Personalidade e Autenticidade

Personalidade e Autenticidade

Uma investigação sobre quem somos por dentro e como nos expressamos no mundo

Há momentos em que percebemos que aquilo que chamamos de personalidade é apenas a superfície de algo muito mais profundo. Em ambientes profissionais, acadêmicos e sociais, ainda existe uma tendência de confundir personalidade com performance, como se fossemos definidos apenas pelo que mostramos, dizemos ou fazemos. Mas personalidade é menos sobre o que aparentamos e mais sobre o que nos atravessa.

O mundo do trabalho, com suas preferências por perfis comunicativos, extrovertidos ou dominantes, reforçou durante décadas a ideia de que algumas características valem mais do que outras. Porém, essa leitura empobrece a complexidade humana e reduz nossa singularidade a rótulos operacionais.

A autenticidade, por sua vez, não é eficiência comportamental. É profundidade.
E é aqui que a psicologia se torna aliada de um processo de autodescoberta madura.

Perfis comportamentais não são personalidade

William Moulton Marston, criador da metodologia DISC, descreveu quatro grandes tendências comportamentais:
Dominância (D): assertividade e foco em desafios.
Influência (I): sociabilidade e comunicação expansiva.
Estabilidade (S): constância e confiabilidade.
Conformidade (C): precisão, lógica e organização.

Esses padrões ajudam a entender como agimos, mas não explicam quem somos.
São mapas, não territórios. Tendências, não essências.

Marston falava sobre energia comportamental; Jung, sobre profundidade psíquica.
A personalidade, segundo Jung, é a soma de fatores conscientes e inconscientes que moldam nossa forma singular de existir. Ela não se limita àquilo que fazemos, mas abrange:

• nossas motivações profundas
• nossos complexos e sombras
• nossos arquétipos dominantes
• a história emocional que carregamos
• o diálogo entre razão, instinto e sensibilidade

A personalidade é um processo, não uma etiqueta.

Luz e sombra: nenhuma característica é perfeita

Todo traço humano carrega potência e risco.
A dominância pode virar agressividade.
A influência pode virar manipulação.
A estabilidade pode virar passividade.
A conformidade pode virar rigidez.

O que chamamos de defeito é, muitas vezes, apenas excesso.
E o que chamamos de virtude é equilíbrio.

Autenticidade não é reforçar apenas o que funciona, mas integrar o que ainda não sabemos lidar.

Jung, Gestalt e a singularidade como caminho

A Psicologia Analítica descreve a jornada da individuação: um processo em que deixamos de viver por papéis, a persona, e começamos a viver por inteireza. A Gestalt reforça essa visão ao lembrar que o todo é maior que a soma das partes, e que cada pessoa é uma composição única de forças internas.

Personalidade, aqui, não é máscara.
É coerência entre o que sentimos, pensamos e manifestamos.

A autenticidade nasce quando permitimos que nossas partes dialoguem sem censura: força e vulnerabilidade, razão e afeto, impulso e reflexão.

O risco de buscar aprovação em vez de identidade

Vivemos tempos de comparação constante.
Padrões de “sucesso”, “liderança”, “carisma” e “performance” são vendidos como modelos universais, e muitos tentam se moldar a eles para pertencer. Mas nada é mais exaustivo do que sustentar uma versão de si que não honra a própria verdade.

O preço dessa desconexão é alto: ansiedade, sobrecarga, sensação de inadequação, perda de sentido.

Autenticidade não é rebeldia; é responsabilidade com a própria alma.

Como cultivar autenticidade sem perder flexibilidade

Autenticidade não é rigidez, nem autoindulgência. É presença consciente.

Algumas práticas ajudam nesse movimento:

Conhecer o próprio perfil para entender padrões e pontos cegos
Reconhecer limitações sem autodepreciação
Praticar flexibilidade psicológica para se adaptar sem se trair
Valorizar a diferença como aprendizagem, não competição
Escutar a si mesmo antes de tentar caber em expectativas externas

A autenticidade cresce quando deixamos de buscar aprovação e começamos a buscar coerência.

Conclusão: personalidade é destino em construção

Cada pessoa é um universo: múltipla, contraditória, complexa, singular.
Personalidade não é o que mostramos, mas o que nos move.
Autenticidade não é aparência, mas presença.

O desafio do mundo contemporâneo não é ser mais parecido com o ideal do outro, mas mais fiel ao essencial em si.

Como diria Jung, “a jornada mais profunda é para dentro”.
E é nesse mergulho que a personalidade ganha densidade e a autenticidade encontra forma.

Se existe um convite final, é este:
seja menos espelho e mais raiz. Menos personagem e mais processo. Menos aparência e mais verdade.

E deixe que o seu próprio modo de existir seja o que realmente diferencia você no mundo.


Sobre o autor

Elton Daniel Leme é psicólogo, mentor de carreiras e consultor de RH estratégico, com mais de 21 anos de experiência dedicados ao desenvolvimento humano, saúde mental e educação corporativa. Formado pela Universidade São Marcos e pós-graduando em Gestão de Pessoas, Carreiras, Liderança e Coaching pela PUCRS, possui certificações em Assessment Center, DISC, MBTI, Profiler e Coaching (EBC). Atua na intersecção entre psicologia e carreira, ajudando pessoas e organizações a alinharem propósito, performance e bem-estar.

É fundador do Projeto Reconectar 40+, uma iniciativa voltada a homens e mulheres que buscam reconectar-se consigo mesmos, desacelerar e redescobrir significado na vida e no trabalho. O programa combina autoconhecimento, propósito e desenvolvimento humano, transformando a transição dos 40+ em um ponto de virada com mais autenticidade e equilíbrio.

Elton também é autor das newsletters Psicologia Atemporal e Carreira em Transição, que já somam cada uma mais de 6 mil assinantes. Alternando semanalmente entre ambas, compartilha reflexões sobre mente, propósito e futuro do trabalho, unindo profundidade psicológica e aplicabilidade profissional.

É criador do Clube da Escrita, grupo dedicado a fomentar a escrita terapêutica e autêntica, e também escritor, tendo publicado seu primeiro livro, Abissal, um compilado de poesias e crônicas escritas ao longo de 25 anos, como marco de uma nova fase criativa e autoral.

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