Como Formamos Adultos, Escolhas e Sentidos
A formação para a vida profissional começa muito antes do primeiro emprego. Inicia-se nos discursos que ouvimos, nas expectativas que absorvemos, nos modelos que imitamos e, sobretudo, na maneira como aprendemos a interpretar a nós mesmos. Durante muito tempo, educar para o trabalho significou preparar pessoas para se encaixar em estruturas fixas, funções previsíveis e trajetórias lineares. Esse mundo já não existe. O que permanece, porém, é o impacto emocional e simbólico dessa educação sobre nossa capacidade de escolher, sustentar e reconstruir uma carreira ao longo da vida.
Vivemos um tempo em que o trabalho se tornou uma das principais narrativas de identidade. Ele não apenas organiza nossa rotina, mas também influencia o modo como nos percebemos e como esperamos ser percebidos. A questão que se impõe é simples e, ao mesmo tempo, profunda: estamos realmente preparados para dialogar com um mercado em constante mutação, ou ainda carregamos modelos educacionais que nos treinam para obedecer mais do que para pensar?
O trabalho como linguagem de identidade
O trabalho deixou de ser apenas função. Tornou-se expressão. Ele revela vocações, inquietações, limites, ambivalências. Ele dá forma à nossa presença no mundo e ao nosso senso de utilidade. Mas, quando o trabalho é tratado apenas como via de sobrevivência ou instrumento de produtividade, sua dimensão subjetiva se perde. E é justamente essa perda que produz grande parte da ansiedade contemporânea.
Passamos de um modelo estático, onde carreiras eram tão sólidas quanto as instituições que as sustentavam, para um modelo fluido, marcado por ciclos curtos, reinvenções constantes e múltiplas versões de si ao longo do tempo. No entanto, nossa educação — formal e emocional — ainda tenta nos preparar para um futuro que já não responde a esses moldes.
O colapso da educação tradicional frente às exigências contemporâneas
A escola moderna foi criada para atender a um mundo industrial, onde previsibilidade era signo de sucesso. Ela moldou comportamentos, padronizou competências e ensinou a procurar respostas. Mas o século XXI exige outra coisa: capacidade de formular boas perguntas.
A educação orientada para a carreira deveria ser menos sobre direcionar caminhos e mais sobre desenvolver consciência. Menos sobre encaixe e mais sobre leitura de contexto. Menos sobre obedecer instruções e mais sobre construir critérios. É nesse ponto que a crítica mais profunda se estabelece: seremos adultos mais preparados não quando soubermos mais conteúdos, mas quando compreendermos mais a nós mesmos e ao mundo que habitamos.
A carreira não é consequência da formação técnica, mas da maturidade psíquica. E maturidade exige revisitar crenças, desconstruir pressões internas, reorganizar identidades que carregamos desde a infância.
A escolha profissional como processo de subjetivação
Escolher uma carreira pede menos certezas e mais consciência. É processo lento, não decisão pontual. Exige a capacidade de reconhecer talentos, confrontar limites e sustentar dúvidas sem paralisia. No entanto, muitos de nós fomos educados para buscar segurança, não para lidar com complexidade. Para escolher rápido, não para refletir.
Por isso, não surpreende que tantos adultos vivam conflitos profissionais que não são técnicos — são identitários. A transição de carreira, por exemplo, é menos uma mudança de função e mais uma reinterpretação de si. Envolve abandonar narrativas antigas, revisar papéis internalizados e reconhecer novas possibilidades. Ela é, antes de tudo, movimento interno.
Não é o curso que transforma a carreira. É o sujeito que se transforma a partir da reflexão que acompanha o curso.
O adulto contemporâneo diante da mudança
Para quem já percorreu parte da jornada profissional, a exigência de atualização constante pode soar como ameaça. Não pela mudança em si, mas pela sensação de inadequação que ela desperta. A formação contínua, tão valorizada, não deveria servir para inflar competências, mas para ampliar consciência. Estudar não é acumular conteúdos; é reorganizar modos de pensar.
É nesse ponto que mentoria, reflexão estruturada e educação emocional se tornam centrais. Sem elas, o adulto se perde entre expectativas externas e inquietações internas, reagindo ao mercado em vez de dialogar com ele.
A tríplice responsabilidade: família, escola e comunidade
A formação para a carreira não é responsabilidade exclusiva da escola. Ela envolve três camadas simbólicas que moldam nosso senso de possibilidade:
Família: onde aprendemos a interpretar valor, sucesso, falha e merecimento.
Escola: onde aprendemos a ler o mundo, mas raramente a ler a nós mesmos.
Comunidade e trabalho: onde testamos nossas hipóteses identitárias na prática.
Uma educação orientada à carreira deve integrar essas três dimensões. Ela precisa formar sujeitos capazes de se perceber, se posicionar e se reinventar, em vez de apenas se adaptar.
Carreira e equilíbrio: maturidade como fundamento
O equilíbrio entre vida e trabalho não é agenda, mas consciência. Ele não nasce de regras externas, mas da habilidade interna de estabelecer limites e priorizar o que sustenta nossa integridade. Não existe carreira que compense a perda de si. E não existe propósito que sobreviva à exaustão.
O equilíbrio é menos sobre conciliação e mais sobre coerência. Menos sobre administrar tempo e mais sobre administrar presença.
Carreira não é trilha. É diálogo entre identidade, possibilidades e ritmos humanos.
Uma síntese possível
A educação orientada para a carreira não é apenas formação profissional. É formação humana. Ela prepara para escolhas, para mudanças, para ciclos. Ela organiza o encontro entre quem somos e o que buscamos sustentar no mundo. E, nesse encontro, a carreira deixa de ser resultado e passa a ser expressão.
Em tempos de transformações rápidas, construir uma trajetória significativa exige menos certezas e mais lucidez. Exige presença. Exige maturidade. Exige a capacidade de alinhar passado, presente e futuro em uma narrativa coerente — não porque a vida é linear, mas porque o sujeito que a vive precisa ser.
A pergunta que fica não é “qual carreira devo seguir?”, mas “qual vida desejo sustentar através do trabalho?”.

Sobre o autor
Elton Daniel Leme é psicólogo, mentor de carreiras e consultor de RH estratégico, com mais de 21 anos de experiência dedicados ao desenvolvimento humano, saúde mental e educação corporativa. Formado pela Universidade São Marcos e pós-graduando em Gestão de Pessoas, Carreiras, Liderança e Coaching pela PUCRS, possui certificações em Assessment Center, DISC, MBTI, Profiler e Coaching (EBC). Atua na intersecção entre psicologia e carreira, ajudando pessoas e organizações a alinharem propósito, performance e bem-estar.
É fundador do Projeto Reconectar 40+, uma iniciativa voltada a homens e mulheres que buscam reconectar-se consigo mesmos, desacelerar e redescobrir significado na vida e no trabalho. O programa combina autoconhecimento, propósito e desenvolvimento humano, transformando a transição dos 40+ em um ponto de virada com mais autenticidade e equilíbrio.
Elton também é autor das newsletters Psicologia Atemporal e Carreira em Transição, que já somam cada uma mais de 6 mil assinantes. Alternando semanalmente entre ambas, compartilha reflexões sobre mente, propósito e futuro do trabalho, unindo profundidade psicológica e aplicabilidade profissional.
É criador do Clube da Escrita, grupo dedicado a fomentar a escrita terapêutica e autêntica, e também escritor, tendo publicado seu primeiro livro, Abissal, um compilado de poesias e crônicas escritas ao longo de 25 anos, como marco de uma nova fase criativa e autoral.
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