O preço psicológico de viver sob a lógica do “fazer mais com menos”
Há uma frase que atravessa silenciosamente empresas, escolas, famílias e até nossas conversas íntimas: fazer mais com menos e cada vez mais rápido. No primeiro contato, ela soa pragmática. Parece eficiência, profissionalismo, foco. Com o tempo, porém, percebemos que ela se transforma em algo maior: um mandamento invisível, um critério de valor e, muitas vezes, uma forma de aprisionamento subjetivo em prol de uma performance sempre inatingível.
Vivemos imersos em uma era em que o desempenho se tornou não apenas medida de produtividade, mas medida de identidade. Não somos avaliados pelo que somos, e sim pelo que entregamos. E mais do que isso: passamos a nos avaliar com a mesma régua.
Este texto é um convite para recolocar o desempenho no seu devido lugar: como instrumento, não como destino. Como critério, não como sentença. Porque, quando a performance se torna mantra, deixamos de viver e começamos apenas a funcionar.
A lógica do desempenho como nova moralidade
A cultura do desempenho opera como uma moral silenciosa. Ela não precisa se justificar; ela se impõe. O discurso é sedutor: produtividade, foco, entrega, consistência. Mas, por trás da estética da eficiência, existe uma pressão que corrói com delicadeza: a pressão de estar sempre melhor, sempre acima, sempre disponível.
Byung-Chul Han descreve a sociedade atual como uma sociedade do cansaço, onde cada indivíduo se torna empreendedor de si mesmo. Já não precisamos de vigias externos. Nós mesmos nos policiamos. Nós mesmos nos cobramos. Nós mesmos nos punimos.
E quanto mais acreditamos que podemos tudo, mais nos culpamos quando não conseguimos.
O “sim” automático: como nos tornamos escravos de expectativas invisíveis
Muitos profissionais brilhantes, competentes, sensíveis, vivem presos a uma lógica que não nomeiam: a lógica da aprovação. O desejo de ser visto como indispensável cria um tipo peculiar de servidão voluntária. Assumem demandas que não cabem na agenda, apagam incêndios que não são seus, aceitam prazos impossíveis para não desapontar.
É uma obediência sem ordens explícitas.
Não existe um chefe gritando.
Existe um ideal interno, inatingível, que grita mais alto do que qualquer gestor.
E, como toda servidão sutil, ela é construída por dentro.
Somos o mestre e o escravo do mesmo sistema de expectativas.
A falácia do essencial: o trabalho acessório que ocupa o lugar do significativo
Uma das marcas da cultura da performance é a transformação do acessório em essencial. O ritmo acelerado cria urgências onde antes havia prioridades. Projetos que exigiriam reflexão são substituídos por entregas rápidas. O fundamental é adiado até que reste apenas o possível.
É a vida vivida no improviso permanente.
O problema não é fazer muito.
É fazer muito do que importa pouco.
É gastar dias inteiros em tarefas que sustentam a operação, mas não sustentam a integridade.
É confundir movimento com progresso.
É entregar volume e perder profundidade.
O corpo como primeira vítima: quando o desempenho quebra antes da consciência
Antes de o burnout ser diagnóstico, ele é descompasso. É a tentativa prolongada de viver em desacordo com o próprio ritmo. A cultura da performance insiste em nos convencer de que descansar é perder tempo, que pausar é fraqueza, que limitar é arriscar a reputação.
Mas o corpo não negocia.
O corpo não adia.
O corpo não finge.
Quando ele começa a falhar, não é por falta de força, mas por excesso de exigência.
Ele sinaliza que operar em modo de sobrevivência não sustenta uma vida inteira.
E, ainda assim, muitos insistem. Porque o mantra diz que suportar é virtude.
A recuperação da autonomia: devolver ao tempo sua densidade
Romper com o mantra da performance não é abandonar o trabalho.
É recolocar a vida no centro das escolhas.
É reorganizar o tempo para que ele volte a ser território, não corredor.
Autonomia não é fazer o que quiser.
É saber por que faz o que faz.
E isso exige presença, integridade e critério.
Requer uma vigilância suave sobre si mesmo, capaz de diferenciar urgência de relevância, necessidade de desejo, expectativa de coerência.
O trabalho continua sendo importante.
Ele apenas deixa de ser tirano.
A arte de dizer não: o gesto mais maduro de liberdade
Dizer não é, muitas vezes, a primeira ruptura com o mantra da performance.
Não para o excesso.
Não para a autoexigência desmedida.
Não para responsabilidades que não são suas.
Não para ritmos que violentam a sua presença.
Dizer não não é recusar uma tarefa.
É proteger o essencial.
É um movimento de cuidado: consigo, com o sentido da sua atuação, com aquilo que deseja sustentar no mundo.
A pessoa que aprende a dizer não descobre que produtividade é consequência de coerência, não de sacrifício.
Ritmo, profundidade e presença: o tripé da produtividade madura
Produtividade sustentável não é acelerar.
É discernir.
É criar espaço para concentração real.
É sustentar rituais internos que ancoram o pensamento.
É preservar margens para reflexão, porque sem reflexão o desempenho se torna repetição mecânica.
Ritmo não é lentidão.
É adequação.
É saber que cada fase da vida pede um compasso diferente.
E que viver acelerado o tempo todo é tão disfuncional quanto viver parado.
Um novo contrato consigo mesmo
A questão não é abandonar a performance.
A questão é retirar dela o status de identidade.
Quando o desempenho deixa de ser mantra, você recupera a liberdade de escolher. Escolher o que construir, como construir e para quem construir. E, principalmente, a partir de qual estado interno.
A pergunta que fica não é:
“Como produzir mais?”
É outra:
“O que meu desempenho está, de fato, a serviço de sustentar?”
Porque trabalhar muito é fácil.
Difícil é trabalhar de forma coerente.
Difícil é alinhar ação e consciência.
Difícil é ser humano em um tempo que premia máquinas.
Mas é justamente aí que mora a liberdade.

Sobre o autor
Elton Daniel Leme é psicólogo, mentor de carreiras e consultor de RH estratégico, com mais de 21 anos de experiência dedicados ao desenvolvimento humano, saúde mental e educação corporativa. Formado pela Universidade São Marcos e pós-graduando em Gestão de Pessoas, Carreiras, Liderança e Coaching pela PUCRS, possui certificações em Assessment Center, DISC, MBTI, Profiler e Coaching (EBC). Atua na intersecção entre psicologia e carreira, ajudando pessoas e organizações a alinharem propósito, performance e bem-estar.
É fundador do Projeto Reconectar 40+, uma iniciativa voltada a homens e mulheres que buscam reconectar-se consigo mesmos, desacelerar e redescobrir significado na vida e no trabalho. O programa combina autoconhecimento, propósito e desenvolvimento humano, transformando a transição dos 40+ em um ponto de virada com mais autenticidade e equilíbrio.
Elton também é autor das newsletters Psicologia Atemporal e Carreira em Transição, que já somam cada uma mais de 6 mil assinantes. Alternando semanalmente entre ambas, compartilha reflexões sobre mente, propósito e futuro do trabalho, unindo profundidade psicológica e aplicabilidade profissional.
É criador do Clube da Escrita, grupo dedicado a fomentar a escrita terapêutica e autêntica, e também escritor, tendo publicado seu primeiro livro, Abissal, um compilado de poesias e crônicas escritas ao longo de 25 anos, como marco de uma nova fase criativa e autoral.
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