advindas de uma urdidura proposital. A atividade de manter um pensamento é de extrema dificuldade, fruto da repetição traumática ou da disciplina consciente. Deliberar um caminho é imperioso, mesmo que entre as encruzilhadas na treva densa.

Quanto aos que fingem que não são capazes, enganam a si mesmos. Não posso realmente influenciar os bastidores, onde perambulam os estúpidos influenciadores, nem sou capaz de representar a estupidez. Nunca logrei êxito nesta empreitada.

Minha motivação não deve ser a do prisioneiro, nem da vítima. Meu itinerário é no meio destes desencontros, buscando me encontrar sempre e nunca me abandonar. O prazer da viagem curta neste carro novo, o horizonte que se descortina lentamente.

Tentarei não sofrer ou me irritar com os que atuam a comédia da demência, mas vale rir discretamente ante o divino que se traveste de patética figura.


12

Caminhos de voltar

Há momentos em que não resta escolha senão voltar.

Voltar sobre os próprios passos, reaprender as margens, encarar o rastro que deixamos no mundo e, sobretudo, em nós. Voltar não como retrocesso, mas como necessidade de reescrever — ou, pelo menos, entender o que foi rabiscado com pressa, medo ou conveniência.

É preciso reaprender a conviver com o inacabado.

Com aquilo que não performou bem, que não produziu resultados, que não deu like. Com o desconforto de saber-se descontente e, ainda assim, escolher permanecer vivo. Os ciclos se repetem. Mas há ciclos que só se encerram quando reconhecemos que alguns retornos também são começos.

Este capitulo contém crônicas sobre esse retorno.

Um retorno que passa por ironias cotidianas, absurdos travestidos de normalidade, e pela lucidez triste de quem observa o mundo tentando parecer funcional demais. Um retorno que não busca aplauso nem conclusão, apenas um ponto de respiração.

Talvez a vida seja isso: uma obra inacabada onde o espanto e a beleza dividem o mesmo parágrafo.

E escrever, mesmo que com raiva, ironia ou desencanto, seja o nosso jeito de admirar essa obra, ainda que em pedaços.

Seja bem-vindo ao espelho abissal. Ele pode doer, mas também ilumina.

Tive mesmo que retornar

Trilhar o caminho de volta

Recapitular

Quem fui e quem sou

Quem eu quero ser

Conviver com o incômodo do eterno

Mas com a necessidade de fechar

E os ciclos se repetem

Mas é preciso terminar

Dar termo

O inacabado atormenta

Busca uma perfeição

Um contentamento

Mas sou eternamente

Descontente

Do começo ao fim

Olhei e me espantei

Com as peripécias que vivi

Pensamentos que acalentei

O que sabia e que hoje sei

E quero admirar a obra

Mesmo em suas partes

A vida é essa coleção

De beleza e assombro

Que só resta viver

Latente

Vestir-me-ia de poesia, após romper meu invólucro de ilusão, mesmo sendo ambas as roupagens frutos do meu arbítrio. Júbilo ou sofrimento, são decisões tomadas no foro íntimo, num átimo. Nunca houve um espaço verdadeiramente externo: sempre convivi com minha perpétua companhia.

Não sei em que ponto me abandonei, mas sei que o fiz em busca da centelha herdada de um amor puro, no afã do retorno. Ao transpor o limiar do cansaço, ignoro o que restou de mim. Quiçá a sorte surja após um lapso de distração.

Senti germinar um sentimento implacável, a construção de um recôndito inexpugnável, a certeza inquebrantável de nunca mais aceitar menos que o melhor. A colheita é inexorável. Algumas sementes cairão em solo estéril, mas outras vingam esperançosamente na fertilidade de algum rincão.

Cruzei o caminho de fantasmas travestidos de autenticidade. A incongruência se revelava nos olhares cristalinos, enquanto os cérebros anestesiados nada enxergavam das linhas que tracei com sutileza. O mistério repousava na auto-evidência, enquanto a mentira se protegia ferozmente.

A voz já não podia calar, estrangulada pelo império das falácias. Comprimido pelo antagonismo, deixava escapar sentenças singelas, mas era visto com estranheza pelos que se locupletavam de certezas barulhentas. Calei o ímpeto de escrever, mas o vulcão quer extravasar. Achei que traria palavras de otimismo como prenúncio de um reinício.

Trago a fúria e a frieza, sorvo o amargor das entranhas. Achei que me ouviriam, mas foi grande o autoengano. Apenas eu posso me realizar. Aceito o destino sem medo. Temo apenas não ouvir os caminhos ditados pelo meu coração.

Periferias sombrias do além

Repentina e sorrateiramente, um sono estranho se apodera da minha mente e deixa meus pensamentos lentos e embaralhados. Donde provirá tal estado pernicioso? Acredito que a mudança brusca tenha origem incógnita, difusa, estrangeira, trafegando no espaço das oportunidades. Assim como as sensações boas, o nefasto flutua, sendo acolhido por todos os que o recebem desatentos. Tudo que é visível é emanação de fontes invisíveis.

Na pausa e nos silêncios, percebo melhor a corrente das energias que desprezamos. A maravilha dos elementos tocados e transformados escapa à nossa atenção, nem notamos os fenômenos que dançam por detrás de suas cortinas sigilosas. A cada olhar mais atento, entendemos um pouco mais sobre os mecanismos que fazem o mundo acontecer. Sustentamos farsas e temos medo de que desabem.

Abandono momentaneamente as preocupações, os medos e toda a cautela das informações prévias. Um vácuo me inunda e divago por paragens nebulosas. Uma força tirânica parece relutar em ceder sua supremacia, forçando-me a retornar aos seus domínios de ilusão. Percebo. Tento me desvencilhar das correntes viciadas dos sentidos mundanos. Reconheço que já peguei esse trem e muitas vezes fui o passageiro incomodado e desagradável.

Meus pensamentos, que desfilam num cortejo tragicômico, são a porta para o futuro. A forma como encarei os acontecimentos selou meu destino e continua a moldá-lo. Não me deixarei influenciar por essas sensações ou eflúvios deletérios. Tudo depende dos próximos movimentos no tabuleiro na observação e no ato. Adversários invisíveis não podem me derrotar. Vadeio em domínios outros de aparente profundidade e em mim descubro horizontes ainda não descortinados. Não há nada a perder nestas terras de ilusões constantes, pois já estou perdido há tempos. Não possuo nada. Estou me dissolvendo. Quero ver o que vai sobrar no fim da estrada, se sonho ou algo semelhante aos estímulos caóticos que me atingem. Algumas coisas insistem em ter nexo, mas desconfio dessas imposições. Não quero o que se aproxima. Busco o que foge, com os braços estendidos.

No mundo dos extrovertidos

Toda a minha aflição deriva do antagonismo voraz entre minha introversão inescapável e os apelos insistentes da extroversão mundana. Persigo um equilíbrio, mas sei que preciso viver o pragmatismo atordoante da chamada realidade.

Entendo que a vida é feita pelos operários que constroem essa “roda de rato” incessante. Mas esta sociedade não foi feita para os que se introjetam — nem para os que desprezam as luzes alucinantes que prendem a atenção das mariposas desorientadas.

Gostaria de encontrar uma fórmula que me ensinasse a suportar essa minha inata condição de mergulhar em profundezas íntimas. No mais, tudo é confuso e embaralhado, entre as coleções que joguei para dentro da minha caixa craniana.

As polaridades me angustiam. Meu lado dual não me traz paz. As dimensões que dizem existir me impedem de viver adequadamente em qualquer uma delas.

Tenho um pé no mundo enganador dos vivos e outro num território mágico e indefinido.

Vou descartando partes exógenas acumuladas ao longo da existência e, aos poucos, me desfragmento.

Busco a sobra de mim. Um resto ao qual possa me apegar. Uma partícula particular.

Extremamente influenciável e limitado, não sei precisar a origem de minhas escolhas.

Circunscrito à finitude e aos lapsos de tempo, aproveito alguns momentos. Na espreita de mim mesmo, prossigo, para cobrar a soberania dos meus atos.

Quero andar às margens. Ou me perder na multidão, anônimo. Sequioso por algum contato tangível. Por algo que possa comprazer minha alma escondida.

Imorredoura certeza

Inúmeras vezes, as perguntas feitas não são realmente dúvidas, mas mecanismos para permanecer sedimentado na ignorância ou para mascarar aquilo que é já conhecido, mesmo que intuitivamente.

Podemos perceber isso com nitidez quando somos membros de determinados grupos de aprendizado, em diversas situações e âmbitos. Nas esferas de cunho profissional, acadêmico ou religioso/exotérico, os neófitos se esforçam, no afã de elaborar questões “pertinentes”. Sabemos imediatamente quando se trata de um questionamento legítimo ou de indagações feitas ao léu, sem real interesse.

A verdadeira angústia daquele que formula suas perquirições com ponderação raramente encontra o ensejo de dispará-las ou alguém qualificado para responder seus anseios cognitivos.

Sou um caçador de entrelinhas, já que quase todo o mundo está confuso com a multidão de informações que flutua ou esbarra vertiginosamente em nossa fronte. A dúvida emana de lugares distantes e tenta nos invadir, enquanto as diminutas certezas se instalam na morada segura do nosso íntimo.

Muitos procuram a oportunidade de semear a desconfiança e a incerteza, investindo-se do direito de vaticinar nosso futuro, pois são os experts da malícia. Comumente, essas pessoas “bem-intencionadas” nos alertam acerca do perigo e da maldade, disseminando sua pseudo-sabedoria proveniente de “vasta” experiência mundana. Eternas dúvidas, plantadas naqueles vasos receptivos.

O costume de estar indeciso e de se eximir do conhecimento é o conforto dos ignorantes e acomodados, o simples exercício de dizer: “Eu não sei”.

O automatismo das inquirições despropositadas, desfocadas do pensar e do sentir; as algemas que limitam nosso saber; o olhar enviesado nas nuvens que nublam o conhecimento e nos mergulha em eternas dúvidas.

Notas egoístas de rodapé

Talvez possam me questionar acerca das minhas vagas abstrações, ambiguidades inúmeras, falta de exemplos noticiados e quase nenhuma citação ou referência a outros autores (não me considero um autor, mas talvez um excretor).

Peço desculpas, mas minha memória é fraquíssima, principalmente para lembrar detalhes sórdidos ou porcarias transformadas em ciência. Sei que minhas ideias errantes não encontram a concretude dos portos seguros, sobretudo por não trazer à tona nenhuma sentença definitiva e atemporal.

Simplesmente não me importo com essas críticas, se não vierem de fonte respeitável. Existem aqueles que enfeitam seus escritos com milhares de citações, forçando o leitor ao poder da onisciência, mas não leram ou entenderam as obras “lidas”. Claro que há eruditos vaidosos ou não, como também pseudo-intelectuais apoiados em bengalas quebradiças ou maciças.

Persigno-me diante das ferinas línguas, se não situo minha obra cronológica e historicamente, pois lamento ter nascido em uma época tão decadente. Escuso-me de circunscrever meus textos a alguns temas estritos a ponto de estrangular meu pensamento. Tento falar sobre o que eu penso* e, se por acaso não entenderam o que eu disse...

*Para maiores referências, leia algum livro que não contenha mensagens açucaradas ou que não seja best-seller brasileiro. É exatamente isso o que vocês estão imaginando.

Autodidata por fatalidade

A inspiração verdadeira forçosamente ocorre durante a produção incessante, pois o fruto da inércia nasce eventualmente para nos fazer movimentar nossas pás de moinho. Obviamente existem momentos de insight, porém não antes de esquentar muito nossa massa encefálica.

Ao gritar "Eureka!", a maioria dos brasileiros chega à constatação de que esqueceu seu cérebro na gaveta abaixo da televisão. Após lerem de relance uma nota em algum site de fofocas, chegam a uma conclusão transcendental e a um parecer definitivo sobre as questões mais abrangentes e inquietantes do pensamento humano universal. Isso, quando não folheiam algumas páginas de um livro de autoajuda tão superficial quanto um pires de leite para um leão faminto.

Sempre têm opinião formada sobre todos os assuntos (mesmo aqueles que desconhecem) e são tão versados em todas as matérias que não conseguem dizer: "não sei" ou "nunca pensei sobre isso". Não nos aproximamos de nenhuma verdade sem algum esforço; o conforto da ignorância é o véu que usamos para tapar nossos olhos diante da imensidão. Abriram os portões da bestialidade e quase todos meus compatriotas entraram esfaimados por sorver da fonte inesgotável da imbecilidade.

Sem nenhum direcionamento, consegui a muito custo peneirar algumas referências, para entrever uma fímbria de luz por entre a brecha apertada do conhecimento, mas só recentemente. Se aprendi, foi sem perceber. Lamento ter sido doutrinado por profetas incultos e obtusos, mas desfiz a fascinação doentia de seus talismãs e agora tento pensar por mim.

De forma atávica vejo renascer o instinto de seres subjugados pela força exploratória, que não exercitam a musculatura do intelecto para sair da sua vexatória situação. A indústria do pensamento não prosperou por aqui e compramos a prazo, em suaves prestações, as obviedades que desde tempos pré-históricos vicejam por toda parte.

Desaprendizagem constante

Por vezes, parece que não importa ser uma pessoa obtusa ou instruída, pois o fator determinante independe do grau intelectivo. Imbecis e astutos conquistam seu quinhão da recompensa mundana, sem haver sequer um aspecto mental imprescindível.

Também não vejo indício de que agir conforme seus próprios valores ou códigos morais universais seja garantia de êxito nos empreendimentos humanos. Agir de forma bondosa e evitar a maldade no cotidiano esmagador, igualmente, não decide nossa sorte nesta loteria incompreensível.

Caminhar segundo princípios e leis imutáveis não garante que o resultado seja atingido. Ter um foco bem delineado parece uma coerção de forças que desconhecemos ou a manipulação da vida, cujo conceito é tão ininteligível quanto as abstrações acerca do amor.

O esforço e a vontade não foram suficientes para me encaminhar nas trilhas do meu desejo. A paciência me tornou um ser introspectivo e desqualificado para a vitória e as celebrações externas.

Por fim, cheguei a uma impressão (não posso dizer que é uma conclusão) aterradora e cômica: possivelmente, deva ser imperiosa a conduta pautada na fé. Simplesmente, a ironia de que algo tão simples e misterioso seja o elemento que plasma a realidade, deixa em mim uma expressão embasbacada e desoladora.

Talvez eu teime em não aceitar essa possibilidade e esteja fadado ao fracasso eterno. Meu desejo de compreender coisas insondáveis aparenta tolice, ao contemplar os descalabros do mundo.

A partícula da crença, essa preguiçosa conduta, requer que eu não raciocine e pede que eu abandone os esteios do pensamento. Estou tão cansado de tentar discernir algo sem sentido, cujo conteúdo obscuro, misto de noções simplórias com inumeráveis sinônimos abstratos, deixa um vazio mental.

Terei que aderir ao movimento positivista e, se por acaso ou não, alcançar meus objetivos, reconhecerei que sou realmente um otário, ou certamente deveria ter sido desde longa data.

Fogo fátuo

Alguns fenômenos estranhos provenientes da morte material e sua lenta decomposição igualmente se aplicam aos eventos psíquicos, como a extinção da inteligência na face deste orbe azulado. O fogo que consome os gases transformadores é o purificador do fim da insistente presença de organismos desagradáveis.

Apenas alguns podem pressentir este acontecimento com sensibilidade fina e precisa. Quando os incultos presenciam cores miraculosas rasgando os céus, atribuem sua origem ao mistério insondável.

Quiçá um dia um fator extrínseco reinaugure a humanidade e separe a imensidão de joio do trigo vicejante. Nada há de miraculoso que não seja apenas o não percebido. Invisível é o essencial aos olhos obliterados.

Fomos forjados em meio às inúmeras restrições físico-intelectivas. Moldados para ruir, adornados para perecer, relembrados para esquecer. A combustão só ocorre quando há material disponível para que o intangível resulte na abrasão.

Fomos feitos para desaparecer. Se algo sobrar, será apenas a sombra das labaredas.

Pessoas adultas

Para mim, maturidade é condição própria dos frutos, inaplicável aos humanos. Não compreendo como alguém pode aferir essa tal maturação com um simples vislumbre. As primeiras impressões são terreno fértil para o olhar *"en passant",* doutrinado pelas imagens arquetípicas da superficialidade preguiçosa.

A encenação, composta por gestos leves, intransponibilidade psíquica, prontidão nas respostas e semblante de placidez sapiente, é a principal arma desses embusteiros gentis. O que é dito, sob a chancela de um vocabulário rebuscado, corrobora uma ideia fugidia, embalada numa objetividade sagaz (ou seria uma sagacidade objetiva?).

Testemunhamos a alquimia do adubo transmutado em "ouro de tolo", vendido ao preço de metal nobre do aconselhamento. Talvez a semente, que brota o fruto e a flor, tenha sua falibilidade inscrita já na própria queda e posterior apodrecimento.

Assim o ser humano deveria encarar suas limitações: sem parecer maduro por fora, mas estragado ou verde por dentro. A força da gravidade nos mantém presos à Terra para lidarmos com questões puramente materiais; nossa inteligência é apenas uma ferramenta, similar a uma enxada.

Ninguém descobre tesouros sem escavar a dura realidade e perscrutar os meandros dos rios subterrâneos. Devemos desconfiar daqueles que dizem possuir um mapa, ou agem com escárnio diante de quem aparentemente não o possui.

Aos otimistas de plantão

Uma angústia profunda corrói até minhas entranhas e deixa estampado em meus olhos alucinados a perplexidade típica daqueles que não chegaram à conclusão alguma sobre os inquilinos deste planeta. Divino animalizado ou um ser bestial propenso às síndromes das divindades — assim me vejo neste circo de horrores, onde sou criatura acorrentada.

Quem me dera ignorar o que já sei ou ter a capacidade cínica de construir constructos mentais que aliviem a realidade fria e cortante. Há quem saiba manter o semblante despreocupado, levar a vida com leveza, jovialidade e um ar de mistério. Eu, porém, não sei compactuar com a hipocrisia nem aceitar o convite gentil à humilhação disfarçada. Por isso, sou tratado com indiferença por perceber, com nitidez, a ignóbil farsa que nos envolve.

Gostaria de trazer boas notícias, mas meu jornal é escrito em preto e branco, sem letras garrafais. Queria discorrer longamente sobre futilidades, usando analogias vazias ou sinônimos vagos. Ah, se pudesse pertencer a algum círculo social ou sociedade secreta, para compartilhar artimanhas e segredos ocultos...

Pode parecer pessimismo o que relato de forma abstrata, mas não sei mais agir de outra forma. Se eu pudesse pastar tranquilamente entre as verdejantes ilusões descaradas, talvez repousasse. Dizem que minha tensão é visível — mas como podem enxergar a linha que, de tão esticada, tornou-se um filamento tênue?

Julgam que me atormenta o imediato, mas a raiz dessa árvore é imensa e já perfura o subterrâneo da humanidade. Como reagiriam se descobrissem que o edifício onde habitam possui falhas estruturais? Bem-vindos.

A força residual da lamentação

Pensamentos persistentes me acompanham como sombras semanais, ansiando por expressão através da palavra. Falam da sensação incômoda e contínua de estar certo.

Detesto caminhar entre equivocados, acordar desejando que alguém derrube minhas sentenças pensadas para o vislumbre geral. Sinto-me num palco previamente armado para o deleite de uma plateia oculta, que se diverte com os desafios impostos aos mortais.

Só me resta encarar esta odisseia, mas me falta o tempo do prazer. Escrever torna-se uma necessidade e, ao mesmo tempo, um empreendimento exaustivo, que afronta o império da mediocridade.

Não sei se há aprendizado possível além da descoberta do embuste. A rotina entorpece, e sinto-me gradativamente emburrecer à medida que perco contato com conversas edificantes e pessoas inteligentes. Parece que alguém, em algum rincão, deseja que eu perca o fragmento que me distingue.

O medo é o alimento preferido dos demônios e figuras robóticas que povoam o universo. Minha vontade de explicar desvanece como areia de ampulheta. Quem pede sinceridade, se até a menção dela fere? A raiva se estampa, mesmo sob sorrisos.

Termino reclamando, como velho vício ou doença degenerativa. Por fora, exibo o brilho da empatia; por dentro, torno-me impessoal, implacável e neutro. Sobrou um resíduo em mim que se importa, mas nada tem importância. Se eu der brecha, serei explorado pela multidão inebriada pela farsa. O silêncio das pausas me faz sentir culpado e obrigado a estar ocupado. Eis a prova da força residual da manipulação. Consinto que sou enganado, mas não controlo minhas reações. Não sei até quando suportarei as afrontas dos imbecis e suas respectivas análises de superfície.

O degredo

Desconheço como a lei da atração pode articular os mecanismos que dirigem a cada um os seus desejos particulares segundo suas visualizações positivas. Só noto as desgraças geradas pelas crenças negativas. Sempre há quem diga: “Não falei? Você atraiu isso com seus pensamentos”. Ao menos essa parte da lei parece funcionar...

Assusta-me a complexidade necessária para atender todas as vibrações humanas "sem falha alguma". Como um gênio da lâmpada, ela teria de cumprir todos os pedidos, ainda que saibamos das exceções. Seus defensores insistem numa fórmula, num modo exato de agir, numa corda intangível a ser tocada antes do sonho se concretizar.

A fábrica das teorias incríveis se aciona após incontáveis fracassos, movida pela teimosia. Alguém logra êxito imediato; outros, comem o pão amassado pelo diabo (quando esse é fabricado). Muitos terminam a jornada sob a foice da morte, abraçando o alívio final.

O segredo, talvez, seja como a piada que só faz sentido quando se aproxima da verdade e arranca cócegas. Os teóricos me deixam angústia; os viventes, dúvidas.

A balança estabilizada do absurdo

Sempre me perguntei sobre a justiça, já que seu extremo oposto é o que mais se manifesta nas trincheiras humanas. Se há um mecanismo que administra recompensas e punições de forma equânime, ele se oculta sob engrenagens que não compreendo. Existem leis imutáveis, mas aos olhos humanos vejo apenas contrassensos e ironias.

A dúvida grava na minha fronte o fogo da incerteza. Queria crer em mim mesmo sem me sentir um farsante. Talvez a paz resida em aceitar que certas verdades não podem ser tocadas. Desisto, aos poucos, dessa busca insana pela realidade, já que meus sentidos só alcançam fragmentos periféricos do mundo.

Só de escrever essas linhas fico zonzo. Fomos moldados para sermos ludibriados, para enxergar as luzes distorcidas através de um aquário turvo. Gostaria de ter um objetivo concreto, mas minha mira só atinge alvos estáticos e curtos.

Os mestres da autoajuda oferecem migalhas de obviedades, diluídas em mistério e tom professoral. Agem com um otimismo indiferente diante dos meus pedidos discretos por ajuda. Estou onde me coloquei: na solidão abissal. Talvez não importe no que acreditar, mas sim escolher aleatoriamente algo entre as peças de um brechó milenar de mau gosto.

Minha linguagem corporal deve acompanhar minhas crenças, para infundir nos observadores uma coerência ilusória. E assim sigo acreditando no mais venenoso dos remédios humanos: a esperança, que me torna frágil, melindroso e choroso.

Humilíssimo

Pergunto-me com frequência o que significa humildade, e desconfio que poucos a representam verdadeiramente. Pesquiso o termo e vejo a receptividade do aprendiz, mas onde estarão os professores, nesse mundo de embusteiros?

Há quem fale da bondade do coração; outros exaltam a resiliência diante das investidas malignas. Alguns dizem que humildes são os que não renegam suas origens, porém desconheço a minha, como um bastardo cósmico.

Muitos escondem suas qualidades achando que isso os torna humildes. Mas a falsa modéstia é, para mim, desprezível. Outros valorizam suas limitações para demonstrar resignação diante das provações. Há ainda os que cultivam a ignorância deliberadamente sob o disfarce da simplicidade.

Observo pessoas acabrunhadas: o último da fila, humilhado pelos pavões, fronte pensativa, expressão abobalhada — não por ignorância, mas por tédio de suportar os presunçosos. Os arrogantes julgam essa pessoa como inferior, mas não veem as cores ocultas de seu jardim interior.

Vontade tola de explicar

A multidão que pulula neste planeta só assimila duas probabilidades: o sim ou o não. São discípulos do maniqueísmo, assoberbados por questões binárias. O dualismo corrói a existência e essa angústia é parte inerente da condição humana.

Não falo da falta de rumo, nem dos processos mundanos nebulosos. Refiro-me ao enfrentamento de fatos cristalinos, esses que saltam aos olhos, impiedosos. Toda didática é inútil quando o ouvinte não quer ou não pode assimilar. Há quem prefira a ignorância dos motivos e se embruteça diante de quem ouse proferir “absurdos”.

Há uma revolta surda contra a sinceridade.

Não digo que sei distinguir o tangível. Apenas acompanho os fluxos e evito lutar contra os fatores imponderáveis ou implacáveis. Controlo de forma desajeitada minhas reações diante dos impactos sísmicos que atingem minha emoção instável e minha razão fragilizada.

Tolo é quem insiste em auxiliar ou explicar, sem que ninguém tenha solicitado tal missão. Busco uma objetividade inatingível, pois não há quem me escute neste mar de desencontros. Neste instante, talvez o melhor seja silenciar, último recurso ante o temporal que deságua, em forma de realidade, no cenário ilusório das exterioridades.

Insisto em tratar os outros como gostaria de ser tratado e sofro por estar deslocado em quase todos os lugares. A sinceridade é um ácido. Corrói os desacostumados com esse beneplácito.

Não consigo me calar. Minha sina é naufragar como um louco solitário. Talvez eu também não queira enxergar a autoevidência do saber e do não saber.

Acordos de leniência

Moro num recanto onde pululam os seres mais corruptos do cosmos. Nesta atmosfera, sou inevitavelmente contaminado pelos eflúvios psíquicos das patifarias intermináveis.

A conduta reta é tratada com escárnio pela soberania dos oportunistas. Quem silencia diante da malandragem cotidiana é, cedo ou tarde, achincalhado.

Dedurar pequenos deslizes é o método predileto dos desonestos para salvaguardar suas reputações. O medo, sempre o medo, é o principal recurso dos caguetas.

Hoje, os acordos de leniência estão em voga. Permitem aos bandidos abrandar suas punições, sob a aura do arrependimento teatral. A etimologia da palavra esconde sua mansidão falsa, um disfarce dos não-arrependidos.

Não há lenitivo para quem sofre. O bálsamo é reservado à corja profissional dos pilantras.

Quem ainda carrega alguma nobreza de espírito evita a acusação, evita vanglórias. Mas vive num mundo de valores invertidos, onde tudo que é digno foi rebaixado.

Não consigo firmar acordos com a burrice que viceja. Mas sou fraco para repelir a demagogia dos impostores. Pusilânime, sim.

Mas um dia... um dia terei o impulso legítimo de dizer tudo o que penso.

Blefando

Detestável e reconfortante é a certeza, quando percebemos a convicção dos oportunistas desprezíveis. Você brincava, outros flertavam seriamente com a sorte e as respectivas manobras realizadas com imperícia.

A divindade escreve nas superfícies que estão disponíveis. Eu tinha que ver que tudo está certo, sempre! O início sempre será uma dúvida, pois se fosse certeza estaria errado inexoravelmente. A incerteza acena e o coração confirma as intenções.

O blefe do jogador é visível para quem está atento, mas desmascará-lo é um perigo. O melhor é fingir ser perdedor. Há uma ética intrínseca que não permite o desvio. O erro é impor aos outros tal virtude.

O mundo está repleto de personagens, mas com poucas podemos interagir realmente. O resto é encenação, das mais toscas e evidentes. Alguns figurantes não são ouvidos, quando deveriam ser.

As sombras fazem parte da luz. Os holofotes evidenciam o foco e o diretor pensa nas artimanhas dos coadjuvantes. Os brilhos emanam das frestas. O jogo é de azar e a sorte às vezes está com você, mas não demonstre.

Estoicismo nos Bastidores

Afastados das fileiras que lutam nos campos de batalha, há um conglomerado de seres rancorosos que confabulam sobre o determinismo de uma divindade despótica. Desprezam as leis naturais (que até o momento não desabaram) e querem que a humanidade caótica se ajuste às normas que deliberaram.

Estão, de fato, apartados do viver coletivo e desejam evitar as agruras da vida, como se pudessem. Neste período dito moderno, muitos adentram os recintos com uma empáfia alarmante, querendo compreender de antemão todas as rotinas e procedimentos locais, como um estrangeiro que, em um único dia, deseja conhecer tudo sobre outra cultura.

Certamente, há uma vontade legítima de desafiar os aspectos estranhos que nos são impingidos, mas também há a arrogância que pretende alterar rotas inexoráveis. Os dissidentes dessa corrente contra-intelectual formam o gigantesco grupo dos fofoqueiros, absortos em conjecturas e fantasias sobre a vida alheia.

A labuta cognitiva desses se restringe à criação de imagens desordenadas, misturando elementos internos e externos à realidade, sem qualquer peneira para separar os conteúdos. Os estóicos dos bastidores podem até demonstrar bravura indômita, mas suas únicas armas são a imbecilidade inextinguível e a ausência de um espelho que reflita suas sombras de inação.

Atrás das cortinas, todos são gênios roteiristas ou exímios atores. Mas depois que somem as nuvens de fumaça, a covardia mostra a face macilenta dos desnutridos morais.

Catedráticos das Lorotas

Não consigo coadunar com todas as farsas que observo, desde as restrições da percepção até os convites descarados para enfeitar este filtro da realidade. Não me encontro habilitado para a vida ou para seguir os ditames de manipuladores cósmicos. Acompanho de longe muitos seres em posições de destaque momentâneo conduzindo grupos para o abismo do engano.

Fico irritado com o tom professoral adotado em assuntos que fogem ao nosso domínio, por meio de abstrações sem sentido e analogias que levam a lugar nenhum. O que era para ser uma propaganda, na verdade é a maquiagem das deformidades e do desejo de enganar. Presto atenção aos discursos que proliferam nos meios e só vejo a necessidade de sobrevivência, a custo das mentiras perpetuadas pelo pacto silencioso das falsificações. Devo calar ou gritar, ante essa potência enclausurada? Falar para quem ou por quê? Num mundo de bilhões de individualidades em busca de um lugar ao sol, comprimidas por cercas milenares, não vejo um projeto divino coerente. Ou esconderam a verdade sob camadas de ilusão, ou ela está tão evidente que sequer conseguimos enxergar sua claridade.

Procuro, ao longo do dia, migalhas de sinceridade e pequenas oportunidades para agir com legitimidade. São movimentos calculados, gestos ensaiados, palavras lapidadas e olhares desviados; clamam a estética pré-definida, as reações esperadas, as respostas agradáveis e o impacto do falso encanto. Os olhos denunciam os estados de alma de quem os deixa à deriva na contemplação do mundo. Por isso, o esmero em ocultar todas as informações que deflagrem a pureza do ser. Volto à minha inaptidão em ocultar quem sou, motivo do meu fracasso social. Talvez eu deva procurar me sentir confortável em atuar, ocultar, compactuar.

Lembro-me do episódio evocado nas escrituras, em que o diabo oferta o mundo em troca da servidão. Vários avatares aceitaram ser humilhados em algumas ocasiões e noutras, não curvaram os joelhos. Depreendo que, na intimidade, devemos ser incorruptíveis; na aparência, disputar uma partida do jogo da hipocrisia no campeonato das reencarnações. Queria ficar contente com as vitórias, mas a competição não termina e me canso fácil.

Vagões Superlotados da Humanidade

Se há alguma gestão divina a deliberar os rumos desta humanidade, então seus líderes são como os nossos, conspurcados até o fundo da alma. Penso que somos instrumentos de mudança uns dos outros, tanto no incômodo, como no apoio mútuo. Os mais aterrados à matéria talvez sejam os mais espiritualizados, pois não fogem às vicissitudes da existência. Porém, nenhuma parte é mais importante que a outra, nem a alma que se esconde, nem o corpo que grita. Temos que honrar a carne e o sopro que vivifica, mas o que vemos é o oposto.

Bilhões buscam sua própria sobrevivência em mecanismos desagradáveis: o oportunista barato, o vendedor inoportuno, o competidor despropositado, o espreitador de ínfimas vantagens, o desesperado pesquisador de saídas, o parasita energético, etc. Infelizmente, tenho que integrar este quadro aterrador, todavia o faço com desprendimento e sabendo que sou apenas uma engrenagem. Se preciso levantar minha espada ou mesmo decapitar os descerebrados ou perfurar as couraças dos corações endurecidos, realizo essas tarefas com a neutralidade necessária. Não sou eu que executo tais façanhas, é uma força extemporânea que pune os imbecis ou agracia os merecedores. Tais coisas são feitas sem o filtro do sentimento e sem o concurso do pensamento. Estes processos também ocorrem comigo, pois sou punido ou beneficiado por mim mesmo nas minhas rotinas de estupidez ou pragmatismo.

Portanto, sou legislador dos meus domínios, num arbítrio perpétuo e cíclico. A inteligência suprema já fez seu trabalho e deixou a herança da abundância. Não estamos abandonados. Se somos manipulados, isso acontece reciprocamente, sem o intercurso de observadores celestes. Talvez sejamos todos observados de longe com curiosidade, no assombro de nossas bizarrices e no encanto de nossa bondade. Não somos escravos, somos simples operários de manutenção. Aprimoramos a obra, com os adornos que escolhemos ou...

Sondas Espaciais

Os astrônomos cofiam suas barbas venerandas e apontam a expansão do universo como fenômeno inevitável e irreversível. Temo que a patifaria humana seja a responsável por lacear os esfíncteres cósmicos, saturados pela canalhice que prolifera cá nestas periferias galácticas.

O impulso imanente de sobreviver a todo custo, para perpetuar e ampliar seus domínios, é a marca desta raça cretina denominada humana. Possivelmente, somos frutos de uma divindade furiosa, dominadora e possessiva, cujos genes foram deixados como herança crudelíssima de um ser imperioso e belicoso.

Uma coisa é plausível: se o acaso é o pai da lenta evolução das espécies, certamente não vingaria tal classe de seres apelidada sarcasticamente de *sapiens*. O olhar da mole humana penetra as vastidões e se assombra com tal engenharia autorregulada e primorosa, mas estranhamente se congratula no pensamento de solidão ante as incontáveis estrelas.

Seria admissível sermos o único planeta habitado diante da vertiginosa paisagem de astros? Esquisito pensar nisso, quando parece que somos o reduto onde se concentram todos os párias dos quadrantes universais. Difícil crer que há alguém a olhar por nós e, se há tal gestão, nada pode fazer frente ao inexorável processo de autodestruição. Parece até que temos alguma relevância no quadro estratégico celestial, pois, se não fosse assim, já teríamos sido descartados como os dinossauros. Não consigo crer nem na aleatoriedade, nem no destino, tampouco nos estratagemas divinos.

O sentimento de estarmos abandonados na imensidão é tangível. Porém, acreditar em alguém a pastorear esse rebanho apavorado e arisco é de difícil digestão intelectual e infantilidade moral. A infalibilidade do arquiteto é questionável, mas o poder de equilibrar todas as coisas existentes é, no mínimo, colossal. Tais pensamentos me fatigam. Talvez a intenção seja alucinar nossos sentidos, para que nos detenhamos apenas em *viver*. Mas o plano inicial fracassou, visto nossa desobediência e nossa curiosidade. Certamente, não nos será permitido pegar atalhos nos túneis de minhoca, nem sermos tragados com elegância pelos buracos negros.

Baias para o Gado Humano

Teimo em colocar cercas entre as coisas, como se aquilo que meus olhos não apreendem fosse mero espaço vazio e intangível. De modo semelhante, tal qual uma brisa que apenas alerta sua passagem sutil, o invisível só se revela por seus efeitos. Dizem que o Criador também imprimiu sua marca na grandiosidade de tudo. Não podemos excluir o ser humano do rol das maravilhas, apenas por pensarmos que somos uma porcaria. Um artista talentoso não finalizaria sua grande obra com o toque da mediocridade.

Se as pessoas se apequenam ou se ajoelham, isso não evidencia arrogância ou superioridade daqueles que apenas se mantêm em pé. Com tantas fronteiras e posses em disputa, vemos claramente como o senso de separação habita o coração humano. Bastaria que buscássemos nosso espaço natural que é, paradoxalmente, não ter nenhum delimitado.

Se eu vivo uma grande alegria ou profundo pesar, isso é apenas experimentado por mim e talvez deságue no mar indivisível da unidade. Muitos pensadores propagam os efeitos nefastos do ambiente sobre o “frágil” indivíduo, mas “lá fora” não existe: há um prolongamento do que é considerado humano. Somos o centro pensante e pulsante, a consciência que extrapola os impulsos químicos do cérebro. Algo acontece aqui *dentro*, antes de ocorrer *lá fora*.

Por tudo isso, estou extremamente só e, ao mesmo tempo, ligado a tudo o mais, no ódio ou no amor. Não há distâncias: só o apego e a liberdade. Há o medo, que é apenas maldade. E há a coragem, que é a potência do que sou.

Quinquilharias

O brilho mirífico não era mero epifenômeno; a harmonia não se dava de modo extemporâneo, tampouco a paz configurava um simples sucedâneo. Todos esses sintomas eclodiam de recônditos negligenciados, muito timidamente, mas com força imperativa. O labirinto que o conduziu às trevas era composto de edifícios titânicos, erigidos sob a lógica possessiva e tirânica. O raciocínio não queria descer de seu trono, ainda que não se sentisse feliz. Viu-se preso em si mesmo, nas circunvoluções de um cérebro atordoado. Não sabia mais o que pensar, nem lograva cessar o fluxo do pensar. Quis se livrar daquele incômodo insistente, a obsessão de pensamentos malsãos e paralisantes. A fronteira à qual chegara, colidindo com seus portões, não havia sido atingida pelos pés, mas nas cercanias de sua mente. Sempre esteve lá, teimosamente. Começava a divisar as fímbrias de uma pálida luz, obliterada por placas endurecidas de certezas obsoletas.

Contudo, também não conseguia se mover. Desaprendera a caminhar por si. Percebeu que retornar seria doloroso e mal sabia como proceder nessa empreitada necessária. Entendeu, então, que o primeiro passo seria sentir-se minimamente confortável dentro de si mesmo. Estava saturado de inutilidades filosóficas e de empecilhos intelectuais. Almejou, com todo o seu ser, retornar à singeleza e direcionar o foco para aquilo que denotasse importância íntima. Estava perdido, porém agora ciente de seu estado periclitante. Já não tinha ânimo para se imiscuir em assuntos fora de sua alçada humana. Um turbilhão de pensamentos exigia a supremacia de uma autonomia artificialmente engendrada e retroalimentada. Admitiu que, naquele momento da existência, não era senhor de si. Sentiu, com nitidez, suas limitações, e não soube como proceder ante a dor pungente e recorrente. Ignorar o impasse já não era possível. Negar a necessidade premente de alguma modificação tampouco. A angústia lhe estrangulava a garganta e dificultava a ânsia de choro, inutilmente represada. Precisava, antes de tudo, despir-se das vestes que usara de má vontade ou por escolha própria. Sentia-se pesado, imundo, falso e só. Estava consigo, por mais que se desprezasse. E foi então que ouviu uma risada soturna, proveniente do masoquismo de seu próprio sofrimento abismal...

Retórica fantasmagórica

O surgimento exponencial de palestrantes que discorrem sobre temas cósmicos quase possui um efeito cômico, não fosse a carência de bilhões por explicações mágicas. Ninguém até hoje comprovou cabalmente a presença intangível do espírito; ainda assim, muitos "doutores" exploram o abstrato com tanta convicção que me sinto um tapado por não enxergar o invisível.

Carrego apenas uma sensação incômoda de que há um centro inteligente além do cérebro ditador e inflexível. Se a consciência é um epifenômeno e a fonte de tudo, estamos entorpecidos pelo império dos sentidos grosseiros.

Se há algo "além", fomos moldados para jamais alcançá-lo, condenados à experiência das cercas triviais.

Compelidos a lidar com a sobrevivência em meio à barbárie, seguimos iludidos por simulacros de sabedoria oriundos de seres atordoados.

Respeito os que trazem desconfianças, não conselhos. Não tenho vocação para tons professorais ou ares de vendedor, pois me envergonharia. Talvez erguer paredes fosse uma boa profissão, se eu não desejasse destruí-las junto dos conhecimentos toscos.

Gosto dos piadistas que arrancam do cotidiano exemplos de nossa existência patética travestida de sisudez. Em meio a tantas ciências, ainda não explorei a arte de me encarar.

No silêncio da noite, uma sombra me assola: sou eu mesmo, de quem fujo por covardia de abandonar os farrapos remendados que chamo de individualidade.

O Novo Normal sob a Linha da Mediocridade

Belos tempos em que a mediocridade ainda era um patamar almejado, pois refletia um equilíbrio satisfatório dentro da balança do cotidiano. Todavia, não carrego mais o fardo da esperança quanto ao regresso à normalidade, na esfera conturbada do social com todos os seus matizes de verniz. Acredito, sim, no esforço do indivíduo enquanto centelha da singularidade, quase apagada, que traz dentro de si. O que poderá acender novamente essa chama que faz da personalidade uma força e traz à tona traços de beleza vivificadora?

Não quero voltar ao normal jamais. Isso sequer seria possível. Quando as pessoas regressarem ao que consideram o “novo normal”, não desejo mais estar lá. O cenário será mais difícil, certamente, também por conta dos jogadores que estarão transformados. As regras estatuídas serão outras, e não quero competir nesse novo mundo que será convencionado por tiranos. O novo normal estará mergulhado numa piscina de hipocrisia e pusilanimidade.

Não, obrigado! Deixe-me na minha quarentena, refletindo sobre o que é essencial e verdadeiro. O “politicamente correto” me parece agora muito mais enfadonho que antes. Quem sobe agora ao palanque está repleto de opiniões, e aqueles que propalam virtualmente um saber extemporâneo não souberam colher o saber maduro da árvore do conhecimento. Não posso me fiar nas palavras dos autointitulados, tampouco no ódio dos ressentidos. Tentarei preservar a serenidade frente à manada desesperada e me esquivar das investidas maliciosas “daqueles que querem o nosso bem”. Não quero acreditar que isso tudo que estamos vivendo seja normal, pois não é.

A arte milenar de desaparecer

Quando olhei para dentro de mim, só consegui enxergar um mar de tristeza desaguando num vácuo de desimportância e placidez. Do meu coração emanava apenas o desejo de desvanecer e o anseio da solidão, embora de angustiante presença.

Então pensei em tudo que não quero mais para mim e comecei o trabalho árduo de eliminar tais coisas. Imaginei, a princípio, objetos — mas, aos poucos, pensei em hábitos e pessoas. Percebi, sobretudo, que ainda estou cheio de fantasmas que me habitam, e o medo de mandá-los embora.

Paulatinamente, sei que devo iniciar o trabalho do desapego, para deixar apenas o importante dentro da mochila. Antes mesmo de criar ou começar algo, preciso encontrar espaço para edificar meus projetos. É preciso preparar o campo, pois fui um jardineiro muito desleixado.

Quiçá eu consiga vicejar quando a limpeza cessar e fertilizar os campos de possibilidades. Talvez algo além da dor e do ódio possa brotar dos recônditos preservados pela delicadeza.

Aquele que estava sempre muito disponível agora só consegue ser acessado sem a espontaneidade de antes. Continua o mesmo? Provavelmente. Mas uma casca blindou o seu ser contra as investidas do egoísmo e da hipocrisia. Enfim, já não se importa com mais nada — ou, ao menos, questiona a importância de tudo. O que permanecerá incólume ao fim?

Mouco

As estatísticas apontam que a depressão e a ansiedade são fatores que estão tornando o mundo um grande hospital, para não dizer manicômio. Porém, tenho uma hipótese um tanto quanto inusitada e aterradora: por detrás da angústia primordial, eclipsada por sensações inefáveis, se esconde a incapacidade de ouvir.

Sei que a linguagem precede certas instâncias da percepção, no entanto os surdos estão ceifando o que nos resta de humanidade. A incapacidade de ouvir é a ruína deste mundo, construído obviamente por aqueles que escutaram os sinais. Neste sentido, os sinais deste tempo apontam para seres presunçosos ao extremo, que mal ouvem as primeiras sílabas e logo descarregam uma longa lista de prognósticos e vaticínios sobre a cabeça do tímido interlocutor.

Aquele que pondera se equilibra acima de uma fina linha suspensa, enquanto é alvejado por um turbilhão de certezas pungentes e fugazes. Creio que o mais importante é a consideração pelo o que é dito após nossa percepção imediata. Ver o que é aparente, ouvir o explícito, sentir o imediato, são manifestações irrecusáveis da fenomenologia que nos cerca.

O desejo de se fazer ouvido não pode ser imperioso, pois pode afetar a sinceridade e a empatia primordiais. O poder traz em si a vergonha de demonstrar interesse pelo outro e, consequentemente, gera um desprezo pela alteridade. A capacidade de ouvir, além de ser uma habilidade, depende em muito da vontade. Realmente, defendo esta tese.

A escuta compreensiva é uma decisão. Muitos só carregam consigo a indiferença e o desinteresse como bagagens de vida. Noto uma multidão que apenas quer contar histórias para justificar sua miserável existência na face deste planeta. Por tudo isso, estou perdendo os últimos resquícios do desejo de falar.

Às vezes, vejo como todo este meu esforço é inútil. Mal consigo balbuciar e sinto um desespero ao ter que ficar ouvindo aqueles que não sabem calar. Talvez precise aprender também a não dar ouvidos. A sobrevivência, por vezes, depende da obrigatoriedade de engolir a seco o discurso infindável dos megalomaníacos. Os seres costumam subir em pedestais para falar com vermes e se sentem como entidades celestiais.

Quando o falar emerge da experiência direta, não necessita de longas explanações. Ah, como é preciosa a capacidade de síntese. Aliar tal essência à autêntica comunhão de ideias é uma meta a perseguir. Entender é um querer que emana de nós, e não um atributo da inteligência. Sem tal motivação, nem toda a complexidade cognitiva consegue compilar respostas satisfatórias.

Silenciar o diálogo interno é calar toda uma falange de vozes alheias que invade seus domínios. Tento extrair algo de valioso do que é dito, qual minerador insistente que procura pepitas em meio ao cascalho e à lama. Aliás, tento escrever enquanto encontro brechas dentro das palestras que enaltecem os próprios feitos quase à exaustão.

Por isso, minha escrita é tão caótica. Torço para que algo se aproveite dentre as muitas tolices que expresso. Mas é inegável que algo de genuíno tenta emergir, e procuro falar sobre isto. Provável que eu tenha falado sozinho durante muito tempo, por conta da minha necessidade doentia de me exprimir. Tenho a impressão que eu sou apenas um fantasma, cujos murmúrios são remotamente percebidos pelas pessoas.

O minerador insistente

Minha sina é a da eterna convivência: o fluxo incessante de acontecimentos dentro deste quarto solitário.

Perguntar-me o que há “lá fora” é questão inútil, a menos que seja para despertar a imaginação, carcereira ou livre.

Somos surpreendidos com o corte do cordão umbilical, mas antes disso não vemos senão limites e impossibilidades.

Somos filhotes, criaturas, entes, sombras... miríades de imagens bruxuleantes projetadas fora da caverna. Pelas janelas dos olhos, só uma parcela da luz atravessa o filtro dos nossos vislumbres.

A brisa bate na pele e nos sentimos blindados contra o sentir, mas múltiplas forças nos interpenetram implacavelmente.

O pensamento evoca sensações com a mesma força de um fato real, tamanha sua capacidade de embuste e convencimento.

Hábito e ilusão: criadores de formas sensíveis e tangíveis.

O chão sob meus pés, nesta praia de miragens, é só um amontoado de grãos de areia vilipendiados. Ainda assim, busco responder por meus domínios, mesmo sem saber de quem herdei esta transitória morada.

A vida parece um ciclo perpétuo diante da bruma dos evos. Uma existência soa fugaz ante os bilhões de anos do universo incomensurável.

Meu fardo é saber tão pouco e ver-me cerceado pelas intempéries que tolhem qualquer aprofundamento. Não me queixarei demasiadamente: muitos se tornam migalhas ao se apequenarem nas maledicências.

Não sou melhor que os acompanhantes, mas quero descobrir meu melhor particular e o propósito que me persegue, insistente e displicente.

Desgarrar-me do rebanho não basta, é preciso fazer-se útil.

Carrego algo precioso e oculto, que ainda hesito em evidenciar por uma timidez visceral. Compartilhar esse relicário, ao menos em parte, talvez seja minha função.

Enfatizar as mazelas do planeta me envenena e enferma d’alma. Uma parte de mim foi tragada pela onda do pessimismo, com medo de parecer ridícula ao abraçar o otimismo.

Enquanto isso, a maioria, de fato, é cômica ao soprar uma alegria esvaziada.

Minha única ressalva está na ingenuidade de ignorar o poder humano de tecer tanto horror quanto maravilha. Fixar o frágil intelecto apenas na maldade é um jogo de justificativas esdrúxulas.

A contaminação é discreta. A incubação é silenciosa. E a sintomatologia é confundida com “realidade”.

Quem vê as tonalidades da miséria humana também pode vislumbrar o esplendor miraculoso da vida.

Há, para além do horizonte, uma arquitetura que o acaso jamais desenvolveria e que somente uma inteligência soberana poderia esculpir.

Um gole de turbidez

Quando criança, encantava-me com perguntas pueris e relevantes. Indagava sobre o amargor das bebidas adultas e não compreendia qual a graça de sorver algo que não contivesse a doçura ludibriante do engano.

Com o tempo, percebi: o entorpecimento, ou talvez o refinamento de um paladar anestesiado pelos revezes da vida, serve como suporte à realidade alucinante. O álcool, nesse ritual social que reaproxima os párias e simultaneamente os isola, dissolve, pouco a pouco, o ser petrificado na amargura.

A inflação emocional se camufla tão bem no enfado antigo, que se atribui ao líquido recém-ingerido o efeito de um estado já instalado. Agora entendo o olhar embasbacado e ébrio diante do rotineiro, do comum e do medíocre. São lampejos de brilhantismo que naufragam na vala do descaso.

Tudo o que não sofreu a adição da dulcíssima artificialidade é apreciado em garrafas, como um elixir da sinceridade não filtrada. Esse efeito assemelha-se ao desdobramento místico da imaginação ou à redescoberta de um solo há tempos intocado.

Talvez eu nunca tenha deixado de ser criança. Brinco agora com jogos de seriedade ineficaz, inutilmente performáticos.

Gastei anos tentando me livrar da toxicidade do mundo, apenas para mergulhar na embriaguez da revolta. Lutei contra minha própria transparência, que denunciava aos algozes de plantão minha ingenuidade recalcitrante.

Ainda hoje, lamento a objetividade e a sinceridade ofertadas em vão. Poucos merecem e suportam a ofuscante simplicidade.

E, embora não deseje aplausos falsos, quero brindar com todos os que compartilham a existência sem fingir viver em outro lugar. Consinto que escondo quem sou, na nobreza dos atos, na estranheza da naturalidade.

Busco cantos para ocultar meu semblante e silenciar diante dos disparates da civilização. Quero apenas conversar com um humano sobre o inefável que me invade e o conhecido que se esgueira como miragem persistente.

Resto comigo. Tento reestabelecer a intimidade perdida entre as vozes alheias.

O diálogo, mesmo desconexo, ainda é o bálsamo que suaviza dilemas sufocantes. Os sabores fermentam nos tonéis da memória, e desejo apenas ganhar turbidez, frente à maldade triunfante e encher a taça daqueles que, incólumes, iluminam a escuridão dos que perderam o brilho.

Maluquices Ancestrais

O velho e esfarrapado assunto sobre energias ainda assola a humanidade, deixando uma nuvem deletéria pairando sobre as frontes palpitantes de supostas inspirações.

O pensamento mágico empesteou os diversos ambientes com suas associações disparatadas, num afã de criar correlações lógicas a partir de elementos intangíveis.

Creio apenas em forças cujos efeitos sensíveis sejam percebidos, tais como a eletricidade ou a gravidade. Além disso, prefiro descartar hipóteses que somente agradam aos egos ou se adaptam em fôrmas preestabelecidas.

Se acaso o indivíduo mantém uma atitude tida como positiva, mas algo não dá certo, logo se pensa que lhe escapou algum elemento desapercebido. Se, por outro lado, logra êxito, vincula o evento com elementos invisíveis, sob o império de sua vontade mesquinha.

Mesmo que não saibamos nada acerca dos bastidores, queremos dizer que controlamos variáveis sutis com nossa mente engenhosa. Certamente, há uma disposição ou modo de fazer que nos conduz mais assertivamente rumo a um objetivo, entretanto é presunção assegurar que existe alguma fórmula infalível elaborada por meros indivíduos.

Somente nós, seres que chafurdam em um lodaçal de elucubrações disformes, somos capazes de criar um pântano psíquico. Acredito sim que o ser humano não chegou ainda à condição elementar de ente do mundo, sequer considerado como pessoa em sua singela expressão. Creio que esta criatura é capaz de contaminar a si mesma e lançar ao redor sua feiura como se fossem objetos concretos e palpáveis.

É tanto papo furado que ouço que sinto uma viscosidade adentrar minha orelha. Usando uma linguagem mais rude, posso assegurar que tem gente que só fala merda e acredita que esparge pérolas de sabedoria milenar.

Não há, de fato, uma apropriação da palavra, mas apenas uma sedimentação de lixo que gruda qual uma crosta de certeza reluzente.

Agora que estou só e posso ouvir unicamente meus pensamentos, uma paz me invade. Talvez, a única energia em que acredito seja a de nada fazer. E quando algo é feito ou se faz, o que vale é o querer. Deixem-me com o mínimo de crenças.

Não consigo lidar mais com essa bagagem de bobagens. Tolice minha acreditar em algo além do que vejo. Os únicos elementos abstratos que percebo são explosões ou mesmo a estupidez. De resto, o que não sou capaz de ver não existe.

Quanta simpatia!

Certas experiências são, de fato, céleres: pontes para oportunidades superiores. Conforme os ventos favorecem, as notícias alvissareiras começam a rasgar o horizonte. Quando aportamos em novo rincão, as certezas começam a se solidificar, mesmo que com os desafios e dificuldades inerentes. Entretanto, não é sobre isto que gostaria de escrever.

O otimismo não é uma das minhas virtudes, e desconfio seriamente da bondade em mim ou noutros. Sobre isto, gostaria de discorrer. Falo sobre pessoas com ar histriônico e bonachão, cheias de boas intenções. Nelas, a empatia é quase que uma patologia, uma busca nefasta por imiscuir-se em departamentos alheios. Em alguns, o desejo de ajudar é na verdade um artifício para satisfazer sua curiosidade mórbida e o desejo febril por controle sub-reptício e sistemático. Há uma miríade de seres que pululam neste planeta, e classificá-los seria tarefa árdua, mesmo dentro desta tipologia. Portanto, quero traçar um perfil psicológico mais geral sobre tais indivíduos.

Na minha tosca e trôpega trajetória, percebo que só fui verdadeiramente ajudado por pessoas truculentas e com os pés fincados no solo. Aqueles moldados pela realidade esmagadora sabem forjar, no bom sentido da palavra, as relações, e conseguem ser mais autênticos do que os embusteiros travestidos de amparadores. Já o "papo furado" que tenta simular um tom agradável e consonante com o interlocutor parece uma enredada trama para o perigo.

A capacidade de escuta é item raro nestes tempos obscuros e de luminosidade falsa. Há que se ter cautela contra as maracutaias engendradas por estes tipos nocivos. O estado de alerta de tais personagens é algo absurdo, pois parecem sentinelas extremamente ciosos de suas funções. Deve ser deveras cansativo cuidar de tantas variáveis, além dos inúmeros imperativos do quotidiano.

Realmente, é um insulto à inteligência, quando artimanhas deste naipe são urdidas por indivíduos centrados a tal ponto n’outrem que se esquecem de suas próprias vidas. Podemos até mesmo enxergar as imagens tangíveis projetadas por tais mentes, quando se ocupam do seu próprio frenesi mental e antecipam à exaustão todos os cenários e diálogos possíveis. Difícil encontrar autenticidade naqueles que procuram ser agradáveis, assim como é árdua a tarefa de enxergar um ato genuíno naqueles dotados de exageros professorais.

Percebo que o silêncio é a benção suprema, e talvez seja em si uma oração. Dentro de tais perfis, é nítido que muitos carregam em si desejos vários, sem dar nada de si. Trata-se, em suma, de um escambo vergonhoso, sem um pingo de dignidade. Penso que estou me perdendo em divagações ou que meu tempo está se dissipando em obscuros túneis de inutilidade.

A humanidade ainda está em sua infância evolutiva, se é que existe tal absurdo chamado progresso, que penso ser uma mera casca envernizada de modernidade. O ser humano continua impregnado por uma boçalidade ancestral, e sua inteligência não é mais que o produto de um cruzamento cartesiano e, muitas vezes, caótico de ideias. Se há algum aprimoramento, é o da arte da repetição, com adornos de sofisticação, gerando simulacros de conceitos.

Enfim, não sei dizer ao certo se a bondade é um atributo inerente aos humanos. Somos, essencialmente, animais que desprezam seus próprios instintos e sua possível sabedoria intrínseca. Quiçá pudéssemos conviver com certa naturalidade, onde os sentimentos fossem mais transparentes, onde a indiferença surgisse cristalina tal qual o interesse.

Por isso, prefiro os angustiados, os apartados, os indecisos e toda a sorte de desenquadrados pela sociedade. Sinto uma simpatia e extrema empatia por tais seres, e creio que minha bondade consista nisso, muito embora eu continue o mesmo: a suplicar atenção e reconhecimento. Sou patética figura que mal sabe soletrar suas próprias necessidades e se sente desajeitado entre a multidão barulhenta.

Confirmação mais-do-que-desnecessária

Quando desconfio estar errado, percebo, fatidicamente, que sempre estive certo e meu único erro foi o de desconfiar de mim mesmo. Mesmo que eventualmente cometa um deslize, não importará: não darei crédito à súcia dos vasculhadores de imperfeições alheias. Também não investigarei meus defeitos, tampouco contratarei quem o faça por mim.

Ater-me-ei apenas às palavras daqueles que nada queiram me dizer e buscarei, sorrateiro, um sentido oculto que toque exclusivamente meus sentidos atrevidos. Corro contra o tempo para terminar um breve relato sem nexo aparente, pois me absorvi com coisas inúteis.

Agora me iludo achando que realizo atividades funcionais e proveitosas, abdicando da letargia própria dos seres atuantes e infelizes.

A ampulheta se esvai e o fim é incerto. Nem sei dizer precisamente sobre o que quero discorrer, quando tudo parece obrigação entediante. Solto frases ao léu e deixo que os “coerentes” as reúnam e forneçam alguma lógica.

Há pouco, discutia aleatoriedades e me sentia satisfeito. Todo esse diálogo, travado nos terrenos da minha mente, é de minha propriedade e autoria.

Não quero mais compartilhar tais pérolas com imbecis que chafurdam na mediocridade coletiva. Vejo-me cercado por uma manada de seres estúpidos e sinto que a paz nasce na medida em que diminuo o desejo de ser compreendido.

Percebo que, quando me perguntam algo, não desejam obter resposta, apenas tentar derrubá-la.

Por isso, hesito entre calar-me ou destilar o veneno pungente das acusações. Seria interessante verificar os efeitos da minha sinceridade mordaz ou do sarcasmo cínico. Mas não devo me precipitar, pois inevitavelmente estarei certo de novo.

Desmascarar os astutos facínoras da ignorância, desconectar parasitas de sinapses, esmagar vermes rastejantes... tudo isso teria efeito aprazível.

Talvez deva economizar palavras e o dom de pronunciá-las, apenas para desfrutar dos momentos de revelação em que se separam os recalcitrantes da maldade dos tímidos benfeitores.

Parecem existir nuances entre esses polos, mas só vejo abismos se abrindo e estátuas colossais guerreando com formigas.

Quando desconfio estar certo, abro-me à chance remota de cometer pequenos deslizes, por distração. Confirmo alguns cálculos e redescubro conhecimentos acumulados por excessiva precaução, nestes tempos de escassez intelectual.

O Mordomo do Manicômio

Quanto tempo, desde a última página deixada para trás! Por que não escrevi mais? Estou repleto de palavras, e elas já não significam ou querem dizer nada para mim. Talvez elas, assim como eu, tenham se cansado da minha insistente presença, quase que uma sombra, sobras de alguma coisa que já foi gente outrora. Agora finjo que sou algo ou alguém, mas... para quem?

Quanto desperdício! Esqueçam os textos ridículos que redigi anteriormente. O otimismo foi uma doença que devastou meu ser e deixou sequelas irreparáveis. Ainda continuo a alimentar em mim fantasias tolas, mas não quero mais acreditar. Já não consigo confiar em nada ou ninguém. O fio arrebentou e ele não era tão tênue quanto imaginava.

Espero que minha angústia continue incógnita e que não leiam as tolices amealhadas ao longo dos anos em que desenvolvi minha animalesca condição. Arrisquei a confissão, mesmo que emaranhada pelo inefável, porém percebi agora como fui ingênuo. O mundo é o palco, onde de suas cadeiras os espectadores contemplam a decadência de outrem com um riso de escárnio.

Alguém estará acordado também, com seus tormentos e devaneios persistentes? Esperei o silêncio e o sono das vozes, mas tudo grita em mim, das entranhas em convulsão. Como um poço antigo, cujas águas apodreceram lentamente, assim se acumulam meus sofrimentos. Um ceticismo triste me salvou, porém estou isolado. E a misantropia que se apossou dos meus pensamentos só me fez ver quão miserável me encontro.

Um choro amargo e ardente escorre dos meus olhos petrificados, como uma seiva preservada. Diante de uma poesia, minhas lágrimas se aproximam qual bicho arisco. A beleza de uma canção, onde sobreviveu o sentimento, restaura provisoriamente minha lucidez. Escrevo apenas para não morrer.

Insisto em declamar esse alfabeto de letras mortas e vilipendiadas. Parece que não aprendi nada com a realidade. Perguntam-me se ainda não entendi o jogo. Desconfiam que eu não queira consentir em participar de bom grado. Os participantes sabem quando alguém está de má vontade, e os olhares denunciam, junto com um menear de cabeça desaprovador. Esse sou eu: teimoso e ainda falando sozinho.

No que me transformei? Uma autoridade que fala sozinha, uma personagem atuando de forma compulsória e inconsciente. A chuva lá fora não cessou e eu aqui dentro não mudei. Sei lá o que quero ser. Foi apenas um rompante que me fez escrever. Não sei como dar um desfecho às ideias que rasgam meu intelecto caótico e delirante.

Repentinamente, um sussurro me acusa de serviçal. Será o correto? A quem devo servir? Talvez essa seja uma boa pergunta para fechar com chave de ouro a porta do meu manicômio.

O Analista de Recursos Desumanos

Desde tenra idade, pressionado pela imperiosa necessidade de optar por um ofício, já excluía de sua lista imaginária várias profissões, certo de que não se enquadraria bem nelas. Buscava a aclamada vocação, qual um dom atribuído por uma divindade, garimpando em suas inclinações naturais algo que pudesse ser usado em prol do sofrimento humano. Ledo engano, na sua pueril intenção, própria daqueles recém-inseridos em um universo organizacional predatório. Sua família o apoiou nessa empreitada fantasiosa de analisar o lado humano em seres que há tempos haviam esquecido que possuíam tal natureza, semelhantemente a atordoados anjos decaídos.

Amadureceu, assim como suas ideias, lapidado pela experiência pungente e auto-evidente. Foi habilmente doutrinado pelos conclamados "mestres" de nossa precária e conspurcada sociedade, que cobravam o aprimoramento de seus gaps. Seus talentos artísticos foram paulatinamente estrangulados pelos normopatas de plantão e pelo estúpido senso de responsabilidade. Tentou, em vão, ser coerente e justificar seus atos perante o tribunal dos imbecis semianalfabetos universitários. A princípio, admirava estátuas colossais com pés de barro e discursos motivacionais açucarados extraídos de livros toscos de autoajuda. Quis equilibrar sua sensibilidade e sua emoção corajosa com a tão almejada razão, ignorando que já possuía a ponderação necessária para discernir e iluminar as trevas que envolvem os castelos intelectuais das vaidades.

O neófito desnorteado cavou seu espaço no mundo cômico-dramático dos pseudo-profissionais, porém lhe faltava a combatividade encenada e a valorização das obviedades. Quando começou a acreditar em si, percebeu que estava cercado por pessoas apavoradas lutando para manter suas cercas intactas. Certa feita, vendeu seus préstimos como investigador autônomo da psique, sendo sagrado no cargo de consultor. Investido dessa aura mágica, especializou-se em ofertar conselhos aos trabalhadores com a pesada artilharia dos jargões organizacionais. No entanto, fazia isso com o máximo de autenticidade possível, deixando brechas aos analisados para que entrevissem algum traço de humanidade.

Sentia-se um embusteiro-mor, expert na arte de produzir engodos a partir de frases místicas, como se fosse um gladiador na arena da estupidez. Não sabia se era um charlatão ou um louco que não atina com a própria loucura. Na derradeira experiência, enfim registrado, assalariado e domesticado, enfrentou outro desafio inusitado. Viu-se incumbido de avaliar hordas de trabalhadores diariamente, cercado de colegas igualmente truculentos e executando rotinas várias e incessantes. Mal tinha tempo de refletir, apenas sabia que algo estava errado. Seu espírito sinalizava que seus talentos estavam sendo aprisionados, na tarefa interminável de apertar parafusos frouxos e enferrujados.

Definhava vagarosamente, corroído por sensações insofismáveis. Sua insegurança inicial, antes incômoda, transformou-se em uma confiança que excluía toda a iniquidade da qual não queria tomar parte. Detestava as entrevistas céleres, simulacros de consultas médicas precárias feitas por pigmeus que se achavam gigantes do conhecimento. Ficava consternado em tratar os candidatos daquela maneira, e não conseguia se adaptar às demandas obscuras. Já não se sentia pertencente àquele mundo irremediavelmente prostituído. Estava com um dos pés no além-mundo. Sua morte foi um episódio inaudito, nunca dantes registrado nos compêndios clínicos. Certa tarde, após atender uma multidão aflita e sôfrega, segurou a respiração involuntariamente e entrou em longa apneia. Quando deu por si, já havia fenecido e encarava agora uma nova realidade.

Ao despertar, viu-se em um leito de hospital com aparelhos futurísticos. Pensou ter sofrido um acidente grave e sido removido para outro país. Contudo, não sentia dores. Reparou que as pessoas trajavam roupas brancas e tinham o semblante circunspecto e sisudo. Tentava obter informações sobre sua situação, mas recebia respostas lacônicas, como se fosse tratado como uma criança tola. Logo descobriu que havia morrido e estava em outra dimensão. Afinal, em vida havia estudado vasta literatura sobre o tema. Não era tão estúpido assim! Os funcionários daquele estabelecimento logo notaram, pois ali todos liam pensamentos. Em instantes, chegou um homem de barba branca e longa, levitando. O ancião estacou e falou bruscamente que estava na hora de labutar, pois já estava restabelecido. O recém-desencarnado ficou estupefato com aquela forma rude e sarcástica de falar, pois imaginara que repousaria por alguns dias.

— Pare de vagabundagem! — bradou furibundo o diretor do recinto. — Siga-me, que vou te arrumar uma ocupação com urgência.

O ex-analista de "recursos humanos" seguiu a "simpática" personagem daquele pesadelo. Percorreram longos corredores, saíram do hospital e caminharam por uma cidade repleta de departamentos. Nas periferias, avistaram um casarão e uma fila quilométrica de pessoas cujo fim se perdia no horizonte. Ao chegarem ao portão, o venerando diretor espiritual pendurou-lhe ao pescoço um crachá com o título: Analista de Recursos Espirituais.

— Onde estou? — indagou, perplexo.

Dois seguranças truculentos o seguraram e prenderam-lhe a perna a uma cadeira com grilhões.

— Eis sua promoção profissional, meu caro — ironizou o ancião. — Estamos no Departamento de Reencarnações, e você é o responsável por encaminhar estes espíritos que pleiteiam uma nova oportunidade de voltar à Terra.

O velho, pela primeira vez, esboçou um sorriso. Virou de costas, tomou o caminho de volta à cidade e bradou com voz potente:

— Senha número um!

No Fim da Fila

No fim daquele dia fatigante, após sua labuta que se lhe tornara insustentável e improfícua, mal chegou ao seu refúgio terreno, lhe acometeu inexplicável estado modorrento. Apenas se alimentou maquinalmente, tentando vencer a sinistra letargia, caiu num sono de imagens distorcidas e alucinantes.

Era como se trafegasse num túnel de negrume angustiante à vertiginosa velocidade e repentinamente tropeçasse em pedras pontiagudas que representavam seus sentimentos confusos e pungentes. Diferentemente de quando se acorda de sobressalto pela sensação de queda, sentiu que tal tombo lhe afundou em abissal inconsciência. Parecia-lhe que estava num limbo entre a vigília e a profundidade de um onirismo misterioso.

Do seu corpo se desprendiam plúmbeas emanações que foram amealhadas pela coleção dos inúmeros equívocos e apegos de uma vida seguida ao léu. No momento em que começou a divisar um cenário inteligível, recobrou parte de sua consciência. Notou que planava logo acima de nuvens acinzentadas, em uma atmosfera úmida e nublada qual o seu humor. Voava, mas não tinha controle preciso de seus movimentos caóticos.

Aos poucos, se acostumou com a sensação do vento lhe fustigando o corpo e sentiu um princípio de liberdade que lhe balsamizou a fronte tensa, porém este conforto não duraria... Reparou que sobrevoava algumas montanhas e que o sol já tinha se escondido por detrás do zênite. Paulatinamente, foi perdendo altitude e viu abaixo um descampado ladeado por inúmeras montanhas escarpadas. Ficou com medo de esbarrar no cume de alguma destas colossais estruturas e perdeu a velocidade de seu voo.

Percebeu então que flutuava e gradualmente descia dos céus à terra desconhecida. Foi então que enxergou o tétrico cenário no qual deveria pousar seu corpo. Pisou no solo e ficou assombrado com tudo o que lhe rodeava. Viu as mesmas formações rochosas, mas agora de um outro ângulo. Tudo ao redor possuía cores monocromáticas que lhe causavam uma deprimente sensação e era cercado por uma aura de tristeza e desesperança.

Ao menos, não avistou nenhuma construção humana, o que lhe assegurou ainda um resquício de paz e autocontrole. Há tempos, se sentia saturado de toda a estupidez humana e seus derivados, o que lhe rendeu um quadro crônico de misantropia. O humano constituía para si o cerne de todas mazelas que conseguia imaginar, como a cupidez desenfreada, a maldade ilimitada, a ampla corrupção, a deformidade da inteligência, a hediondez da inépcia e todos outros artifícios de entorpecimento e fuga.

Entendia o mundo como mãe acolhedora e o ser humano como uma espécie de câncer a consumir a vitalidade do planeta. Na medida em que buscava o conhecimento nas brumas da utopia, tal compreensão se tornou um peso sobejo e extenuante. Viu que não logrou êxito em entender seus semelhantes e que o saber arduamente coletado era como uma chaga viva e lancinante em sua alma. Findo este pensamento, recobrou o ímpeto de continuar a caminhada e a consequente percepção de que estava justamente em um local ermo, inóspito e insólito. Deveria, então, observar alguns detalhes, para descobrir qual seu paradeiro e o quão bizarro seria este sonho. Se é que este era apenas um mero e inofensivo sonho.

Circunvagou o olhar atônito e constatou uma vegetação rasteira repleta de espinhos de diversos tipos. No geral, as plantas eram ressequidas e sem nenhuma flor que pudesse trazer à tona algum traço de beleza. Confirmou que seu estado de espírito era compatível com aquele ambiente opressivo. Percebeu que estava descalço e que suas vestes eram tão somente uma camiseta e uma calça esgarçadas.

Começou a andar em direção às montanhas negras que se perdiam no horizonte, já que atrás de si só se via um terreno pantanoso e inacessível. À sua frente, o terreno era favorável para a longa caminhada, embora fosse pedregoso e árido.

Curiosamente, não sentia fome. Deste modo, empreendeu a inevitável jornada, tendo esquecido provisoriamente que estava nos miraculosos domínios do sonho. Já estava andando por longo período e o destino que havia programado ainda se perdia no firmamento. Estranhamente, o clima não se alterava e lhe parecia um eterno fim de tarde desprovido do fulgor solar e da luminescência lunar.

Cercado pela lubricidade peculiar da região e pelos ventos sibilantes, ficava mais sensível aos estímulos que surgiam no percurso. Hauria cada vez mais aquele ar rarefeito e asfixiante. Densos eram seus sentimentos que irrompiam com exagero e ilogicidade. Continuava no percurso, mesmo assim, sem saber o que lhe movia, se por alguma corda invisível ou voz irrisível.

Nas laterais do seu campo de visão, apenas as montanhas inamovíveis estreitando o caminho, deixavam a trilha limitada e opressora. Sentia-se observado e na iminência de que iria encontrar repentinamente algum outro ser, dentro daquele episódio de aparentes devaneios. A escuridão invadia a trilha, pois a pouca luz celeste tinha dificuldade de transpassar as fendas rochosas e iluminar o solo cada vez mais pedregoso.

Caminhava com lentidão e prudência. Ao olhar de relance para alguns pontos brilhantes nas paredes rochosas, teve a impressão de que olhos maliciosos espreitavam com rapacidade. A preocupação crescia, na medida em que não encontrava nenhum ponto para repousar, embora não sentisse sono devido ao seu estado de alerta constante.

Quanto tempo havia transcorrido e a distância atravessada não saberia precisar. O silêncio era aterrorizante e tremores lhe percorriam os membros anestesiados. Um arrepio sinistro percorreu sua espinha e causou um momentâneo e estranho torpor no topo de sua cabeça. O breu inspirava pensamentos nefastos e furibundos. Temeu ter escolhido um caminho errado, mas lembrou-se de que se tratava apenas de um sonho estúpido, quiçá um pesadelo que iria findar em breve. Nunca havia tido em sua vida um único sonho auspicioso, apenas presságios de azar.

Em determinado momento da sua visão, não podia mais ver nada além de trevas densas e somente tateava as paredes para se guiar. Assim, seguiu por algum tempo, até que chegou numa barreira intransponível. Pensou em voltar, porém achou prudente sentar-se um pouco numa pedra grande e lisa que restava em um dos cantos. Refletiu sobre aquela miraculosa experiência e lembrou-se que jamais havia vivenciado tal sonho antes. Queria despertar, mas não sabia como. Talvez estivesse preso a algum feitiço soporífero e entorpecente.

Tão somente conseguiria seguir as leis próprias e naturais a estes domínios específicos, não lhe restava outra opção. Então, resolveu explorar a situação inaudita que experimentava. Levantou-se e esbarrou a cabeça em algo que parecia uma viga de madeira fixada no paredão. Para seu espanto, percebeu que era uma escada e se indagou quem havia construído tal artefato naquele local, sendo que até então não havia percebido nenhum sinal de humanidade. Instintivamente, iniciou a subida e em certo ponto já estava em uma altura considerável, quando pode perceber que uma claridade podia ser notada próxima ao cume daquela encosta. Era, de fato, uma pequena gruta escavada na parede.

Adentrou o recinto e viu que este possuía certa luminosidade advinda da parte externa, pois o lado oposto do paredão era mais baixo do que este em que estava, bem como algumas fímbrias de luz escorriam através de fendas no teto da gruta. Aquele nicho parecia ter sido projetado para o propósito de acolher pessoas na mesma situação em que se encontrava. O espaço não era grande, mas era agradável. Decidiu que repousaria algum tempo por lá, até porque não havia outra opção naquele momento. Verificou que o local parecia asseado, o que reforçou sua desconfiança de que alguém havia passado por ali. Avistou que, fora da caverna, a lua se projetava acima do horizonte, o que lhe causou certo estranhamento. Assim, alguns detalhes internos da gruta ficaram mais nítidos e pode ver uma escada esculpida ao fundo e que levava ao ápice da montanha. Sem hesitar, prosseguiu na sua incursão, pois estava curioso para ter uma visão mais ampla da região.

Quando alcançou o cume, constatou que estava em uma espécie de outeiro. Olhou na direção de onde tinha vindo e confirmou que tinha atravessado extenso curso por entre as montanhas e que não havia de fato outro percurso possível. Resignou-se ante o inexorável. Foi até a outra extremidade e avistou logo abaixo das escarpas uma extensa praia que terminava em uma região de floresta cerrada. Perguntou-se como poderia descer até lá, quando notou uma estrutura similar de degraus esculpidos que levava sinuosamente até o nível no mar. De fato, aquele rumo já estava preestabelecido e continuou no seu propósito de desbravamento. A sensação de que o palco da vida traz uma liberdade assistida novamente o invadiu, mas apenas seguiu no afã de seu provisório objetivo.

Agora seus pés pisavam a areia da praia e sentiu a aprazível brisa da noite. Resolveu seguir até o fim do litoral com destino à floresta, aproveitando para caminhar à beira do mar e ouvir o marulhar das ondas. Toda a atmosfera suscitada pela praia e sua maresia traziam no seu bojo os reflexos da poesia e de uma melancolia ancestral. Sua alma estava minguante, mas persistia em suas pequenas e inefáveis certezas. O seu reflexo nas águas espumantes era desgrenhado e de olhar errante. Estava próximo à ponta da praia, onde terminava a região montanhosa e começava a floresta.

Como imaginava, havia uma outra trilha por entre as árvores. Embora a vegetação fosse espessa e densa, a trilha era bem desenhada e não apresentava dificuldades ou perigos aparentes. A finalidade da trilha sempre foi a de dar a falsa impressão de segurança e de um curso bem delineado. Após percorrer o primeiro quilómetro, logo surgiram as primeiras tochas presas às estacas fincadas no solo. Certamente, alguém alimentava aquele fogo e fazia a manutenção daquela estrada aberta na floresta.

Não demorou muito e viu um homem encapuzado parado na estrada. Estava estático, segurava uma tocha numa das mãos e um estandarte na outra. O caminhante entusiasmado tentou entabular alguma conversa com aquela pessoa, mas em vão, porque ela nada respondia. O encapuzado, deixava reluzir em seu semblante uma multidão de mistérios e um semblante ensimesmado. Após ter desistido de tal empreitada, seguiu a trilha e a cada trecho encontrava outras sentinelas igualmente emudecidos. Talvez o segredo encubra o vazio de uma jornada finalizada ou mesmo a incapacidade de expressão diante de um vaso repleto de conhecimento. O peregrino, um tanto quanto irritado, atravessou toda a floresta e ficou estupefato com o que encontrou no final daquele caminho.

O novo cenário era tenebroso. A lua estava avermelhada e cercada de uma aura de amargura. O céu estava encoberto por nuvens enegrecidas e apenas alguns trovões esporádicos iluminavam de modo fugaz o tétrico ambiente. Uma garoa caia e o solo era praticamente um lamaçal. Viu alguns seres andrajosos a certa distância e que caminhavam a esmo. Decidiu voltar, mas ao chegar novamente à floresta, dois sentinelas fechavam a entrada com lanças. Seus olhares se transmutaram em armas lancinantes, diante da impossibilidade do retorno. Assim era o conhecimento, irreversível. Logo percebeu que seria impossível voltar e ficou com raiva por não ter percebido aquela armadilha repleta de sagacidade divina.

Andar pelo caminho de barro da incerteza era uma tarefa penosa e se arrependeu amargamente de não ter escolhido outro caminho. Nem sabia ao certo se era possível outro caminho. No início da jornada, também havia só o pântano do desconhecido. Resolveu aceitar o chafurdar na lama e ver até onde aquele caminho lhe levaria. Os andarilhos que cruzavam o seu caminho falavam sozinhos e também não conseguiu dialogar com eles. Percebiam sua presença, porém gritavam palavras desconexas com convicção. Perguntou-se onde havia escutado semelhantes discursos. Aos poucos, sua irritação atingiu os píncaros do suportável, pois por onde caminhava encontrava toda a sorte de loucos. Todos estavam muito sujos, mas não se importavam com isto. Eram figuras esquálidas, porém agitadas. Muitos que cruzavam o seu caminho xingavam e escarneciam, dizendo que ele iria fatalmente se curvar ante o inevitável. Quando mais andava, mais encontrava pessoas, nas mesmas condições, que pareciam pobres espectros apagados. Em dado momento, mal conseguia se locomover, sem esbarrar em alguns destes.

Começou a se sentir extenuado e faminto, além de ser cada vez mais insultado por aquelas pessoas. Alguns puxavam suas vestes, como se para lhe chamar a atenção. Uma multidão marchava com vagar, na lentidão que sempre acompanhou o processo evolutivo do mundo. Tentava enxergar na distância alguma saída, enquanto era arrastado junto à turba animalizada. Depois de algum tempo, visualizou na distância uma construção peculiar. Eram duas torres colossais e um pórtico monumental que parecia um imenso monólito talhado por gigantes. O cortejo fúnebre parecia se dirigir para aquele destino. Sem saber para onde levaria ou com qual propósito, se deixou conduzir na selvageria dos instintos.

Quando chegou nas proximidades daquelas torres antigas, viu um enorme conglomerado de seres que pululavam pelo ambiente. Por um período que parecia uma eternidade, continuou sendo arrastado por aquela multidão aparvalhada e sua mente começou a colapsar. Ao conseguir erguer os braços e tocar a própria face, notou que seu rosto estava hirsuto. Percebeu também que seu corpo não era mais robusto e cheio de importância, mas agora estava magérrimo e carregado de uma tristeza vazia e persistente. Ao lançar os olhos bestificados ao redor pode ver as duas torres próximas, bem como o misterioso pórtico entre elas. Do alto das torres, pôde ver figuras com máscaras douradas, que deixavam as bocas de seus donos descobertas e escancaradas. Estas entidades apenas sorriam incessantemente e acenavam. Muitos daqueles que se espremiam lá embaixo, ficavam admirados com aquela manifestação de uma possível empatia, tanto que algum ficavam paralisados e não atravessavam a tão almejada passagem.

O caminhante cruzou o pórtico e chegou a uma pequena porta, mas esta estava fechada e não possuía maçaneta nem fechadura. Começou a murmurar e se exprimir por sons guturais, pois ficara demasiadamente bestializado. Todos os demais igualmente gritavam como podiam. Lembrou-se remotamente que era preciso pedir, mas como havia perdido as palavras emudeceu e recorreu ao seu confrangido coração. Estava muito próximo de atravessar aqueles umbrais, mas por muitos evos esteve no fim da fila.

Um ruído esquisito pode ser ouvido; era o ranger das sólidas e pesadas portas descerradas pela lubrificação de fibras endurecidas pela dor, mas isso não foi percebido. Aquele pequeno grupo estacionado na soleira da porta aberta ficou em silêncio durante dias, amedrontado diante da possibilidade iminente, ninguém ousou atravessá-la. O restante da multidão ficou estarrecida diante do evento e da reação daquele pequeno grupo embasbacado, que não ousaram empurrá-los para terem alguma vantagem. Todos haviam perdido a capacidade de agir com o velho oportunismo. Desconheciam o mecanismo oculto que acionou os gonzos invisíveis da pesada porta. Certas portas só podem ser abertas pelo lado de dentro ou por sinais especiais de chamamento.

Nosso caminhante esboçou passos tímidos e atravessou a soleira da porta. Tão logo isto ocorreu, a porta se fechou. Estava novamente só, sempre esteve. Observou uma escada que serpenteava até o nível inferior rumo à uma espécie de galeria subterrânea. Neste ínterim, foi retomando a posse de si e sua noção de personalidade imutável e singular. No recinto que adentrara vislumbrou uma outra porta dourada resplandecente e no caminho até ela uma piscina de águas naturais. Mergulhou e se sentiu aliviado, chegando até a outra ponta sem esforço. Quando emergiu e saiu, viu que não estava mais sujo e seu aspecto foi revigorado. Sentiu o ímpeto de cruzar este próximo obstáculo. Gritou, bateu palmas, esmurrou a porta maciça, mas nada aconteceu. Começou a empurrá-la com força e viu que se movimentou milimétricamente. A porta de ouro foi lentamente se abrindo por meio do esforço hercúleo e teimoso. O conhecimento foi irrompendo por meio da força de vontade e da perícia. Fímbrias de luz escapavam do espaço entreaberto. Esgueirando-se na fresta sofregamente alargada, logrou o objetivo de ultrapassar o imponente portal.

Ao recobrar a força, ficou perplexo. Estava agora em uma sala que era nitidamente uma biblioteca e ao ter um primeiro vislumbre relembrou de alguns livros que lera na infância. Assim como vemos de relance os títulos em busca do despertar do interesse, o peregrino do conhecimento enxergou alguns que ficaram exarados em sua mente. Sem nenhum critério começou a olhar a variedade e o montante de tudo que amealhou em seus arquivos mentais e gravou de modo indelével no seu espírito. Ficou abismado com a incompreensível situação. Até ali, nunca percebera nenhum propósito para o que tinha aprendido. Tudo parecia vão e fantasioso. Ademais, foi constatando que todos relatos romantizados eram apenas formas falaciosas de engodo milenar.

Todo seu itinerário foi percorrido e seu destino provisório foi atingido de modo totalmente irracional e caótico. Talvez não precisasse de nada disto. Juntou algumas peças do quebra-cabeça, porém a imagem que pode perceber era a da ironia e do escárnio. Exaltou-se com o saber e este o humilhou perante o império da imbecilidade. Foi guardando ao longo da vida muito ressentimento e mágoa deste companheiro de jornada, mas agora poderia recapitular. Provável que algo tivesse se desgarrado ao longo da jornada e que poderia ser de grande valia. Embora tivesse perdido a fé e a confiança, abriu o peito para tentar reler algumas linhas. Sua escrita o havia contaminado com o germe da desconfiança e da descrença, mas o perfumou tal o machado que penetra o sândalo. A poesia que lhe incutiu um desabrochar de beleza e um fluir de correntezas puras, talvez pudesse lhe resgatar das garras frias do intelecto hipertrofiado. Estava inexoravelmente perdido em suas próprias entranhas e nas redes emaranhadas do inabarcável.

Tendo momentaneamente escapado das suas abstrações, começou a ler alguns volumes esquecidos e se contentar com as migalhas do entendimento. Podia discernir algo, mas ainda tinha a revolta impregnada em si. O cansaço ainda não havia dobrado suas pernas e não entendia o sentido da humildade ou se recusava a aceitar o que já sabia há muito. Acreditou que a autenticidade poderia lhe trazer maior amplitude de movimentos, porém ficou refém de sua transparência e da matilha de lobos famintos. Pensou que a autoconfiança iria fortalecer seus passos e lhe atrair energias auspiciosas, todavia o azar continuava a rondar seu caminho. Os pigmeus e os ajoelhados ficaram irritados com esta sua atitude arrogante. Resolveu fingir demência, porém não tinha tal habilidade natural, própria daqueles desprovidos de talentos. Até mesmo a união entre a inteligência, a bondade e a sensibilidade não foram suficientes para lhe trazer quaisquer vantagens. Parecia que a maldade estava sempre à espreita para recrutar novos colaboradores. Tentou manipular os bastidores por meio da força de vontade e de todos os seus recursos disponíveis, entretanto nunca conseguiu atingir seus propósitos, mesmo que toda a lógica e a previsibilidade apontassem para o sucesso. O fracasso neste mundo tangível lhe figurava como sua marca registrada.

Todos estes pensamentos cruzavam sua mente, enquanto estava na estranha biblioteca. Mas, como poderiam os pensamentos desfilar na sua tela mental, se estava sonhando? Todas as ideias ficaram embaralhadas, as imagens começaram a perder a nitidez. Tentou distinguir algum livro que lhe fizesse retomar um caminho perdido. Sua consciência ficava cada vez mais enfraquecida e os sentimentos confusos e angustiantes.

Repentinamente, acordou. Estava com o corpo banhado em suor e todo alquebrado. Não queria levantar da cama, mas levantou. Tomou seu costumeiro banho e não quis sair daquele momento de calor e reconforto. Tentava coadunar os pensamentos em busca de algum sentido para seu sonho. Em vão, se esforçou para extrair algum significado inteligível. Todos até ali, só pressagiaram dor e tristeza. Deveria voltar ao seu trabalho, ao seu guante. Queria encontrar alguma solução ou entendimento para sua aflição, porém tudo apontava para a ironia de um destino inescapável. Tomou o caminho da rotina e seguiu novamente o itinerário da ilusão. Pensou que estaria sofrendo à toa, contudo algo lhe incomodava e não dava trégua.

O trabalho movimenta o universo, portanto resolveu renovar suas forças e retornar ao seu labor diário. Sabia que lhe era impossível ficar na inércia, talvez por conta de estranhos desígnios perpetrados divinamente. No entanto, mesmo atarantado, decidiu se manter incorruptível em seus valores e buscar uma saída para atingir suas metas ilusórias de crescimento ou evolução. Sua ingenuidade beirava as raias da estupidez, pois o cenário de ruína moral da humanidade contemplado nunca havia se alterado na história dos homo-sapiens. Engendrou artifícios para manipular a situação e conseguir o reconhecimento anelado por meio do seu esforço, entretanto é óbvio que não logrou êxito. Só prosperavam os que simulavam o movimento de trabalhar e o semblante de preocupação com resultados.

Após longo período de sua contribuição, achou que teria algum valor ou importância. Ledo engano. Inquiriu e ameaçou as instâncias superiores de que poderia partir. A partir disto, apenas irritou os representantes das altas castas e sua condição piorou com as diversas ameaças veladas e as respectivas armadilhas da depreciação. Precisava tomar alguma atitude, ciente de que tinha seu valor e por tudo que havia conquistado. Desligou-se daquela organização, imaginando que conseguiria outra oportunidade por seus méritos. Pela enésima vez, se enganou. Tentou manter a serenidade e a lucidez, forjando um otimismo ilusório, porém as vicissitudes lhe irrompiam o horizonte quotidiano como se testassem sua integridade. Nada parecia dar certo e o pouco que tinha estava se desvanecendo. A possibilidade tinha quase sempre a maliciosa mania de escapar de modo arredio, a certeza invariavelmente ruía e o improvável surgia com suas teias ardilosamente tecidas. Apenas a desgraça lhe acenava carinhosamente, como a exigir que largasse mão de tudo e finalmente desistisse. Estava tão somente a se debater, com quem estivesse prestes a se afogar nos mares de inexorável força. O tempo passava implacável e tentava não cair nas movediças areias do desânimo, porém a depressão lhe corroía as suas estruturas intimas toscamente edificadas.

Perguntou-se se era preferível ter permanecido na prisão em troca da sobrevivência ou a audácia de sair para os domínios vastos do hospício. O pesadelo que havia experimentado talvez fosse um presságio de tal fatalidade. Quedou-se novamente na dúvida e apercebeu-se de que todos os augúrios eram malsãos e pressagiavam infortúnios vários. Os sonhos quiçá auspiciosos eram um delírio de uma mente desejosa. Não queria abrir mão da razão, tampouco desejava ver o mundo tal qual era. Já não conseguia ler mais. Todas as letras impressas lhe pareciam apenas rabiscos de mentes alucinadas ou anzóis de homens astutos e maldosos. Nada que lia lhe acrescia ao seu repertório e ao mesmo tempo queria jogar fora todas estas quinquilharias obsoletas. Sentia-se contaminado e enojado com toda a sorte de ensinamentos que lhe foram administrados por outrem. A escrita que antes lhe servia de válvula de escape agora ficara petrificada. Queria recomeçar com frases mais otimistas e iniciar um novo capítulo, mas temia ser falso. Não entendia o porquê de ser tão teimoso, se tudo o que sabia era inútil até ali. Não conseguia mais chorar, desde tenra idade. Desejava começar um novo caminho, já que toda a sua vida estava em colapso.

Os espíritos lhe tentavam incutir a esperança e apregoar a perseverança, no entanto a fé continuava um mistério e a confiança já tinha o abandonado. Vivos e mortos, ao seu ver, estavam todos perdidos, cada um em suas respectivas dimensões. Quem tinha alguma informação privilegiada lhe figurava ser um charlatão da pior espécie. Tinha certeza que a vida era infinita, qual nossa consciência singularizada. Todavia, estava desmotivado, como que chega no final da estrada e só enxerga um paredão instransponível. Sabia que a existência neste planeta é um sopro e uma experiência a ser vivida intensamente, contudo só percebia as inúmeras limitações a atravancarem seus caminhos. O livre-arbítrio era simplesmente uma faixa estreita e limitada. Sentia-se sufocado em si mesmo e deslocado de qualquer tribo. Em qualquer grupo que se achegasse, vivenciava um sentimento de não pertencimento. Tentava ser simpático e para si entendia que estava apenas interpretando o papel de bobo da corte. Duvidou que era realmente útil dentro da criação. Queria derrubar lágrimas, mas estava entupido. Em vão, se debatia dentro de si mesmo, qual uma lagarta aprisionada num casulo secular.

Que patético pensava ser, em sua ensimesmada existência. Afinal, não era assim qualquer um, isolado em suas quimeras? Via os humanos qual animais em jaulas escolhidas ou impostas. Eram doentes que tomavam placebos ou corpos sadios que ingeriam venenos. Que confortante seria crer nas escolhas, mas não cria em nada disso. Opções existiam apenas para dar a falsa sensação de liberdade. O discurso que escutava, no qual alardeavam que todos eram co-criadores, na realidade, era a mentira contada pela maioria que se prostituiu. Quem não coadunar com tal esquema, tacitamente arquitetado, vive uma vida de humilhações sistemáticas. É a velha escola dos falsos profetas que hoje em dia se tornaram bilhões de almas espúrias. Queria limpar-se de toda esta imundície e enxergar algum conhecimento que fosse seu verdadeiramente. Perquiriu a muitos e nada descobriu. Desistiu de tal intento. Não importava se mergulhava nos afazeres mundanos ou se devaneava, não encontrava nenhuma resposta ou saída. Desde o último pesadelo, não acreditava mais na surpresa. Adoeceu, tentou se ajudar, mas não saia da convalescença.

Tentava fugir da tristeza, mas ela lhe seguia com seu halo minguante. Queria estar profundamente errado, para que vislumbrasse algum caminho possível. Talvez estivesse equivocado e seu apego toldando sua visão com as redes da inexorabilidade. Ignorava o que poderia estar lhe obliterando a visão. Será que lhe faltava abandonar tudo? Era o que uma voz tímida lhe sussurrava insistentemente. Teimava em acreditar e desconfiava desta proposição. O que tinha era nada e o nada o perseguia com violência. Faltava-lhe propósito e a vida não tinha nenhum, até que fosse atribuído. Tudo findaria num ilusório roteiro. Pensou que fosse enlouquecer. Tentou retornar ao fim da fila, mas nunca mais conseguiu encontrar o fio desta meada.

Encerramento

Fim de um Ciclo

Uma coisa é certa. O fim dos ciclos. Os retornos e recomeços. E eu não irei mais tocar nessas poesias e crônicas. Cruzei a porteira e atravessei os umbrais. Tampouco lerei mais esse material que aqui está. Durante essa vida, talvez leia uma última vez como um adeus.

Doravante, me ocuparei em escrever outros textos mais. Outras poesias. Outras crônicas. E outros estilos que não me preocuparei em classificar.

Espero que minha vida e obra não sejam póstumas. Mas por enquanto, quero tentar conversar com as pessoas, me reconectar com a vida e quem eu sou verdadeiramente.

Quero essa coragem, na forma escrita, falada e no afeto. Que o medo seja apenas um fantasma a avisar sobre a brevidade de uma vida e que precisamos buscar a concretização dos desejos e sonhos.

Cumpri a obrigação de finalizar esse livro. Agora posso seguir adiante e navegar nos mares da poesia com antes, porém agora com mais alegria, leveza e amor.

Até breve!

Elton Daniel Leme

Guarulhos, 30 de Julho de 2025.

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