Existencialismo e propósito

Existencialismo e propósito

Vivemos cercados por discursos que prometem “claridade”, “chamado” e “direção”. A narrativa dominante afirma que cada pessoa possui um propósito único e pré-definido, como se existisse um ponto exato no mundo onde nossa missão repousa à espera de ser encontrada. Essa expectativa gera ansiedade, comparação e, sobretudo, a ilusão de que há uma resposta perfeita, do tipo que ilumina tudo de uma vez.

Mas a vida real é mais inquieta, mais errante e mais criativa do que isso. O existencialismo nos lembra que o sentido não está à espera de ser revelado. Ele é construído. Surge do encontro entre escolhas, contingências e a coragem de assumir nossa própria liberdade. Nada está dado. Nada é garantido. Nada vem pronto. O propósito, portanto, não é revelação. É construção.

E mais: é construção apesar do vazio, das dúvidas e das incertezas. É um gesto de criação em território instável. É uma ética íntima diante da liberdade.

O existencialismo deixa de ser filosofia para se tornar prática: uma forma de habitar o mundo com presença, responsabilidade e autenticidade.


A angústia da liberdade: o chamado inevitável

Sartre afirmou que “o homem está condenado a ser livre”. A frase, tantas vezes citada, guarda uma tensão profunda. Liberdade não é apenas privilégio; é fardo. Ser livre é reconhecer que cada escolha é nossa. Que cada renúncia também é. Não há manual. Não há roteiro. Não há garantia de acerto.

A liberdade existencial desnuda nossas ilusões: percebemos que nada nos impede de viver de outro modo além de nós mesmos. E isso, por si só, é fonte de angústia.

Na vida profissional, essa consciência se intensifica:

• Qual caminho expressa quem eu sou neste momento da vida?
• Estou respondendo ao meu desejo ou ao desejo de quem me observa?
• Onde busco segurança e onde busco expansão?
• O que estou sacrificando para manter uma imagem de estabilidade?
• Que versões de mim mesmo já deixei para trás?

Toda escolha profissional é um ato de autoria. Toda não-escolha também. O propósito, nessa perspectiva, não é um destino revelado, mas o fio que costura cada uma dessas decisões.


Kierkegaard e a coragem de se posicionar

Søren Kierkegaard dizia que a angústia é a “vertigem da liberdade”. Ela aparece quando enxergamos que tudo poderia ser diferente — e que cabe a nós escolher. A liberdade, portanto, não é suave. É abismo. É salto. É responsabilidade diante do possível.

Na construção de um caminho profissional, essa visão se torna essencial. Ter clareza sobre direção não significa eliminar medo, mas agir apesar dele. Kierkegaard via o salto de fé como gesto decisivo: não fé religiosa, mas fé existencial. A fé na própria escolha.

Coragens fundamentais para construir sentido na vida e na carreira:

• Sair do piloto automático e tomar decisões que expressem quem você é agora.
• Enfrentar projeções externas sem perder sua soberania interna.
• Abandonar narrativas antigas que já não refletem sua maturidade.
• Aceitar que decepcionar alguns é inevitável quando se escolhe com autenticidade.

Propósito exige exatidão emocional. E exatidão costuma nascer de renúncias conscientes.


Albert Camus e o absurdo: criar apesar do vazio

Camus começa pelo óbvio incômodo: buscamos significado, mas o mundo não nos entrega respostas prontas. Existe um descompasso entre nossa necessidade de sentido e a indiferença do universo. A isso ele chama de absurdo.

Mas o absurdo não é derrota. É convite.

Em O mito de Sísifo, Camus afirma que o valor da vida não nasce das garantias, mas da capacidade de seguir criando sentido mesmo sem elas. Sísifo encontra dignidade no ato de empurrar a pedra porque descobre liberdade justamente no instante em que aceita o mundo tal como é.

No trabalho, isso nos devolve uma compreensão poderosa: não existe “posição perfeita”, “empresa perfeita”, “propósito perfeito”. O sentido nasce da presença. Do fazer. Da construção diária. Do encontro entre nossas potências e as circunstâncias que nos atravessam.

Propósito, assim, não é destino. É gesto.


A desconstrução do ideal romântico de propósito

O discurso contemporâneo transformou o propósito em espetáculo. Livros, palestras e slogans reforçam a fantasia de que basta “encontrar seu propósito” para que a vida se alinhe automaticamente. Isso cria três armadilhas:

Paralisia: esperar uma revelação mística antes de agir.
Culpa: sentir-se inadequado por não ter “clareza”.
Vitrine: transformar o propósito em performance social.

O existencialismo rompe com essa lógica. Ele não promete plenitude, mas integração possível. O propósito pode mudar. Pode evoluir. Pode se deslocar com você. Não precisa ser eterno. Só precisa ser verdadeiro o suficiente para agora.


Dimensões psicológicas do propósito: entre liberdade e limite

Construir propósito é também um movimento psicológico. Requer:

• reconhecer limites, não como fraquezas, mas como contornos;
• distinguir entre desejo genuíno e desejo herdado;
• identificar o que sustenta energia e o que drena vitalidade;
• aceitar que o propósito não elimina as tensões internas, apenas lhes dá direção.

A psique não busca perfeição, busca coerência. E coerência não significa alinhamento total, mas equilíbrio entre escolhas e emoções. Propósito é uma composição, não uma fórmula.


Aplicando o existencialismo na prática

Se o sentido não vem pronto, como construí-lo?

Cinco práticas existenciais para criar e sustentar propósito:

1. Assuma protagonismo radical.
Ninguém virá entregar seu projeto de vida. Propósito nasce de autoria.

2. Teste hipóteses.
O sentido se revela no fazer. Em movimento. Em tentativas.

3. Troque certezas por coerência.
Pergunte-se o que é verdadeiro e sustentável hoje, não para sempre.

4. Reescreva sua rota quando necessário.
Mudar não é fraqueza; é sinal de autoconsciência.

5. Cultive coerência emocional.
Não espere que tudo faça sentido por fora, mas que algo faça sentido por dentro.


O propósito como travessia

O existencialismo não oferece mapas. Oferece uma bússola. Ela aponta para aquilo que pulsa com verdade em nós: valores, direção interna, desejo maduro. Propósito, nessa perspectiva, é forma de caminhar, não de chegar.

É uma prática de presença. Uma ética íntima. Uma construção viva.

Não é sobre destino. É sobre direção.


Viver com inteireza, mesmo sem garantias

Viver com propósito é sustentar um fio de sentido mesmo quando o chão oscila. É criar algo que faça sentido, mesmo que transitório. É aceitar que não existe vida sem ambiguidade — e que dignidade não está na perfeição, mas na honestidade do caminho.

Propósito é, no fundo, uma afirmação silenciosa: “Estou aqui. Presente. Criando sentido possível. E isso é o bastante.”

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Elton Daniel Leme

Psicólogo, mentor de carreiras e executivo de RH estratégico, com mais de duas décadas de atuação na interseção entre psicologia aplicada, decisões humanas e mundo do trabalho. Sua trajetória foi construída acompanhando pessoas, lideranças e organizações em momentos de alta complexidade emocional, transição e redefinição de rumos.

Atua como fundador da LEME Estratégico e criador do Método LEME, uma abordagem própria para leitura de trajetórias, desenvolvimento de lideranças e sustentação de decisões críticas de capital humano. Seu trabalho integra escuta psicológica, leitura sistêmica e pragmatismo executivo, especialmente em contextos de mudança, reestruturação, amadurecimento organizacional e transições de carreira.

É criador do Projeto Reconectar 40+, iniciativa voltada a homens e mulheres em fase de maturidade que buscam recuperar ritmo, coerência e presença na vida e no trabalho. Também é autor de conteúdos autorais sobre psicologia, carreira e identidade profissional, explorando os impactos do excesso, da performance contínua e das escolhas não elaboradas ao longo da vida.

Escreve e atua a partir de uma premissa simples e exigente: não existe performance sustentável sem integração humana, nem carreira saudável sem consciência de si.

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