ansiedade e presença

Ansiedade na pós-modernidade

Por que nosso tempo interior ficou tão barulhento

Outro dia me vi refletindo sobre algo que toca a todos nós, em maior ou menor grau: a ansiedade. Ela não é apenas um desconforto passageiro, mas uma forma de viver o tempo. Um estado de tensão entre o que desejamos controlar e o que a realidade insiste em nos apresentar.

A etimologia da palavra já anuncia sua natureza. Ansiedade vem do latim angere, que significa apertar, sufocar. É o corpo tentando conter o que não cabe no pensamento. E essa sensação de aperto parece ter se tornado o idioma da modernidade.

Vivemos imersos em um excesso constante: de estímulos, de tarefas, de expectativas. Chamamos de produtividade o que, muitas vezes, é apenas dispersão disfarçada. Alternamos entre janelas, reuniões, mensagens e notificações com uma pressa que não se sustenta. O resultado é um cérebro sobrecarregado, sem espaço para respirar.

Ansiedade no mundo e no Brasil

A ansiedade é um dos fenômenos mais recorrentes do nosso tempo. Segundo a Organização Mundial da Saúde, mais de 300 milhões de pessoas vivem com algum transtorno ansioso no mundo. Isso equivale a cerca de 4% da população global.

No Brasil, o quadro é ainda mais intenso: somos frequentemente apontados entre os países com maior prevalência de ansiedade, especialmente em contextos urbanos e profissionais. O ritmo acelerado, as pressões por desempenho e a insegurança econômica tornam o corpo e a mente reféns da urgência.

Esses números revelam mais do que estatísticas. Revelam uma cultura que normalizou o cansaço e romantizou o estresse.

Multitarefa, atenção e o ritmo que adoece

O trabalho contemporâneo exige velocidade, flexibilidade e disponibilidade permanente. Passamos boa parte do dia alternando entre telas, aplicativos e conversas simultâneas. Mas a mente não foi feita para funcionar em modo multitarefa contínuo.

Pesquisas apontam que a alternância frequente entre tarefas reduz em até 40% a produtividade, pois o cérebro precisa de tempo para reorientar-se a cada mudança de foco. O resultado é a sensação de estar sempre ocupado, mas raramente pleno.

Há também uma estética do barulho. Escritórios abertos, sons constantes, notificações piscando. Vivemos conectados e, ao mesmo tempo, desconectados de nós mesmos. O corpo presente, mas a atenção distante.

Essa hiperconectividade cria um paradoxo: nunca estivemos tão informados e, ao mesmo tempo, tão desatentos ao que importa.

Ansiedade e tecnologia: o medo do futuro

A chegada acelerada da inteligência artificial adicionou uma nova camada de tensão. Junto com o fascínio pelas possibilidades, veio o medo silencioso de sermos substituídos.

Pesquisas recentes mostram que cerca de três em cada quatro profissionais temem que a IA torne suas funções obsoletas. E, paradoxalmente, boa parte já utiliza ferramentas de IA sem treinamento formal, o que amplia o sentimento de incerteza.

Essa ansiedade tecnológica não é irracional. Ela nasce do desconhecimento. O futuro parece promissor, mas também imprevisível. E a ausência de diretrizes claras nas organizações faz com que muitos vivam em um estado de alerta contínuo.

O antídoto não é rejeitar a tecnologia, mas restituir-lhe propósito. Quando sabemos por que e como usar as ferramentas, a IA deixa de ser ameaça e passa a ser aliada.

Expectativa não é esperança

É comum confundirmos expectativa com esperança. Expectativa é fantasia misturada com medo. Esperança é presença combinada com vontade de agir.

A expectativa nos coloca em um tempo que ainda não existe. A esperança nos ancora no agora, com os pés firmes e o olhar atento. A expectativa paralisa. A esperança impulsiona.

No contexto do trabalho, essa diferença é vital. Expectativas inflexíveis geram frustração e controle. Esperança, ao contrário, é método: oferece direção, mas respeita o ritmo da realidade.

Carl Rogers e a arte de desacelerar por dentro

Carl Rogers, psicólogo humanista, dizia que quanto mais me aceito, mais posso aceitar o outro. Essa frase contém um princípio curativo para os tempos de ansiedade: a congruência interna.

A autocompreensão reduz ruído emocional e devolve foco. Quando não precisamos provar nada, o corpo respira melhor, a mente se reorganiza e o trabalho ganha qualidade.

Rogers e outros pensadores como Martin Buber e Viktor Frankl nos lembram de algo essencial: não há transformação sem presença. A pressa é inimiga da autenticidade.

O barulho que molda o medo

Vivemos uma overdose de estímulos negativos. O noticiário diário, as redes sociais, as comparações constantes. Tudo reforça a sensação de que o mundo está prestes a desabar.

Mas a percepção de ameaça contínua distorce a realidade. Passamos a enxergar o mundo não como ele é, mas como o medo o descreve. Esse viés alimenta o ciclo ansioso.

Voltar à proporção é um ato de resistência. Nem tudo é urgente. Nem toda resposta precisa ser imediata. Há beleza em não saber. Há sabedoria em pausar.

O preço da pressa

Um experimento famoso ilustra o que perdemos quando vivemos em estado de urgência. O violinista Joshua Bell, um dos maiores músicos do mundo, tocou incógnito no metrô de Washington. Quase ninguém parou para ouvi-lo.

Não foi por ignorância musical, mas por pressa. A pressa é um filtro da beleza. Ela torna invisível tudo o que não grita.

Quantas vezes fazemos o mesmo com a vida? Quantas vezes passamos por algo extraordinário sem perceber, apenas porque estamos com pressa de “chegar lá”?

Práticas de presença no cotidiano de trabalho

A vida não exige fórmulas complexas, mas práticas simples e consistentes. Pequenos gestos de atenção podem reeducar o corpo para o presente.

Alguns exemplos práticos:

  • Estabeleça blocos curtos de foco, entre 25 e 50 minutos, sem interrupções.
  • Faça pausas conscientes. Respire antes de iniciar a próxima tarefa.
  • Reduza notificações visuais e sonoras. O silêncio é um recurso cognitivo.
  • Caminhe sem celular, nem que seja por cinco minutos.
  • Escolha momentos do dia para desconectar-se totalmente das telas.

Essas pequenas decisões, repetidas com constância, restituem clareza e diminuem a ansiedade funcional.

Presença como estratégia de vida

O presente não é apenas um refúgio emocional, é também uma ferramenta de performance. Estar inteiro em cada ação produz resultados mais consistentes, relações mais humanas e uma sensação genuína de domínio do tempo.

A filosofia grega já dizia que só o agora é real. Kavafis, em seu poema Ítaca, reforça essa mesma lição: mais importante que o destino é a jornada. São os portos onde atracamos e os aprendizados que colhemos que realmente nos transformam.

A esperança, portanto, é disciplina. É manter-se disponível ao instante sem renunciar ao propósito.

Insights finais

A ansiedade nos espreme. A filosofia nos convida à expansão. A psicologia nos ensina método.

O mundo moderno continuará exigente e as tecnologias continuarão mudando. A questão é como decidimos nos mover por dentro.

Permita-se um instante de pausa hoje. Um bloco de foco. Uma conversa sem pressa. Um olhar para o que está diante de você. Talvez o extraordinário esteja aí, silencioso, esperando que você repare.

O que a vida quer te ensinar agora — e que você ainda não parou para notar?


Referências e leituras

  • ROGERS, Carl. Tornar-se Pessoa. Martins Fontes.
  • FRANKL, Viktor. Em busca de sentido. Vozes.
  • BUBER, Martin. Eu e Tu. Centauro Editora.
  • KAVAFIS, Konstantinos. Ítaca. Poema clássico.
  • OMS – Organização Mundial da Saúde. Relatório Global de Saúde Mental 2023–2025.

Sobre o autor

Elton Daniel Leme é psicólogo, mentor de carreiras e consultor de RH estratégico, com mais de 21 anos de experiência dedicados ao desenvolvimento humano, saúde mental e educação corporativa. Formado pela Universidade São Marcos e pós-graduando em Gestão de Pessoas, Carreiras, Liderança e Coaching pela PUCRS, possui certificações em Assessment Center, DISC, MBTI, Profiler e Coaching (EBC). Atua na intersecção entre psicologia e carreira, ajudando pessoas e organizações a alinharem propósito, performance e bem-estar.

É fundador do Projeto Reconectar 40+, uma iniciativa voltada a homens e mulheres que buscam reconectar-se consigo mesmos, desacelerar e redescobrir significado na vida e no trabalho. O programa combina autoconhecimento, propósito e desenvolvimento humano, transformando a transição dos 40+ em um ponto de virada com mais autenticidade e equilíbrio.

Elton também é autor das newsletters Psicologia Atemporal e Carreira em Transição, que já somam cada uma mais de 6 mil assinantes. Alternando semanalmente entre ambas, compartilha reflexões sobre mente, propósito e futuro do trabalho, unindo profundidade psicológica e aplicabilidade profissional.

É criador do Clube da Escrita, grupo dedicado a fomentar a escrita terapêutica e autêntica, e também escritor, tendo publicado seu primeiro livro, Abissal, um compilado de poesias e crônicas escritas ao longo de 25 anos, como marco de uma nova fase criativa e autoral.

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