Em tempos de excesso digital
Este texto nasce da leitura de Não-Coisas: Reviravoltas do mundo da vida, de Byung-Chul Han, mas não como uma resenha, e sim como um desdobramento. Há livros que não apenas informam, mas reorganizam a forma como vemos o mundo. Ao avançar por suas páginas, algo vai lentamente se tornando visível: não estamos apenas vivendo uma transformação tecnológica, estamos atravessando uma mudança ontológica na maneira como a realidade se apresenta a nós.
O que está em jogo não é apenas o uso de dispositivos, mas a substituição progressiva de um mundo de coisas por um mundo de não-coisas (infosfera), isto é, de fluxos, dados, estímulos e informações que circulam sem jamais se sedimentar em experiência. Essa passagem, silenciosa e muitas vezes celebrada como avanço, carrega um efeito colateral que raramente é nomeado com clareza: a perda de presença.
A erosão da presença
A presença não é um dado automático da experiência, pois exige condições. Exige tempo, resistência, demora, fricção. Exige, sobretudo, algo que o mundo digital sistematicamente dissolve: a possibilidade de permanecer.
Byung-Chul Han mostra que as coisas, ao contrário das não-coisas, não apenas ocupam espaço, mas estruturam a experiência. Elas têm duração, carregam marcas, envelhecem conosco. Um objeto que atravessa anos deixa de ser apenas objeto e passa a ser testemunha. Ele acumula tempo e, com isso, confere espessura ao mundo.
As não-coisas operam de outra maneira. Elas não permanecem, não resistem, não envelhecem. Elas aparecem, circulam e desaparecem. São feitas para o trânsito, não para a permanência. Quando a vida passa a ser mediada predominantemente por esse tipo de experiência, algo sutil, porém decisivo, se perde: o mundo deixa de oferecer profundidade e passa a oferecer apenas atualização.
A infosfera, nesse sentido, não é apenas um ambiente saturado de informação. Ela é um regime de experiência em que tudo se torna imediatamente disponível, mas nada se torna verdadeiramente presente.
Informação não é experiência
Há um equívoco silencioso sustentando a lógica contemporânea: a ideia de que acesso equivale a experiência. Quanto mais vemos, mais conhecemos. Quanto mais consumimos, mais compreendemos. No entanto, o que se observa é o contrário.
A informação organiza, mas não substitui o encontro. Ela descreve, mas não encarna. Ela aproxima, mas não necessariamente envolve.
Byung-Chul Han recupera, por exemplo, a leitura de Barthes sobre a fotografia para mostrar que há uma dimensão da experiência que não se entrega à visibilidade imediata. O punctum não está naquilo que se mostra de forma evidente, mas naquilo que atravessa, que fere, que exige um tipo de atenção que não pode ser acelerada.
Esse ponto é decisivo. A atenção necessária para que algo nos toque é incompatível com a lógica da exposição contínua. Quanto mais estímulos recebemos, menos capacidade temos de nos deter. E sem detenção, não há profundidade. Sem profundidade, não há experiência.
Relações sem espessura
Esse mesmo movimento se repete no campo das relações. Nunca foi tão fácil acessar o outro, e ao mesmo tempo nunca foi tão difícil sustentar encontros que produzam transformação.
A lógica da disponibilidade, intensificada pelo ambiente digital, tende a reduzir o outro àquilo que pode ser rapidamente acessado, compreendido e consumido. O que escapa a esse regime, o que exige tempo, ambiguidade ou silêncio, torna-se incômodo.
O resultado é uma forma de vínculo marcada pela leveza e pela substituibilidade. As relações se tornam mais frequentes, mas menos densas. Mais visíveis, mas menos habitadas.
Byung-Chul Han sugere, de forma contundente, que essa dinâmica enfraquece a alteridade. O outro deixa de ser uma presença que nos confronta e passa a funcionar como extensão das nossas expectativas. Isso empobrece não apenas o vínculo, mas também a própria constituição subjetiva, que depende do encontro com aquilo que não se deixa reduzir.
O desaparecimento das coisas do coração
Entre as imagens mais potentes do livro está a distinção entre objetos e aquilo que poderíamos chamar de coisas do coração. Nem todo objeto se torna uma coisa nesse sentido. Para que isso aconteça, é necessário tempo, uso, repetição e uma certa forma de convivência.
O jukebox, que atravessa o livro como imagem recorrente, não é apenas um dispositivo musical. Ele é uma coisa no sentido pleno. Ele cria espaço, organiza o ambiente ao seu redor, faz emergir presenças. Ao seu redor, como descreve o autor, as pessoas deixam de ser passageiros e passam a ser habitantes. O lugar ganha densidade.
Essa imagem é particularmente potente porque revela algo essencial: as coisas não apenas ocupam o mundo, elas o fazem aparecer.
Ao contrário disso, as não-coisas não produzem mundo, produzem fluxo. Elas não criam lugar, criam trânsito. E quando a vida passa a ser organizada predominantemente por esse fluxo, as coisas deixam de se formar. Passamos por objetos, mas poucos se tornam significativos. Consumimos, mas não nos vinculamos.
O que se perde aí não é apenas o valor material, mas a possibilidade de memória encarnada. Porque as coisas do coração não são substituíveis. Elas são insubstituíveis justamente porque carregam uma história.
Silêncio como condição de existência
Outro ponto central na reflexão de Byung-Chul Han é o papel do silêncio. Em uma cultura que valoriza a comunicação constante, o silêncio tende a ser interpretado como ausência ou falha. No entanto, ele é condição.
O silêncio não é o oposto da comunicação. Ele é o que a torna possível. É no silêncio que a atenção se aprofunda, que a percepção se organiza e que algo pode, de fato, se tornar presente.
Sem silêncio, a experiência se fragmenta. A atenção se dispersa. A percepção se torna superficial.
Essa relação aparece de forma particularmente interessante quando o autor aproxima a experiência estética da fotografia ao gesto de fechar os olhos. Ver melhor, paradoxalmente, pode exigir retirar-se do excesso de visibilidade. Há uma dimensão do real que só se revela quando cessamos a compulsão de olhar continuamente.
A materialidade como vínculo com o real
Talvez um dos pontos mais radicais do livro esteja na crítica à desmaterialização do mundo. Ao transformar tudo em informação, nos afastamos da matéria, e com isso perdemos também a capacidade de perceber sua vitalidade.
Byung-Chul Han dialoga com autores como Deleuze e Jane Bennett para recuperar a ideia de que a matéria não é inerte, mas carregada de força, de transformação e de vida. A metalurgia, por exemplo, aparece como imagem dessa vitalidade, como um campo em que a matéria se revela em suas metamorfoses.
Quando a matéria é reduzida a recurso, algo essencial se perde. A relação com o mundo se torna instrumental. A Terra deixa de ser experimentada como presença e passa a ser tratada como estoque.
Essa mudança não é apenas ecológica, mas existencial. Uma ecologia sem uma nova ontologia da matéria, como sugere o livro, é insuficiente. É necessário reaprender a ver a matéria como algo vivo, como algo que participa da experiência e não apenas a sustenta silenciosamente.
O que ainda pode ser preservado
Diante desse cenário, a questão não é rejeitar a tecnologia, mas recuperar critérios. O problema não está na existência das não-coisas, mas no fato de que elas passaram a organizar quase integralmente a experiência.
Talvez o ponto mais importante seja reconhecer que presença, vínculo, memória e experiência não são efeitos automáticos de acesso, mas construções que exigem condições específicas. E essas condições, hoje, precisam ser deliberadamente protegidas.
Isso implica sustentar momentos de silêncio em meio ao ruído, permitir que certas experiências não sejam imediatamente convertidas em conteúdo, cultivar relações que não se esgotam na troca constante e, sobretudo, permitir que algo permaneça.
Porque permanecer, hoje, tornou-se um ato quase contracultural.
E talvez seja justamente nesse gesto que ainda se torna possível recuperar algo do mundo que está se perdendo na infosfera.

Psicólogo, mentor de carreiras e executivo de RH estratégico, com mais de duas décadas de atuação na interseção entre psicologia aplicada, decisões humanas e mundo do trabalho. Sua trajetória foi construída acompanhando pessoas, lideranças e organizações em momentos de alta complexidade emocional, transição e redefinição de rumos.
Atua como fundador da LEME Estratégico e criador do Método LEME, uma abordagem própria para leitura de trajetórias, desenvolvimento de lideranças e sustentação de decisões críticas de capital humano. Seu trabalho integra escuta psicológica, leitura sistêmica e pragmatismo executivo, especialmente em contextos de mudança, reestruturação, amadurecimento organizacional e transições de carreira.
É criador do Projeto Reconectar 40+, iniciativa voltada a homens e mulheres em fase de maturidade que buscam recuperar ritmo, coerência e presença na vida e no trabalho. Também é autor de conteúdos autorais sobre psicologia, carreira e identidade profissional, explorando os impactos do excesso, da performance contínua e das escolhas não elaboradas ao longo da vida.
Escreve e atua a partir de uma premissa simples e exigente: não existe performance sustentável sem integração humana, nem carreira saudável sem consciência de si.
www.eltondanielleme.com.br | WhatsApp | @eltondanielleme | YouTube – Projeto Reconetar 40+