A crise da narração no LinkedIn
Do choque ao like: por que desaprendemos a narrar
Há algum tempo venho sentindo um incômodo discreto ao circular pelo LinkedIn. Não é incômodo com as pessoas, mas com o ritmo. Com a urgência que sequestrou nossa forma de comunicar. A rede parece pedir impacto, não elaboração. Likes no lugar de escuta. Performance no lugar de presença. E o storytelling arquitetado com intenção premeditada.
E confesso: tenho me perguntado como conciliar a escrita profunda, aquela que nasce da pausa e da densidade, com a cultura do post rápido, do carrossel otimizado, do conteúdo que “precisa performar”.
Escrever com profundidade tornou-se quase um ato de resistência.
O algoritmo favorece o instantâneo; a profundidade exige tempo.
E tempo é o que desaprendemos a oferecer — ao outro e a nós mesmos.
Foi em A Crise da Narração, de Byung-Chul Han, que encontrei o espelho conceitual desse mal-estar contemporâneo.
Do choque ao like
Han parte de Walter Benjamin e de sua imagem simbólica: um poeta que perde sua auréola ao atravessar uma avenida. Ela cai no asfalto, no meio da pressa e da confusão. Desde então, diz Benjamin, vivemos sem aura. Sem esse brilho simbólico que dava profundidade às experiências.
Quando a aura se perde, sobra a sucessão dos fatos.
A vida se achata.
A experiência vira vivência fragmentada.
Han então sintetiza: a modernidade troca o choque pelo like.
O choque no sentido benjaminiano despertava, feria, pensava.
O like anestesia.
O feed oferece estímulos demais para que algo realmente nos toque.
O scroll virou entorpecimento.
O post virou microdose de dopamina.
O like substituiu o espanto.
O smartphone, observa Han, é o espelho narcísico do nosso tempo. Ele substitui o olhar pelo reflexo. Transforma o outro em superfície lisa, onde só vemos a nós mesmos.
E uma tela plana não permite atravessamento. Então, como devemosconstruir nossa narrativa, nosso storytelling?
O tempo sem narrativa
O que antes era narrativa — um fio que costurava passado, presente e futuro — tornou-se apenas fluxo de informações. Han chama isso de tempo compactado: um presente contínuo, sem começo nem fim, sem profundidade.
É o tempo do feed.
Da atualização incessante.
Da vida sempre em rascunho.
O LinkedIn é expressão viva dessa modernidade tardia: tudo precisa gerar valor, performar, converter, engajar.
Mas aquilo que apenas se atualiza não se transforma.
Estamos cercados de discursos sobre propósito, autenticidade, carreira com sentido… e paradoxalmente mais distantes da narrativa genuína, que nasce da lentidão da escuta e não da pressa da publicação.
Storytelling ou Storyselling?
A promessa do storytelling parecia anunciar o retorno das histórias.
Na prática, virou storyselling: a comercialização da emoção.
Como escreve Han:
“Na época do storytelling como storyselling, narração e anúncio são indistinguíveis.”
O LinkedIn se transformou em um palco de branding existencial.
Cada perfil é uma marca.
Cada vulnerabilidade, estratégia.
Cada história, CTA.
Não contamos mais experiências. Curamos conteúdos.
Não narramos. Vendemos.
Han chama isso de narrativa neoliberal do desempenho: cada um se torna empreendedor de si mesmo, administrando sua própria personalidade como um ativo emocional.
E quanto mais nos comunicamos, menos nos compreendemos.
Quanto mais mostramos, menos tocamos.
“Postamos, compartilhamos, curtimos. A comunidade sem comunicação dá lugar à comunicação sem comunidade.”
A transparência total elimina o véu — e com ele, a profundidade.
A cura pela palavra
Se a doença é a aceleração, a cura é o ritmo.
Se o mal é a fragmentação, a cura é o enredo.
Se o vazio é o excesso, a cura é a pausa.
Han retoma Benjamin: narrar cura porque transforma o vivido em sentido.
Dá forma ao que estava disperso.
Liquefaz a dor.
Inscreve o sujeito no mundo.
Do mesmo modo, escutar cura.
Escutar devolve ao outro o direito de existir fora da performance.
“A escuta se concentra não no conteúdo, mas no quem do outro. Ela inspira o outro a narrar.”
Talvez o LinkedIn precise disso:
menos fala, mais ressonância.
menos instrução, mais presença.
menos disputa por atenção, mais partilha de significado.
A aldeia sob a pereira
Han cita Peter Nádas e sua aldeia húngara, onde moradores se reuniam sob uma pereira selvagem para ouvir histórias. Nada era gravado, ranqueado ou curtido. Era transmissão de mundo. Comunhão.
“A comunidade narrativa é uma comunidade sem comunicação”, escreve Han.
Sem comunicação técnica, mas cheia de comunhão humana.
Talvez nosso desafio seja reconstruir essa aldeia simbólica mesmo em meio às telas.
Reencontrar o tempo da palavra viva.
A coragem da pausa.
A maturidade de narrar e onstruir nosso storyelling não para impressionar, mas para compreender.
Narrar é resistir à obsolescência da alma.
É salvar algo do tempo.
É curar a vida pela palavra.
Mais alguns insights
A vida sem narrativa é apenas sequência de fatos.
A vida narrada é travessia.
No LinkedIn e fora dele, talvez estejamos todos tentando reaprender a narrar: dizer algo que ultrapasse o útil, o performático, o vendável.
Escrever não para viralizar, mas para compreender.
Escrever ainda é um dos gestos mais humanos: transformar sobrevivência em sentido.
Se o mundo parece raso, talvez seja porque ninguém mais está narrando — apenas descrevendo.
Han nos sussurra, quase terapeuticamente:
“Somente a narração eleva a vida além de sua nudez. Somente ela nos dá esperança.”
Talvez seja disso que precisamos:
esperança, pausa, palavra —
e coragem de continuar narrando (storytelling legítimo) em meio ao barulho.

Sobre o autor
Elton Daniel Leme é psicólogo, mentor de carreiras e consultor de RH estratégico, com mais de 21 anos de experiência dedicados ao desenvolvimento humano, saúde mental e educação corporativa. Formado pela Universidade São Marcos e pós-graduando em Gestão de Pessoas, Carreiras, Liderança e Coaching pela PUCRS, possui certificações em Assessment Center, DISC, MBTI, Profiler e Coaching (EBC). Atua na intersecção entre psicologia e carreira, ajudando pessoas e organizações a alinharem propósito, performance e bem-estar.
É fundador do Projeto Reconectar 40+, uma iniciativa voltada a homens e mulheres que buscam reconectar-se consigo mesmos, desacelerar e redescobrir significado na vida e no trabalho. O programa combina autoconhecimento, propósito e desenvolvimento humano, transformando a transição dos 40+ em um ponto de virada com mais autenticidade e equilíbrio.
Elton também é autor das newsletters Psicologia Atemporal e Carreira em Transição, que já somam cada uma mais de 6 mil assinantes. Alternando semanalmente entre ambas, compartilha reflexões sobre mente, propósito e futuro do trabalho, unindo profundidade psicológica e aplicabilidade profissional.
É criador do Clube da Escrita, grupo dedicado a fomentar a escrita terapêutica e autêntica, e também escritor, tendo publicado seu primeiro livro, Abissal, um compilado de poesias e crônicas escritas ao longo de 25 anos, como marco de uma nova fase criativa e autoral.
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